Eliane Colchete
Filosofia da Potência III
Em seu mais célebre texto, intitulado "Bruno", Schelling expõe o seu sistema. O referencial é o platonismo, já pela escolha do gênero e até pelo título tirado ao Timeu 68e6; 69 a1, "do princípio divino e natural das coisas". Porém aí a linguagem é neoplatônica, postulando-se o Um como o real objeto da filosofia, mas na verdade modulado pelo naturalismo como se poderia esperar pela referência a Giordano Bruno.
O escopo de Schelling, portanto diverso do antigo idealismo, é a união da aparência e da essência, demonstrando-se a necessidade daquela em função do modo de ser desta, e assim afirmando a ideia do ente singular, ao contrário da ideia geral; o caráter infinito dos seres como sistemas autoconstituídos ("infinitos curvos"), de modo que suas leis são imanentes, específicas; o evolucionismo; e a identidade perfeita de Deus e da Natureza: "A potência suprema, poratnto, ou o verdadeiro Deus, é aquele fora do qual a natureza não é, assim como a verdadeira natureza é aquela for da qual Deus não é". (Pensadores, p. 298) Mas aqui Deus é potência em vez de "ato". A utilização da terminologia aristotélica, contudo, é só aparentemente invertida.
Filosofia da Potência III
Em seu mais célebre texto, intitulado "Bruno", Schelling expõe o seu sistema. O referencial é o platonismo, já pela escolha do gênero e até pelo título tirado ao Timeu 68e6; 69 a1, "do princípio divino e natural das coisas". Porém aí a linguagem é neoplatônica, postulando-se o Um como o real objeto da filosofia, mas na verdade modulado pelo naturalismo como se poderia esperar pela referência a Giordano Bruno.
O escopo de Schelling, portanto diverso do antigo idealismo, é a união da aparência e da essência, demonstrando-se a necessidade daquela em função do modo de ser desta, e assim afirmando a ideia do ente singular, ao contrário da ideia geral; o caráter infinito dos seres como sistemas autoconstituídos ("infinitos curvos"), de modo que suas leis são imanentes, específicas; o evolucionismo; e a identidade perfeita de Deus e da Natureza: "A potência suprema, poratnto, ou o verdadeiro Deus, é aquele fora do qual a natureza não é, assim como a verdadeira natureza é aquela for da qual Deus não é". (Pensadores, p. 298) Mas aqui Deus é potência em vez de "ato". A utilização da terminologia aristotélica, contudo, é só aparentemente invertida.
Schelling
antecipa Heidegger, na crítica à noção de ato puro como tradução
adequada ao pensamento aristotélico.
"Em sua forma, portanto, atividade e ser estão sempre, por
certo, igualados (de tal modo que o agente é também o subsistente
e, inversamente, o
subsistente é também o agente)...",
mas, na medida em que o ser
é singular, a igualdade é
efetuada pela unidade, com a
qual o ser
se relaciona por si mesmo, como com seu fundamento.
O
erro estaria pois na concepção mecanicista que tomando
a natureza à parte, ignora
o fundamento, que é Deus como sua
unidade. Um argumento que
não é tanto o "além do ser" platônico, como o
teleológico aristotélico,
como se verá mais claramente na crítica a Hegel.
É interessante que o erro
da interpretação do ato
puro, é atribuído por
Schelling como resultado do mecanicismo assim
definido.
Se a natureza foi vista
pelos criticados como causa puramente mecânica, "Ao
mesmo tempo, na medida em
que determinaram [a natureza] como um ser meramente passivo,
acreditaram ter adquirido para si o direito de determinar Deus, que
elevam acima da natureza, como atividade pura, pura atuosidade, como
se um desses conceitos não permanecesse e perecesse com o outro, e
tivesse verdade em si".
A questão para Schelling é mostrar que a natureza que é em Deus
não deve ser concebida como a natureza pensada fora de Deus,
posteriormente inserida na realidade de Deus. Pois ao pensar a
natureza fora, o que se pensa é um determinismo oposto à liberdade,
como duas partes diversas, e Schelling mantem que natural e livre - o
que Kant havia separado - devem ser pensados unidos como a natureza
mesma, e esta então vindo a ser o
que devemos pensar sempre interior
a Deus.
Assim
aqui, a cisão da obra kantiana se desfaz. Para defini-la
sucintamente, Kant havia
expresso
na Crítica do Juízo (Rio
de Janeiro, Forense Universitária,
1995)
valendo aqui a longa citação:
"O entendimento é
legislador a priori em relação à natureza, enquanto objeto dos
sentidos, para um conhecimento teórico da mesma numa experiência
possível. A razão é legisladora a priori em relação
à liberdade e à causalidade que é própria
desta (como aquilo que é supra-sensível e subjetivo) para um
conhecimento incondicionado prático. O domínio da natureza, sob a
primeira e o domínio do conceito de liberdade, sob
a segunda legislação,
estão completamente separados através do grande abismo que separa o
supra-sensível dos fenômenso apesar de toda a influência recíproca
que cada um deles por si (cada um segundo as respectivas leis
fundamentais) poderia ter sobre o outro.
O conceito de liberdade nada determina no respeitante ao conceito
teórico da natureza; precisamente do mesmo modo o conceito de
natureza nada determina às leis práticas da liberdade."
(p. 38, 9)
Nesse
sistema kantiano da
legislação racional seccionada
por interesses
imiscíveis,
entre os quais nada pode
subsistir que inter-relacione ou una, o
conceito de finalidade é posto apenas pela legislação prática,
mas assim surge uma contradição aparente. Se a oposição
intransponível é
mais simplesmente a de objetivo e subjetivo, mundo e homem, de
fato o a priori teórico não é imanente às coisas em si, mas o
sistema racional que subordina o entendimento à experiência é ele
mesmo supra-sensível,
exclusivamente racional. Por
aí se pode falar mais adequadamente que a subordinação feita é da
experiência ao entendimento enquanto
transcendental. Ou
seja, este sendo condição de possibilidade daquela, não o
contrário. E desse modo, o
finalismo como princípio da liberdade é comunicado à natureza
enquanto sistemática
atribuição de identidade,
de modo que o próprio ser humano é
atribuído como ser natural,
sensível, sem deixar de ser
livre.
Kant
resolve a aporia que antes
já visamos como um dos
trampolins do pós-kantismo,
atribuindo uma conformidade a fins à própria natureza, mas
apenas como a função da faculdade
racional alternativa à pura
ou teórica, e à prática.
Assim, é "a faculdade
do juízo que
pressupõe a priori essa condição" - a
finalidade (Endzweck) - porém "sem tomar em consideração o
elemento prático, daí o conceito mediador entre os conceitos de
natureza e o conceito de liberdade que torna possível, no conceito
de uma conformidade a fins da natureza, a pasagem da razão pura
teórica para a razão pura prática, isto é, da conformidade a leis
segundo a primeira para o fim terminal segundo aquele último
conceito".
(p. 40)
Se
na natureza o que pode se tornar experiência racional é de todo
independente do substrato das coisas elas mesmas, o
entendimento não poderia lidar senão com fatos fortuitos e
isolados, mas a noção de
experiência sugere a unidade coerente. A função da faculdade do
juízo é pois, ajustando cada juízo do entendimento à
finalidade racional da
experiência, fornecer
aquilo que na natureza é inacessível ou noumeno, o que agora se
torna o substrato das
atribuições fenomênicas.
Mas
desse modo não é na
natureza que
reside o sentido objetivo
ele mesmo, e sim na Razão
- relativa sim "aos
conceitos de natureza, mas somente como princípio regulativo da
faculdade do conhecimento".
A determinação do objeto,
comunicada pela faculdade do juízo, se desdobra assim na
complacência intelectual pura, quando
se trata dos objetos sensíveis, e sentimento de prazer
ou desprazer, como juízo
estético sobre certos
objetos.
Assim
a separação total dos interesses da razão não é superada de
direito, mas de fato a
dedução transcendental encontra as
articulações que pertencem à Razão como estrutura composta pelos
sistemas particulares.
Surge
a dúvida sobre se Schelling estaria repondo Kant, mas identificando
a Razão e Deus, ou ultrapassando o condicionamento kantiano
da realidade em si mesma
conforme a cisão factual de
noumeno e fenômeno. A meu
ver este segundo aporte deve ser o caso, já
que a passagem do noumeno ao
fenômeno se torna o elemento determinante da enformação teosófica
do seu pensamento.
Realmente
se poderia objetar a Kant que a determinação
(Bertimmbarkeit) que
ele obteve como
fundamento (Grund) - na
acepção kantiana de causalidade supra-sensível ou transcendental -
a partir da terceira
crítica, não solve a
aporia do indeterminado na
realidade.
Ele
mesmo o admite, ao observar que a unanimidade das leis naturais com
o princípio formal das leis da razão "não é descortinável",
pois não é dado conhecer a razão de coisas (em si), somente da
experiência como é para
nós. (p. 39)
Mas
assim Kant não ultrapassa a posição do idealismo empirista, que ao
contrário de todo realismo
epistemológico que predica a realidade do dado,
nega que possamos conceder algo a propósito do conteúdo da
experiência independente do modo como ela é ordenada pelo
intelecto. E de fato
verificou-se que o sistema de categorias kantiano não foi suficiente
para garantir as leis da inteligibilidade universal na decorrência
da mecânica quântica, já Cournot tendo demonstrado que a ciência
havia ultrapassado a concepção totalizante do intelecto kantiano
quanto à possibilidade objetiva.
Ou seja, equivocamente
"garantindo" uma unidade da experiência intelectiva como
se fosse - embora sabendo que não era - a conformidade final das
coisas elas mesmas. A
imanência das linguagens científicas que produzem seus objetos não
está previsto no sistema kantiano de legitimação do saber.
Ora,
o conhecer
por nós se torna um "para
si" na linguagem pós-kantiana, uma vez que a existência do
homem como sujeito epistêmico se torna considerada como algo "em
si" e "para si". Seja lá o que for a natureza "em
si", nela
está estabelecido, portanto como lei, o vir a ser do conhecimento
"para si". Assim a
natureza torna a ser o real não de todo "noumênico",
já que não
fixado numa determinação inversa do
devir evolutivo que trouxe o homem como sujeito epistêmico,
e as realizações da humanidade como sujeito livre.
Essas
realizações não revelam pois, a uniformidade do
gosto ou a universalidade do imperativo da vontade, mas são
históricas e relativas à língua. Mas dessa pluralidade bem
romântica dos estilos e espíritos nacionais, o que o pós-kantismo
objetivou foi a reconstrução
da totalidade, a partir do liame entrevisto do "em
si"
e "para
si".
Projeto
retomado após o empirismo positivista pós-romântico, este
que ultrapassou por sua vez
o
limite abstrato da cisão do
em si e do para si, a
partir do conceito de praxis - não
se reduz ao realismo epistemológico o que é
apenas um realismo
materialista limitado ao
determinismo da praxis como interação de homem e meio. Ou seja,
formalmente idealismo epistemológico, porém estritamente
objetivista, não
transcendental.
A
retomada do idealismo totalizante,
transcendental, na forma
das fenomenologias e existencialismos, equivale
à proposição de que em
todo caso, mesmo na
decorrência de múltiplas linguagens, aquilo
que é pensável deve pertencer a uma consciência a priori pensante.
O funcionalismo se desdobrou
daqui. Em vez da praxis determinista, sugerindo sempre possível
redução dos sistemas
variados de predicação a funções práticas distinguíveis. Porém
os críticos
dessa posição, a partir especialmente de Bachelard, mostraram que a
razão científica não é imanente à consciência,
unida ao que seriam necessidades adaptativas,
mas se desenvolve como uma racionalidade compósita aos
instrumentos e descobertas unicamente laboratoriais, de modo que o
progresso da ciência não é coerente ao da mente subjetiva.
Não há totalidade como a priori da própria consciência,
concepção que favorece o princípio estruturalista de imotivação
dos sistemas semióticos, potencialmente intotalizáveis,
sendo impossível redução
funcional, e, pelo
contrário, a função sendo efeito ao invés de causa.
A situação presente
continua sendo de controvérsia entre essas posições.
A
mensagem do Um em Schelling
é portanto aquilo que
também Hegel quer preservar como
a totalidade, quando se
trata da vida do Espírito
pelo viés da teoria do Estado, posteriormente à Lógica
geral e à fenomenologia
da consciência particular. Visando
agora as relações Schelling-Hegel, vemos
que o desacordo entre eles não se coloca propriamente
relacionado
ao que estabelecemos como o neocriticismo pós-kantiano.
Não
podemos fazer como se Schelling houvesse retomado efetivamente a
natura pré-crítica de Bruno ou Spinoza, que ignoravam o mais
importante nesse contexto
como o caráter intrinsecamente subjetivo do para-si,
que agora se entende não como princípio puramente intelectivo, mas
histórico e em devir. Entre
Kant e os pós-kantianos, não
houve redução qualquer do
transcendental subjetivo, mas inversamente, aumento de
sua preponderância pela
superação do limite,
digamos, fixista, em que até
mesmo Kant o mantivera.
Podemos
então localizar como o que permanece em comum a Schelling e Hegel.
A relatividade da cultura
não é negada, mas sua
afirmação é sempre
recambiável à interpretação da passagem do noumeno ao fenômeno
por meio do sujeito, sendo porém o
que se realiza, Deus , o
Espírito, como verdade. O
particular é um lugar do universal, não de todo autônomo.
Mas a crítica de Schelling a Hegel é bastante abrangente, visando
principalmente a Lógica.
Não obstante, podemos ver a filosofia da história de Hegel como um
aprofundamento da interpretação schellingniana do aristotelismo.
Pois aí encontramos o enunciado capital
da transformação moderna da dynamis, como inclusive,
por várias instâncias conceituais ainda que com propósitos
diversos, a ponte até o
super-homem de Nietzsche.
///
A
crítica de Schelling a Hegel está em sua "História
da filosofia moderna".
O capítulo sobre Hegel
é precedido por uma apresentação da "filosofia da natureza"
do próprio Schelling que
faz a transição a partir desta, aos temas que trata naquele
capítulo.
Ora,
a crítica a Hegel
questiona o próprio
endereçamento do começo
da filosofia, pois Schelling
defende a sua
como aquela que se inicia na
natureza, enquanto Hegel parte da pura abstração do Pensar
como Lógica, "que
Hegel explica como a filosofia puramente especulativa". Ou seja,
conforme Schelling: "Como
tem que expor a Ideia divina pura, assim como esta é antes de todo
tempo ou na medida em que ainda está meramente no pensar,
a Lógica, sob esse aspecto é ciência subjetiva: a ideia está
posta aí
meramente como ideia, não também como efetividade e
objetividade..." (p. 324;
todos os grifos
dele).
Não
obstante, essa
crítica transige
para a objeção de que
Schelling inicia seu
pensamento fora de toda oposição pensável,
como Absoluto conceituado a
"indiferença
(equipossibilidade)" (p. 329)
enquanto Hegel começa pela oposição do Ser ao não-ser.
Hegel começando, pois,
ao contrário do que se
disse, não pelo
puro pensar da ideia pura
oposta a todo
efetivo, se inicia injustificadamente
pelo Ser,
o meramente dado, como
universal objetivo.
Perante
esta última,
que é uma das piores objeções que se podem ser feitas,
é apenas tacitamente,
para quem conhece Hegel, que
se apresenta ao exame a
contradição de um início que se quer unicamente especulativo mas
não como pensamento
enquanto auto-enunciando-se referencialmente.
Pelo contrário, enunciando
algo, o Ser, como o mais
universal e exterior à subjetividade que está
de fato iniciando
o percurso
conceitual da
filosofia como exposição
da Ideia.
Aqui
esse problema
hegeliano não é
posto como simples
contradição, mas como positivamente um
desentendimento do começo
da filosofia postulado
antes por Schelling
objetando a Fichte, tal que
aparentemente apenas um outro modo de dizer a mesma coisa, o
significado hegeliano
resultou bem irredutível
porém na infelicidade da mera paralogia indemonstrável.
E
a crítica em si, que se desenvolve entretanto
a partir daí como a algo de
inteiramente outro
relativamente ao pensamento
schellingniano que assim
espera demonstrar-se o mais certo, enuncia-se
a Hegel como plagiador de
si, imitação algo
grosseira de que se deve fazer o cômputo
das diferenças
de nível relativamente à excelência do original.
Quanto
a este aspecto inicial da
crítica, o enunciado do
modo exato pelo qual Hegel
teria distorcido
a orientação primeira de
Schelling, não tendo Hegel
desse modo nada de original,
seguindo-se
a um resumo da divergência de Schelling
a Fichte, é
uma introdução satisfatória do pensamento shcllingniano
que esclarece algo sobre a discussão recente dos historiadores a
propósito das fases de sua
filosofia.
Ao
contrário de Philonenko, que postula um início de Schelling como
apóstolo de Fichte, vemos como em Bréhier
que ele começa contrapondo-se ao postulado,
digamos, egoico, da doutrina da ciência de Fichte. Não
obstante, devemos lembrar que Philonenko assim se expressou
utilizando-se da autobiografia de Schelling.
O
resumo instrutivo da
transição de Fichte a Schelling e deste a Hegel, na "História
da filosofia moderna",
coloca como objeção schellingniana , como já vimos, o fato de
Fichte ter "como
ponto de partida... o
sujeito de nossa consciência, da humana ou, no fundo, para cada um
somente o sujeito de sua própria consciência".
(p. 320)
O
enunciado daquilo que Scheling contrapõe ao sujeito da consciência
fichteano não é porém de
fácil apreensão. Ele
expressa tanto que "foi explicado como sujeito objetivo (posto
fora de nós, independente de nós)", e cujo desenvolvimento
progrediria "ao subjetivo (posto em nós)".
Como também, "pensado antes do processo ou em e como que antes
de si mesmo, ele não é objeto para si mesmo, mas justamente por
isso não é perante si um sujeito."
E ainda, "nem
decididamente sujeito, nem decididamente objeto, mas uma indiferença
entre ambos". Em
todo caso, ao ver de
Schelling seria esse seu
postulado do
Absoluto que, sem entender o
processo, Hegel teria distorcido como ser puro, para fazer assim uma
replicação da filosofia de Schelling.
Podemos
de
boa vontade atribuir a Schelling um esquema compreensível. O
sujeito objetivo seria um Eu
Absoluto que como expressão
conceitual e não meramente linguística, não
é "eu" finito ou sujeito nesse sentido
linguístico próprio
daquele ser oposto ao objeto.
Mas não é para Schelling a
oposição formal e lexical
de sujeito e objeto o que importa,
e sim, mais uma vez, definir
conceitualmente o "sujeito
de si mesmo, o que, aliás, não é
um conceito menos relativo,
ele só se faz,
do mesmo modo que se faz
objeto de si mesmo."
Mas esse sujeito que é para
si sujeito e por isso é
sujeito, é o objetivo do
processo iniciado e explicado pelo modo de ser do Absoluto inicial:
"A passagem do processo e então, como
vocês sabem,
justamente,
que ele quer a si mesmo, como si mesmo, e o primeiro termo no
processo é portanto, o sujeito anteriormente indiferente em sua,
doravante, atração-de-si mesmo".
A dificuldade no esquema de Schelling é enunciar pois que o Absoluto
é arcké de todo ser e pensar, assim não se confunde com a
instância em que o pensar se resolve como atribuição de algo ser
por um sujeito que não apenas atribui mas se sabe como tal em
atribuindo, porém desse
modo realizando-se o Absoluto em seu ser, temos que na verdade a
arkhé é a subjetividade ela mesma. Não
havendo atribuição de ser
possível se não por um sujeito que se sabe (sujeito),
etc.
A
dificuladade é patente no modo pelo qual Schelling se expressa, ao
invés de designar a subjetividade em geral.
Alternativamente a Fichte, na filosofia de Schelling"o
ponto de partida era o subjetivo em sua plena objetividade,
portanto,
ora contudo sempre o subjetivo, não o mero
objetivo";
mas dizendo-se ainda que "há também aqui (a partir do
primeiro termo no processo),
um passar do objetivo ao subjetivo", (p.
321). Posto que não havendo
outro objeto que ele mesmo para si mesmo,
no início há
apenas "sujeito na
medida em que é objeto de si".
O enunciado é o seguinte: ...
"o sujeito anteriormente indiferente em sua, doravante,
atração de si mesmo. Nessa auto-atração o atraído (vamos
denominá-lo A) é justamente por ter atraído o ser, posto ele mesmo
fora de si, embaraçado com esse ser, ele é o
primeiro objetivo".
Como "primum
Existens", é
"apenas o ensejo e o primeiro grau para as potências superiores
da interioridade e espiritualidade
às quais o sujeito se eleva
na
relação , quando, em cada uma de suas formas, toma, mais uma vez, o
partido do objeto, acrescentando-se ao objeto...".
A
questão aqui é pois - de que "relação" pode tratar-se,
uma vez que não há senão um desenvolvimento de si a si mesmo, por
parte de um Sujeito que sendo tudo e o todo, não
se sabe ainda antes de potencializar-se de tal modo que atinge o
saber de si como Sujeito? Como se dá o embaraço do sujeito?
Como podemos considerar que há algo com
que
se relaciona nessa condição de embaraçamento, se limitando-se a
"esse" ser que é o seu mesmo e do qual porém ele não se
dá conta enquanto precisamente ele é - antes de sobrevir
aquele
outro do processo, o
já
subjetivado em sentido próprio de ser consciente de si, ora porque
não é o objeto, ora porque é a fonte de toda atribuição
objetiva?
Schelling
ignora a questão,
considerando bastante demonstrar que
"só
se trata para ele, de elevar aquele seu primeiro
ser a um ser adequado a si,
proporcionar-lhe
propriedades espirituais sempre superiores, transformá-lo em um tal,
em
que
ele mesmo possa reconhecer-se e, portanto, repousar,
mas na medida em que o grau seguinte sempre fixou o anterior, isso
não pode ocorrer sem engendrar uma totalidade de formas; o movimento
não repousa, portanto, até que o objeto se tenha tornado
inteiramente = ao sujeito."
Em
todo caso, por
esse trecho
compreendemos porque a filosofia da "natureza"
como do que traduz o
Absoluto,
pôde
ser enunciada do mesmo modo como filosofia da "identidade",
onde a contraposição de objetivo e subjetivo se torna tratada em
termos de excesso de um e outro como extremos
opostos
em uma
mesma
linha.
Não
obstante o
questionamento que consideramos pertinente,
da lacuna
inerente à terminologia da "relação",
permanecer intocado.
Mais
à frente, de fato Schelling
se defende da objeção de
Hegel, de ter usado a
palavra "substância"
ao invés de "Espírito"
para o Absoluto ou Deus,
com base em que poderia perfeitamente tê -la usado, mas assim
designando o sentido "quanto à coisa mesma". Trata-se
de que
"Deus
foi determinado como
auto-objeto (sujeito-objeto) que é, que permanece pois também assim
ele era, para usar a expressão aristotélica, o que pensa a si mesmo
(ho teautòn noôn)".
(p. 333)
A
filosofia de Schelling se explica pois pela de Aristóteles, nem
apenas quanto à coisa mesma, também quanto ao processo.
Assim como em Hegel, trata-se de que tudo, no fim, somente em Deus
tem sua
verdade. Porém ao invés de como para Hegel, no fim o último se
dissolver
"como em seu fundamento", para Schelling cada
precedente é ele próprio fundamento,
mas do subsequente: "ele se funda por seu ir-ao-fundo, ele mesmo
é, pois, fundamento nisso, não o seguinte".
(p. 335)
Seria
preciso lembrar aqui o uso kantiano do termo "fundamento",
conforme o prólogo da
Crítica do Juízo. Sendo "fundamento" aí o
mesmo que "transcendental",
desloca o aristotelismo como
filosofia da "causa".
A causalidade pois, em Kant
se desloca a uma das categorias
do entendimento, não
encerrando o sentido
originário dos
fenômenos em si mesmo, que
cabe à filosofia
explicar.
Schelling
salienta inversamente que nessa
sua sentença do
fundamento, se expressa a
aristotélica série teleológica causal: "Mas
se o último é causa final suprema e última, a série
inteira, com a única exceção do primeiro termo - a série inteira
não é nada outro do que
uma ininterrupta e constante sequência de causas finais; cada termo
em seu lugar, é tão causa final para o seu precedente quanto o
último é causa final para tudo".
Aqui
a série é definida. O que está no "fundamento de tudo" é
"a matéria a
ser pensada como amorfa"
precisamente como no
aristotelismo mais ortodoxo,
porém com a ressalva de
estar nesse estatuto de
fundamento. A seguir, "a
natureza inorgânica é a
causa final da matéria, a natureza orgânica é a causa
final da inorgânica, na
natureza orgânica a causa final da planta é o animal, o homem é a
causa final do mundo animal".
Segundo
entendo o trecho algo
obscurecido pelo viés da zombaria caricatural,
essa série teleológica é
a exposição da filosofia
da natureza que Schelling
defende. Segundo
ele Hegel
a teria apenas invertido
ao fazê-la
remontar, às avessas, para
enunciar o criacionismo de modo que do último ao primeiro termo, a
ligação causal não seria final, mas eficiente.
Conservando
em todo caso a terminologia aristotélica
da causa eficiente mesmo se
não fosse isso que Hegel pretendesse estar fazendo,
Schelling porém não quer creditar a Hegel nada além de um
panteísmo que, por diverso
do "puro e tranquilo de Espinoza,
em que as coisas são puras emanações lógicas da natureza divina",
compromete a noção mesma
da divindade quando efetivamente quereria tê-la salvo. "A
região da ciência puramente racional é abandonada, pois aquela
exteriorização [da série natural] é um ato livremente decidido,
que irrompe absolutamente a sequência
meramente lógica e, contudo, mesmo essa liberdade aparece, mais uma
vez, como ilusória, porque inevitavelmente no término, é-se
impelido ao pensamento que, mais uma vez, suprimte todo ser
acontecido, todo o histórico, porque, ao dar-se por si, tem que
retornar ao puramente racional".
O
alvo aqui é a instância meu ver crucial na designação
schellingniana do que contrasta a filosofia de Hegel à sua. A saber,
a mola do processo da Lógica
a partir do Ser inicial, que ao contrário de se expressar
positivamente na natureza, se nega a si mesmo ao exteriorizar-se nela
- a síntese hegeliana dessa antítese de ser e não-ser
designando-se propriamente o devir. Alvo
da crítica mais acerba e do motejo mais ácido, veremos à frente
como Schelling desenvolveu
esse item que me parece o ponto verdadeiramente negativo de sua
argumentação.
E
não obstante o criacionismo
e a inversão, quanto ao
trecho que estamos visando,
de fato a série não sendo nesse
caso fechada conforme
Schelling: "pois não
sabemos até que ponto,
segundo a opinião de Hegel, isto poderia continuar: se, talvez, pela
Lógica adentro, retornando até o ser puro que é = nada; basta
vermos a que
absurdos levaria a inversão assim entendida e quão ilusória é a
opinião de poder, com essa simples inversão, transformar a
filosofia em uma filosofia tal, que compreenda também uma livre
criação do mundo." (p. 336)
Bréhier,
comentando a última
filosofia de Schelling como a da liberdade, expressa
inversamente ao que
constatamos, um viés
plotiniano. A princípio há um vazio, o fundamento (grund) como
apenas desejo sem
caracterização possível,
a que então Deus amoroso acresce entendimento, resultando assim uma
ação criadora que é porém
natureza. Aqui a teleologia
se desloca pelo que Bréhier designou uma teogonia que
entretanto evolui "por
um movimento de báscula
(universio) , onde é
primeiro em ato o que deve permanecer em potência,
conforme
o ser em ato futuro é concentrado: nesse processo se conclui a
história do nosso universo".
(op. cit. p. 423 a 425)
Bréhier
se expressa em termos de devires schellingnianos. Primeiro, o devir
de Deus, contra o que seriam
as suas potências
primitivas, o germem
originário, o ser de Deus
que se opõe a ele, e a
união hierárquica de ambos
como ser e não-ser, o
consentimento comum
das potências renderem-se
ao serviço da vontade superior que
é sobredeidade (Uebergotheit).
Assim
se exemplifica o ciclo da
semente à planta e desta à semente, que nada além seria se não
houvesse a renúncia dessa
ipseidade pela inserção na totalidde da natureza.
Porém
a sobredeidade nada criaria
de novo. É a primeira
potência de Deus que, como natureza, enceta a criação, sendo
designada potência negativa ou cólera de Deus. A
segunda potência, ou Amor, cria em seguida o mundo dos espíritos -
que segundo Bréhier, Schelling entende conforme o espiritismo, seres
que se comunicam por vias
misteriosas, das quais a consciência é apenas pequena porção.
Neste mundo
vem a ser o homem. A união
de cólera e amor,
como terceiro modo da potência,
cria a alma do mundo.
Assim
o devir de Deus cede ao devir do universo, onde decorre
o mal da história como da
liberdade humana, porém
nela desenrolando-se a conversão espiritual
do homem como retorno a
Deus.
Nesse devir
universal do
homem, a polaridade
Deus-natureza criadora
e Mal da liberdade do homem,
tem como síntese a união de ambos como retorno a Deus.
Ou seja, a História como
revelação de Deus nas
mitologias religiosas,
visadas como numa antropologia avant la lettre,
supondo
um proceso do politeísmo ao monoteísmo católico, como
já vimos.
Não
obstante ter vencido a hostilidade dominante no politeísmo, o
catolicismo segundo Schelling teria
limitações tão claras que permitem
visá-lo
como o que está para ser ultrapassado por uma mitologia por vir.
Conforme
Bréhier, esse processo,
como "plano ideal da criação" em que o superior
determina o inferior, assim se define
sucintamente: "um
Deus criador, o homem livre, a união final do homem com Deus, tais
são os três artigos de um teísmo, 'crença oficial de todas as
constituições em que residem a justiça e a ordem'
'',
do qual Schelling
não mais se
afastou.
Em
que pesem as distinções que poderíamos estabelecer entre o
processo da "filosofia
da liberdade"
como exposto por Bréhier, e o
que vimos exposto na defesa
da filosofia de Schelling por ele mesmo,
não obstante a "História
da filosofia moderna"
ter sido escrita após Hegel já tê-lo
criticado é manifesto que
Schelling se ateve à sua primeira
filosofia da natureza. Porém
aqui ela
já é enunciada juntamente com a da
identidade, ambas aparecendo
ao inverso do que alguns comentaristas pretendem,
não como fases distintas,
mas como aspectos de um
mesmo princípio. O que
vimos poder ser caracterizado como coerente ao aristotelismo. Mesmo
que ele tenha recuado a uma inteligibilidade criacionista
posteriormente, Schelling não abandonou a relação
aristotélica de ato e
potência, que antes parece
ter sido seu escopo reinterpretar à vontade.
Mais
à frente ele prossegue a
acusação de plágio a
Hegel, agora
abrangendo todo o "método
da filosofia anterior" - a sua como "filosofia da natureza"
(p. 324) - já não apenas
a orientação inicial.
Realmente
vimos já que
a inteligibilidade de opostos "suprassumidos" por um termo
ulterior e sintético foi a ideia de Schelling antes do
que se tornou tão propalado como a dialética de Hegel.
Porém quando se trata de
resumir a diferença no seu ponto essencial, não é a si mesmo que
Schelling recorre, mas ao místico Jacob Boheme, cuja
proposição neoplatônica é citada,
em contraste ao que seria a
fórmula de Hegel: "Jacob
Boeheme diz: a liberdade divina se despeja na natureza, Hegel diz: a
ideia divina se destitui na natureza."
(p. 333)
Nessa
altura avançada da crítica,
Schelling escarnece: "Teriam
rido de uma
filosofia que fosse somente Lógica no sentido hegeliano... Na Lógica
não há
nada que altere o mundo. Hegel tem
de chegar à
efetividade."
Assim
já quando praticamente nada
haveria
de pior para se dizer do
sistema de Hegel, atribuindo
a totalidade
dela a
apenas uma tautologia, vemos
qual seria o destino do
hegelianismo, porém
tendo ele tido a boa sorte de ser precedido pela filosofia de
Schelling, conforme
este. Se alguém teve boa
vontade com Hegel, a seu ver foi porque o julgou como bom comentário
do Absoluto conceituado antes por Schelling.
Mas
essa posição é ambígua
como vimos, pois Schelling quer acautelar antes de tudo contra o
que em Hegel na verdade não está preparado por nada da "filosofia
precedente" que é a do próprio Schelling. A saber, o
que este mesmo situou no
escândalo do impensável, a antítese do Absoluto como negação de
si na natureza.
Ao
que parece, podemos atribuir a Schelling e Hegel a transposição ao
Absoluto, que contem ambos os momentos
entre a Razão e o Real a que ela ordena, do que em Kant era a
dicotomia intransponível do incognoscível e
da experiência possível. Porém o pós-kantismo, lidando com
ciências que Kant não
privilegia como a atenção ao magnetismo, a descoberta da
polaridade elétrica e o Evolucionismo, tem
interpretações irredutíveis quando se trata de localizar a
oposição ora interpretada como complementaridade.
Em
todo caso se trata de totalizar onde Kant parcializa, e eis a
oportunidade do aristotelismo
como teleologia mais abrangente do que o finalismo do juízo
em Kant. Também se generaliza a conjugação do devir com o
movimento da antítese. Porém
Schelling permanece aristotélico ao manter esse movimento no seio da
natureza, enquanto Hegel,
que se considera estritamente heraclíteo, a eleva ao Absoluto. Não
obstante as vicissitudes da
crítica mútua - Schelling,
como o único que pode continuar a conjugação oriental de
Aristóteles e Neoplatonismo, acusando
Hegel de um panteísmo
ilógico tal que "O Deus não se lançou na natureza, mas
sempre se lança de novo nela, para do mesmo modo sempre de novo
pôr-se acima dela" -
ou o que pode ter havido aí
de adequado, poderemos
constatar que na verdade Hegel não se manteve estritamente
heraclíteo, mas transpôs a
complementaridade da potência ao
vir a ser da história como razão imanente.
Como
vimos, Schelling considera do
pior modo o trânsito
hegeliano da antítese, da
natureza objetiva como
uma parte do Absoluto,
a este mesmo Absoluto,
relativamente ao qual a natureza objetiva é exteriorização no
sentido de um sair de si, a síntese sendo portanto a unidade de
conceito e objeto na subjetividade do Saber como absoluto
realizado subjetivamente.
Mas
nessa crítica acerba
Schelling
realiza efetivamente o
enunciado de tal
conceito a que
ele reserva apenas o riso
como ao de todo ininteligível? Isso é algo duvidoso.
Primeiro,
Schelling nega
que Hegel tenha partido de
algo ao invés de nada,
reprovando-o por isso: "Pois
se, de resto, ele atribui a esse ser puro um movimento, um passar a
outro conceito, e até mesmo uma inquietação interior, que o impele
a novas determinações, isso não prova,
eventualmente,
que, apesar disso, ele
pense no ser puro um
sujeito, apenas
eventualmente um sujeito tal, do qual somente ainda se pode dizer que
ele não é, ou que não é inteiramente
nada, mas de maneira nenhuma que já é algo - se este fosse seu
pensamento o prosseguimento
teria que ser inteiramente outro."
(p. 321,
grifo dele ).
A
seguir porém
afirma que Hegel pretende
ter começado pelo que nada pressupõe fora de si como os primeiros
pensamentos puros (ser, nada, vir a ser), porém assim o Ser que
seria o primeiro dentre os primeiros já subtendendo a categoria
kantiana de quantidade, o
conceito de número sendo de fato pressuposto aos demais como nas
expressões hegelianas de "tríplice divisão" ou
"tricotomia do conceito". (p. 328)
Por
esse meio, o Ser em que
Hegel espera ter encontrado o fundamento
primeiro já não é um
nada, sendo igualmente
reprovado por isso. E
quanto ao propriamente nada,
na qualidade da antítese
que sucede o primeiro dado da Lógica como o Ser, é ao ver de
Schelling apenas posto como
abstração de um pensamento que ao contrário do Hegel
diz, é tão bem encarnado,
que é só ele mesmo enquanto pensamento de um sujeito filosofante
que não suporta ficar naquele vazio de tudo
que é o ser puro, e impele
ao movimento: "Há
pois, nesse pretenso movimento necessário [do
Ser/ tese ao Não-Ser/antítese]
uma dupla ilusão... na
medida em que o pensamento é substituído pelo conceito, e este
representado como algo que move a si mesmo,
e no entanto o conceito por si mesmo ficaria inteiramente imóvel, se
não fosse o conceito de um sujeito pensante, isto é, se não fosse
um pensamento". (p.
321,2)
A
realização do enunciado hegeliano do Ser, não-ser e vir a ser como
os momentos constitutivos do
necessariamente existente parece-me
a lacuna que realmente compromete o texto schellingniano, de
construção sem dúvida complexa
reservada a iniciados. Assim
ele não consegue demonstrar o
ininteligível de que acusa o oponente, mas também não se limitando
a isso, e por outro lado afirmando que se trata de tudo tão trivial
que não podendo ser negado, não tem qualquer alcance de demontração
efetiva. O
ponto principal para Schelling é justamente a efetividade como o que
ao mesmo tempo Hegel descura como aquilo de que se deve partir, como
ao que ele próprio se atem na filosofia da natureza, e o que sendo o
trivial nada revela do caráter específico do Absoluto enquanto
arcké da subjetividade.
Quanto
a isso, Schelling afinal chega a uma fórmula clara: "Exatamente
como Hegel diz que a verdadeira primeira definição do Absoluto é:
o absoluto é ser puro, eu podia dizer: a verdadeira primeira
definição do Absoluto é ser sujeito". (p. 329)
Porém para ambos, conforme Schelling, é "exatamente do mesmo
modo" que o Absoluto vem a ser "término ou resultado"
de todo o processo do real,
como realização do que ele mesmo sempre é e assim desde o início
ele era. Apenas Schelling
não precisaria deduzir um du plo devir, lógico e real, ao contrário
de Hegel: "O sistema
anterior não conhece um d uplo vir-a-ser, um lógico e um real, mas,
partindo do sujeito abstrato, do sujeio em sua abstração, está,
desde o primeiro passo, na natureza e não precisa posteriormente de
nenhuma outra explicação da passagem do lógico ao real."
Porém
Schelling não explica até
aí em que a sua é uma filosofia do devir, na medida em que nele não
há definição alguma da categoria do devir. A
figura esquemática que ele desenha
como demonstração de sua filosofia da identidade, os dois extremos
de uma mesma linha, é bem
expressiva dessa lacuna, que parece só ser preenchível pela
admissão de princípio pela qual "natureza" é na verdade
o conteúdo da ciência,
assim as leis de polaridade eletromagnética e a Evolução.
Mas o que a filosofia se propõe não é apenas um comentário da
ciência, e sim demonstrar o que postula como a totalidade fenomênica
interligada de fato e de direito até a realidade do próprio sujeito
que pensa e postula .
Eis
o que Kant reprova a tudo o que designa Shwarmerey,
arroubo místico, e que Bréhier tratou como o pré-romantismo
anti-classicista em termos
de uma naturphilosophie bastante influente na época, atuando como
contra-corrente do método científico natural canônico de Descartes
a Newton, o qual secciona os fenômenos
em áreas de estudo autônomas.
Ora,
o importante a ressaltar
é Hegel, nessa grande
virada, pela qual, como que
de repente, assistimos o que estava sendo tranquilamente votado ao
desprezo pelo
consenso universal do
cientismo de um século, com
a clareza clássica das oposições simpes nomeado por oposição à
ciência validável, “entusiasmo” numa conotação de “delírio
fanático” se tornar o
centro de propagação das ideias e movimentos não
só científicos, mas
também políticos,
filosóficos e estéticos.
Porém se é exatamente o
que aconteceu na translação nominal do “schwarmerey” à
“naturphilosophie”, para
significar contudo a mesma coisa, temas e figuras, ocorrendo
num espaço de poucas décadas e tipificando o “reveillon” do
novo século (XIX), o
acontecimento
verdadeiramente “histórico”,
na acepção do que mudou ou determinou o curso do mundo futuro,
constitui-se de fato na
filosofia de Hegel, que só
o abrange tangencialmente.
Para
exemplificar o peso da transformação surpreendente, basta
lembrarmos que não obstante tudo o que se conta da influência do
“Iluminismo” na Revolução Francesa, não foi Voltaire com seu
universo de relógio previsível,
mas sim Rousseau com sua passionalidade
profética e indefinível,
o herói consagrado dos
revolucionários. A qualquer
um que se acerque das fontes na
história das ideias,
torna-se evidente que a força que moveu corações e mentes à
ação revolucionária dos
punhos fora dos gabinetes
não foi o espírito bem compartimentado das ciências naturais. Mas
sim aquele
misticismo filosófico
do todo que conceituava uma
força real, como eflúvio, série ou lei de semelhanças
ascendentes, encadeando todos os seres tanto
na materialidade dos corpos quanto na simpatia
mútua dos ânimos,
e suposto vindo de Deus.
Esse
misticismo filosófico torna-se ciência porque é o único recurso
na circunstância da exigência nova de algo que se coadune com a
evidência da Evolução das espécies. Até
Darwin fornecer uma explicação puramente factual e
externa, a Evolução assoma
como o milagre, demonstração
da providência imanente na natureza. Não
é a toa que o pós-positivismo é também uma virada no rumo da
genética, época do retorno de “metafísicas” evolutivas
à Royce e Bergson.
Vemos
na Revolução a prova política daquele
“entusiasmo” que se poderia designar com Bloch um materialismo
espiritualista de origem
oriental.
Mas o
nexo da
Revolução à República de Thiers como
estabilização real da ideia pós-monárquica
não é claro, nem constitui nosso assunto presente. O
acontecimento verdadeiramente
decisivo
na trajetória que
une o século XIX ao XX, como ambiente em que, como nunca antes, as
ideias e as ações formaram
um todo inextrincável, é o
elo que na filosofia de Hegel se constituiu da naturphilosophie à
fundamentação das ciências humanas e políticas. Tornou-se
célebre o apólogo pelo qual todo o cenário posterior foi assim
determinado por Hegel: sua
direita fascista, sua
esquerda marxista e o seu
centro liberal.
Mas
assim se coloca o que poderíamos designar, pelo que descobrimos até
aqui, a “questão
Aristóteles”. Se Hegel é
o desenvolvimento máximo, mesmo que com resultados novos, da
naturphilosophie, quanto a esta vimos que pode se acomodar como
desenvolvimento do que
Bloch conceituou a esquerda
aristotélica como origem
oriental da influência que se manifesta em Bruno por
exemplo. Essa
a interpretação
materialista de Aristóteles tal que se poderia aí localizar a
origem de algo validamente designado
“filosofia da potência”, culminando em Nietzche.
Até
o presente estudo, considerei a
Evolucão
o limite das possibilidades do aristotelismo após a derrocada do
geocentrismo das esferas. O
interregno desde Galileu não foi de todo isento de aristotelismo, se
lembrarmos que o momento de superação do antigo cosmos fechado pela
superveniência do universo infinito coincide
com o da penetração da Retórica e da Poética. Em Carpeaux e
outros autores, fica comprovado o papel dessa
penetração como origem comum das teorias que estabilizaram tanto o
barroco quanto o classicismo. Com
Bloch vimos a trajetória da influência da esquerda aristotélica,
culminando no Iluminismo. Porém
a biologia evolutiva choca frontalmente com o fixismo do pai da
taxonomia.
Um
pensamento do devir não predisposto como
“substância” genérica
na
paralogia da “primeira” igual e diferente da “segunda”, um
pensamento da ação inteligível e material, não seria passível de
convergência qualquer com Aristóteles. E o sintoma é o próprio
Romantismo como obsolescência de todo cânon universal.
Rompe-se
radicalmente com a possibilidade mesma, em nível de fundamento, do
dualismo de espírito e matéria. A
essa altura, devido a evidências bem concretas do empirismo assim
como o descobrimento das Américas indedutíveis, esse dualismo já
estava traduzido na terminilogia dos atributos relativos à
Deus-Substância, porém
assim enunciando-se a paralogia evidente. Há dois atributos do mesmo
Deus, pensamento e extensão assim como dois estados de natureza e
sociedade,
porém
de fato é só o pensamento que é
Deus, só a sociedade que pensa, e nada age senão o espírito.
Se
o Romantismo rompe com a economia dualista, o
enunciado da verdadeira
duplicidade do homem é o emblema dessa ruptura. Como
Maine de Biran criticando Descartes: entre o corpo e o espírito, as
relações não são como as de um relógio com seu mostrador. O
que Maine de Biran expressa assim é o axioma romanticista que se
tornou o da modernidade em geral. O homem é realmente corpo e
espírito, interditando-se a redução de um ao outro como
do acidental ao essencial.
Em compensação a
inter-relação corpo/mente tornou-se matéria científica, ao
contrário do que somente era possível antes como
metafísica do
espírito.
Tudo conspira, pois, contra qualquer tese da continuidade do
aristotelismo na “modernidade” evolucionista em que foi
descoberto o “organismo”.
Mas
aqui constatamos que num plano de princípios, o
choque inicial do transformismo precisou contar com algo do mundo
conhecido para traduzir-se em conceitos de sua assimilação. O
que se mostra como esse algo é a terminologia da “potência”,
cuja origem é aristotélica.
Vimos
que Bloch fornece o meio termo nesse
caso,
levantando documentação comprobatória da influência do
aristotelismo materialista oriental no cenário de
emergência do Iluminismo. À
luz do que vimos, podemos entender o que ocorreu: relativamente ao
par “essência/acidente”,
liberou-se de todo o par ato/potência”. E
Bloch
mesmo, como pensador do
século XX,
se colocando como o agente da transformação dessa corrente de
modo a compatibilizar os seus termos com a Evolução. Vimos
que ele não é único, pelo nosso estudo de Abagnano que situou a
“entelequia” conceituada por Driesch nesse rumo da difícil
tarefa
de dotação de sentido filosófico ao
Evolucionismo.
Porém
o percurso estrito
de
Bloch não permitiria
por si só situar o destino exato da “potência”. Uma vez que ele
define o peso do aporte oriental a Oeste apenas como determinante da
atitude cientificista, pelo viés da validação do naturalismo à
inteligibilidade formal.
Porém
o por nós constatado sendo a incompatibilidade do Aufklaerung com o
que realmente se viabilizou como “filosofia da potência”. Em
nome da qual devemos aqui revogar nossa condição de limite do
aristotelismo na emergência da Evolução.
Hegel
se torna pois a ponte para o superhomem, se o
limite revogado compactava, junto com o Evolucionismo, a emergência
das ciências humanas, especificamente da História não “Poética”
- o
termo pelo qual Aristóteles baniu a História da universalidade
pensável, por aproximadamente dois milênios.
Os
escritos hegelianos da História são prefaciados por Hegel em um
texto que se torna, na trajetória assim coordenada, capital. Aqui
o liame da potência é efetivamente explicitado em
função da origem aristotélica, mas
já na imanência histórica do político.
Com
efeito, podemos afirmar que a relação de Hegel com Heráclito e os
sofistas “mestres da Grécia”, é tão importante como se poderia
julgar algo considerável em termos da emergência do político na
modernidade.
A
“teoria política” de Locke a Rousseau, cuja base científica é
a proto-antropologia do aborígine americano, é de fato a carta do
liberalismo ocidental, porém a doutrina do contrato social não
define o “político” na acepção que desde
o
liberalismo deveria
recuperar
o relativismo como fundamento de Estado conforme o exemplo da
democracia grega. Ou
seja, o “político” em termos do âmbito de convivência pública
como espaço de heterogeneidade, assim estritamente independente do
“ético” enquanto
princípios de conduta particular.
De
fato o
relativismo heterogêneo em nível público como algo a se constituir
na modernidade mas conceitualmente relacionável às questões já
desenvolvidas na democracia grega, era impossibilitado
ao
pensar pela
própria origem da “teoria política” como refutação cabal da
teoria hobbesiana. Ora,
Hobbes justificava o absolutismo pelo pressuposto de que, na origem,
o pai de família é o proto-rei
como
decorrência da paz sobre um estado primitivo de guerra de todos
contra todos, mas para isso lançando mão das falsificações
históricas que se podem ver nos textos dos Pensadores. Aí a Grécia
mesma
é reduzida a “eclesia” de oligarcas cuja estrutura definiria a
monarquia eclesiástica do feudalismo. Em
relação
a
qual o absolutismo pós-feudal seria, pois, um progresso “moderno”,
posto que teoricamente fundado.
A
informação realista
do aborígine americano, sujeito
livre e em paz, vivendo
do seu trabalho individual, sem
monarquia ou coerção de grupo, foi
o argumento refutador da “teoria política” desde Locke. Na
origem não estava necessariamente o que dissera Hobbes. Não
o clã, mas o sujeito individual.
Foi
assim porém que
Grécia e Liberalismo se tornaram por dois séculos estranhamente
incompatíveis.
Por
outro lado, a “teoria política” liberal não era necessariamente
“democrática” e efetivamente o seu primeiro resultado brilhante,
na Revolução Gloriosa da
Inglaterra seiscentista,
não revogou a monarquia, nem a isso se destinava, mas apenas ao
constitucionalismo – logo,
à subsistência de um parlamento. O
direito na
Europa
imperial
da “época clássica” continuou como no feudalismo
a
ser por
“estamentos” - que na França se designavam “Estados” - isto
é, por classes sociais tais como nobreza (1º), clero (2º) e
plebeus (3º). De
modo que cada um tinha direitos não extensíveis aos demais, o que
com relação ao “terceiro estado” significava praticamente
direito nenhum.
Mera
função do grupo, o
Sujeito
continuava impensável, até mesmo naquela condição que já havia
sido atingida pelos gregos democráticos expressa
na
sentença de Protágoras, atribuindo a cada um a perspectiva própria
quanto aos fatos de
ser ou não-ser, ou na concepção do “pathos” (sentimento
subjetivo /sensação) pirrônico: duvido de tudo, possivelmente, mas
não do que sinto e presencio. O trajeto de Protágoras
a Pirro é radical: em matéria de pathos já
não
se
admite
conversão da
“opinião” a
não ser como efeito de domínio indesejável, desvirtuamento da
verdade própria.
A
democracia grega
antiga
foi dominada pelos impérios estrangeiros,
mas a princípio o que se seguiu, na
forma de
sua
influência cultural internacional, foi o
subjetivismo helenista,
antes
do cristianismo – e
do “sábio de si” ao “santo” iluminado, vemos que a
penetração do Oriente na filosofia em Roma não contribuiu com o
primeiro, mas explica
o advento do segundo.
Ora,
na era pós-feudal, o
“contrato social” entre
Locke e Rousseau
não foi
a revogação do direito estamental em princípio. E
o que o “contrato” garantiria? Por
um lado, é certo, a
igualdade de status que ele
garantiria
como estatuto “científico”
civilizado – realização do conhecimento da origem e do que dele
se segue em termos de definição do progresso natural destruidor
da degenerescência acidental da
dominação, como do
permeio.
Mas, também, a igualdade como homogeneidade subsumível à instância
do Poder que o “contrato” delegou, a fim de que os signatários
componentes da sociedade se livrassem do privilégio - como
quem
diz, da diferença
-
de um grupo de dominantes.
Há
uma ambiguidade notável na letra do contrato, entre sujeito e grupo,
já que são sujeitos que “assinam”, renunciando à vontade
individual a fim de garantir a paz e a prosperidade, mas
estas, se individuais, na verdade apenas pela subunsão da vontade
individual ao todo social. O
poder não é a função gestora da coisa pública, é um “poder”
realmente personificado-personificador do todo, etc.
Já
em qualquer Estado constitucional da contemporaneidade se elide a
ambiguidade. Não
se trata de “contrato” das partes, nem de renúncia da vontade
subjetiva, mas de status a que se pertence desde o nascimento, como à
nacionalidade. O
direito já
não sendo estamental, tornou-se
igual para todos, mas
cada
um responde à
lei
como sujeito, a singularidade única que
compõe o
seu corpo e a
sua
consciência.
O
enigma histórico da época que vai da Revolução “rousseauísta”
anti-monárquica
a Hegel pode
se expressar assim. Por um lado, não é o “sujeito” que faz a
Revolução, mas, como vimos, a mística do todo. Por outro lado, nem
aquilo contra que ela estava em termos de “cientificismo”
classicista irreligioso,
pode ser suposto um pensamento do “sujeito”, e
isso já na
medida em que limitava seu exemplo ao parlamentarismo inglês.
Não
obstante, o que a Revolução produz como subsequência imediata ou
pós-kantismo e Romantismo, é a emergência do Sujeito
pensável, assim como do Estado contemporâneo, o estatuto
“político” da
cidadania, como
questão da heterogeneidade social,
pensável.
O
enigma ganha expressão maior em nossos dias. Até aqui pudemos
considerar a incompatibilidade de direito aristotélica-cartesiana à
História, como igualmente
factual. Mas
nossa descoberta presente limita a coincidência ao negativo.
Enquanto não podia haver história como ciência, antes do século
XIX, ela é válida, porém já não quando a ciência da História
se torna possível. O que descobrimos foi, portanto, a vertente
teórica de conversão do aristotelismo ao mundo histórico.
Se
instalamos Hegel como o referencial dessa transformação,
é evidente que precisamos já ter feito uma escolha
relativamente ao “que”, em termos de “transformado”, veio
a ser a
heterogeneidade social desde
Hegel preconcebida.
Repetindo, a tripartição posicional grosso
modo designada entre “liberalismo”,
“esquerda” e “fascismo”. Não
significa obviamente
que Hegel criou a sociedade contemporânea, mas sim que
o destino de sua interpretação serviu
à expressão
das
intenções daqueles que foram
referenciais
aos movimentos principais da “modernidade”, em
seu conflito mútuo,
tal
que o significado mesmo desta assim se colocou em jogo.
Uma
opção ao menos está de saída
descartada. Julgar que entre
as três tendências, é
válido considerar que se trata de decidir pró ou contra a
“modernidade” em si mesma. Cada
uma delas se colocou como a sua realização, e
eis a hegeliana História, como o seu sentido. Reta
orientada, flecha do tempo, irreversibilidade:
Modernidade,
onde os acontecimentos flutuam “Por mares nunca antes navegados”.
Porém
não coincidindo quanto ao que a
modernidade
significa, o
percurso segundo
as
tendências
também não é unívoco. Ora,
podemos a meu ver seccionar em
períodos bem conceituáveis a
essa divergência crucial. O
termo “fascismo” não existia, do
mesmo modo que o partido político assim designado e as ideias que
lhe são próprias,
até princípios do século XX. A “esquerda” marxista emerge
apenas em meios do século XIX. O que é o Estado “liberal” é
uma questão cronologicamente válida para se propor com relação à
concepção que Hegel expressa à época de sua produção escrita.
Se
a concepção pela qual podemos lidar com forças históricas do
mesmo modo que com concreções naturais,
tal que mesmo onde não existia a nomenclatura havia concretamente a
coisa, é ela mesma histórica e tendenciosa; se
ela é estritamente
“positivista”, conforme
o paradigma pós-romântico de meios do século XIX “darwinista”,
como redutora de toda cientificidade aos fatos objetivos da natureza
que
não dependeram de qualquer movimento consciente que
os criou em
circunstâncias próprias; não
é por exemplo uma concepção “humanista” que, como defendia
Hegel,
faria
diferença entre a
natureza
dos
fatos que
cobre a cientificidade natural relativamente àquela
coberta
pelas ciências humanas.
Aqui
é a natureza dos princípios o irredutível. Mesmo
a biologia evolutiva está objetivando discernir os
mesmos
princípios
gerais
que regem todas
as
mudanças. Quando se trata da História, um enunciado do próprio
Hegel pode exemplificar que o
que muda são os princípios eles mesmos para
cada fato considerado.
Assim, conforme
Hegel “O Estado é a ideia de espírito na manifestação exterior
da vontade humana e sua liberdade. Ele é portanto, essencialmente, o
meio para a mudança histórica, e nela, as fases da Ideia
representam diversos princípios.”
(“A
Razão na História”, tradução adaptada da “Introdução para
as Lições Sobre a Filosofia da História”. São Paulo, Centauro,
2001, p. 98, grifo
dele.)
Althusser
não está de todo errado na sua intenção de mostrar que
Marx, como pensador “objetivo”
coerente com a era darwinista, não
se reduz a mero inversor da dialética hegeliana. Na
verdade ele não tem dívida para com Hegel, se o seu pensamento nada
releva daquela
separação
de gêneros de inteligibilidade, e
mesmo, milita contra ela de um modo tão competente
que a cisão exemplar quando é o caso de escolha do ponto de vista
em história, é entre o
universal de Marx
por
um lado, e qualquer outro aporte, por outro.
Porém seria forçado do ponto de vista histórico e
mesmo analítico textual, ignorar
os
motivos da frase do próprio Marx relativamente à
inversão
da
dialética de Hegel
como realização sua. A
“Ideia” se incorporou como praxis, o
princípio inerente a cada fase pôde
assim ser visado de um outro modo como partes de um todo.
Um
paradigma humanista pós-positivista e
de fato
muito
revoltado contra o “positivismo objetivista”,
retomou em princípios do século XX a irredutibilidade de
ciências naturais e humanas, que o “positivismo” nesse interim
havia unificado, e
operou a reinserção da razão imanente à história ao
invés de um determinismo que explicaria todos os fatos independentes
do tempo e lugar. Porém
nessa aparente retomada, irredutibilidades notáveis se fazem sentir,
com relação ao cenário original do pós-kantismo romanticista.
Nesse
novo momento, a irredutibilidade se tornou propriamente metodológica.
E já
não servia
a um objetivo discernível,
a
unidade totalizante do que Hegel designou a “Ideia”. O
que vimos ser o objeto de toda “naturphilosophie” como a
necessidade existencial do Absoluto abrangente de fenômeno e
noumeno, objeto
e sujeito, assim como do percurso de autocompreensão da entidade
cognoscitiva.
O
pós-positivismo é o momento de emergência das ciências humanas na
forma em que hoje são exercidas, não obstante o século anterior em
que elas foram núcleos conceitualmente importantes.
É
nesse contexto de
inícios do século passado
porém que o fascismo se
sobrepôs ao anarquismo como recuperação possível da concepção
do Estado, assim
utilizando-se de Hegel para a propaganda da subsunção do indivíduo
ao “todo”, na
acepção de um organismo social,
como símbolo
do autoritarismo passional.
Lembrando
que a essa altura, não eram a Inglaterra ou a França a vanguarda do
capitalismo transformando-se em “financeiro” por meio da
aglomeração de trustes e carteis contra a livre iniciativa que até
então era o referencial do novo no tempo. Mas
sim a Alemanha, onde nenhuma Revolução considerável havia abalado
a mentalidade tradicional
da nobreza, o que convinha muito à
tarefa de reconceituar o capitalismo associado, isto
é, de casta e não individual, assim
pós-smithiano – se é que houve algum de fato smithiano para além
das fantasias pequeno-burguesas. Ou
seja, quando o capitalismo mostra ao que veio para tipificar
a nova aliança de alta burguesia e aristocracia, o retorno da
mentalidade do “antigo regime”, como
o que
não poderia ser mais antipático à
hegeliana filosofia da história,
é
o pivô da nova interpretação fascista do hegelianismo.
Não
creio que seja apenas tendencioso
sugerir
que a
utilização fascista
deturpa consideravelmente
a intenção da mudança social que visa Hegel em
sua euforia revolucinária contra o antigo regime tipificado no
“passado” em sentido absoluto,
de modo que a interpretação liberal, para quem o Estado
contemporâneo é a
emancipação do indivíduo pela lei, é
a única que não
o
“inverte”
nem o
deturpa.
E
se
a “inversão” não é tão ruim como a deturpação, uma vez que
aquela tem seus motivos que
não são apenas o oportunismo imediato, o problema é esse mesmo –
se queremos compreender Hegel, antes que aos motivos de um momento
posterior.
Permanece,
contudo, o pivô da totalidade como o fio que interliga tudo. Como
vemos, através da história, a modernidade a radicalizou ao invés
de, como
num percurso que se especializaria apenas
no
contexto dos personagens liberais que
iria se cristalizar na social-democracia de inícios do século
passado,
aprofundar o que quer que Hegel e os revolucionários nacionalistas
do seu tempo queriam expressar com sua
retórica da emancipação constitucional.
Ora,
se nenhuma análise tem sentido se não puder chegar aos
determinantes estruturais do seu objeto de
pesquisa, aqui é o mesmo caso. Um determinante assim podemos obter,
se notarmos que todo o discurso da “modernidade” depende como
fundamento, de uma regra de
transformação relativamente
ao
modo de ser unívoco anterior, ante-moderno,
sendo
“modernidade” a
mudança
temporalizadora.
A
regra deve dispor ao mesmo tempo a temporalidade e o que ela secciona
como o passado e o presente, sendo por isso que ela é a orientação
temporalizante, do presente, como brecha entre o passado e o futuro.
Essa
não é a
condição decorrente de um trauma profundo, como o da segunda guerra
mundial, quando
se considerou que toda a tradição anterior não era já possível
posto que não previa a atrocidade tecnicamente programada. Ou
de qualquer acontecimento interior à
modernidade, mas sim é a condição dos acontecimentos decorrentes
da disposição constitutiva
deles em uma “modernidade”.
Aqui
o papel da História como limiar da cientificização das matérias
humanísticas é o principal. Pois a condição da posse da História
como ciência social é o definiendum
da modernidade, dispondo
assim ao mesmo tempo a condição ante-moderna como falta, traduzida
na limitação
do mito. A oposição do tempo cíclico ao linear é pois a regra de
construção da “modernidade”, como da oposição do primitivo e
do desenvolvido.
A
modernidade funda pois as ciências humanas como discurso do
desenvolvimento. Elas vão sendo
encarregadas, gradualmente,
do diagnóstico da normalidade para todos os fins médicos, políticos
e jurídicos.
Nesse
status, o ante-moderno é o que precisa ser definido em termos de
originário, para que a normalidade civilizada
do sujeito epistêmico – capaz de produzir ciência normal –
não seja a imediatez da condição animal humana,
e sim o resultado de um processo psicossocial
evolutivo em marcha na História que
diferencia pois, o homem e o homem.
O
louco, a criança e o primitivo são uma
mesma condição psíquica que define a irredutibilidade ao sujeito
epistêmico normal, com
a ressalva de que o louco é o atraso incurável, a criança é o
atraso circunstancial, e o primitivo é o atraso em si – o
“pré-ego-lógico”
das ações que
definem
a
condição.
Ao
contrário do que os que não conhecem a literatura pertinente
poderiam pensar, não se define a ação – isto é, não a
aparência do que é feito, mas
o que é cientificamente proposto
– infantil, sem o recurso ao paralelo antropológico da ação do
primitivo. Doença mental é fixação da mente num estágio
correlato ao status infantil-primitivo.
O
estruturalismo quis denunciar essa regra e quebrá-la, porém Levi
Strauss não tem nada a dizer sobre a arte e ciência modernas além
de serem elas, ao contrário do louco, da
criança
e do xamã, como fascinados
pelo excesso significante, a consciência da carência do
significado. Não
surpreende assim que o freudo/marxismo
tenha
restaurado
recentemente o sócio-evolucionismo rigoroso que o “humanismo”
havia atenuado, radicalizando essa via entre Althusser e Fredrick
Jameson. Na
atualidade, a radicalização se traduz pela desaparição do status
de países “em desenvolvimento” , e
já não é apenas uma opção “estruturalista”.
O
determinante estrutural que nos permite conceituar a diferença em
nível de paradigmas é então a disposição do primitivo, conforme
ela muda
o significado e a legitimação da transformação inerente à
“modernidade”. À
época
de Hegel, o primitivo era ainda como em Locke e Rousseau, o indivíduo
livre
na natureza.
O positivismo é o momento em que esse paradigma muda, a partir da
biologia de Darwin, que reconceituou o primitivo como horda
coletiva,mas
também devido à mudança do aborígine americano em cidadão
nacionalizado, concomitante à elevação do “indo-europeu” a
centro de interesse na
pesquisa do processo civilizatório.
Aí
ocorre a mudança na caracterização da “modernidade”, tal que
se expressa suficientemente na opção tradutora do termo
equivalente, a “burgerlische
society”.
Quando
se trata de traduzir essa expressão do texto hegeliano, usa-se
“sociedade civil”. Mas quando o texto é marxiano, usa-se
“sociedade burguesa”. Até Hegel, pois, a modernidade como a
efetivação do Estado constitucional é o fenômeno
político
da organização social, mas desde Marx, é o fenômeno econômico
do
capitalismo. O
progresso transita assim da “mente” à “produção”.
Em
princípios do século XX, o funcionalismo ampliou o marxismo assim
como a todos os referenciais humanísticos ao
nível da antropologia social que estava começando seu exercício
“in loco”, do qual resultou o conceito avesso às fases
hegelianas, de mentalidades sociais autônomas. Porém a regra de
construção não foi ultrapassada, assim a
totalização dicotômica se colocou como a questão a ser resolvida
por um novo conceito de “modernização” - por
onde a utilização fascista e demais consequências atinentes ao
modo pelo qual se configuraram o funcionalismo e o estruturalismo
subsequente.
Ora,
a questão em nosso estudo sendo a “filosofia da potência”, o
texto de Hegel sobre a história é o foco pelo qual o aristotelismo
serviu
de fio condutor à reapropriação do objetivo de emancipação do
sujeito pela
totalidade, conforme o percurso da “naturphilosophie” às
ciências humanas prédeterminadas
como
“filosofia da história”.
É
algo conveniente o aristotelismo aí, não apenas pela cientificidade
do “materialismo”, mesmo
na ambiguidade da “ideia”,
desse
modo
garantida. Se fosse assim, Hegel não teria a centralidade que lhe é
devida na “modernidade”. Mas também
por essa
pseudo-democracia do
senhorio que
na Grécia antiga foi o discurso aristocrático de
sua
Ética assim como a
homogeneização
autoritária de sua Metafísica.
Se
esse aristocratismo
é
o resultado da plenitude da
“filosofia da potência”
em Nietzsche, podemos atribuir a mesma intenção já a Hegel,
concedendo
assim justificativa “avant la lettre” à interpretação
fascista?
Não,
a princípio, se Hegel não é o restaurador, mas o inimigo decidido
do “antigo regime” - ainda
que fosse para bastante neuroticamente o deificar em objetivo
“futurista’ jamais antecipado como o de toda modernidade.
Porém
restaria alguma dúvida, se não apreendemos bem o sentido da
totalidade na imanência absoluta da Ideia, assim como a terminologia
da “potência” em sua filosofia da história.
Se
Hegel, sim, utiliza-se aí do aristotelismo como um motivo central,
vejamos
agora de que modo ele o reinterpretou na
via da emancipação, como
realização da Liberdade na História.
///
É
com relação à própria forma ou regra de construção discursiva,
que Hegel ultrapassa, mas aristotelicamene, o veto
aristotélico-cartesiano à História como ciência. Ao
invés do correlato fortuito e carente de conceito como
poderia sugerir ao pensamento metafísico toda ação meramente
humana,
na “história do mundo”
há
uma condição necesária da qual decorre a
sua universalidade. (op.
cit. p. 89)
A
princípio, Hegel repete os termos da “teoria política”
clássica, designando a
condição em termos de
“vontade geral”, mas logo
ultrapassa esse limite nocional
para especificar que se trata do Estado: “O que conta em um Estado
é a ação realizada de acordo com uma vontade comum e adotando os
objetivos universais”.
Para
apreender essa ruptura em nível de conceito, seria oportuno
escalonar os temas que
o enunciado enfeixa.
Aqui
vamos defini-los em
seu caráter problemático à interpretação.
Em seguida, desenvolvê-los
conforme sua inserção contextual, relacionando-os
com os argumentos expostos na redação de
Hegel.
Primeiro,
o tema
do que
significa a universalidade, nesse contexto em que deveríamos estar
encontrando uma terminologia bem irredutível, a do “político”.
Ou
seja, como seria coerente ao cenário de emergência das Ciências
Humanas e da destituição da unidade clássica do
inteligível, a terminologia relacionada à questão que assim se
torna pertinente, do âmbito público – o “político” – em
termos de coexistência do heterogêneo.
O
segundo tema é
aquele
que se segue de problemático em torno desse núcleo forte
que representa, na
estrutura do enunciado, a
palavrinha “ação”. Pois
o seu sentido encerra a questão de quem
age, assim todo o peso da
transformação contemporânea relativa à emergência do Sujeito
pensável. O
Estado já ultrapassa a fronteira antiga da delimitação do
dever-ser, é o correlato de um fazer empírico. Não se trata de
Metafísica ou “ética” que com ela precisa, mal ou bem,
acomodar-se, mas estritamente de História.
A
dificuldade com
esse segundo tema
é patente, pois não basta recorrermos ao que já sabemos da
“sociedade civil” em termos de modernidade
como realização do Direito
individual.
Por um lado, Hegel nega frontalmente a
asserção
que
limitaria o seu pensamento a uma fórmula assim,
por
mais comum que tenha se tornado naqueles
meios liberais que tiveram com ele
a maior
boa vontade. Como
nega
qualquer
valor histórico à “vontade particular” que ele
reduz a nada
além de “caprichos
e ânsias”, de modo a asseverar, corentemente ao que vimos já
ter estabelecido contra
Rousseau:
“O
universal não deve ser apenas algo que o indivíduo projeta, mas
algo que já existe”.
Mesmo
o Estado mais primitivo já suprimiu a veleidade
da vontade particular: “A particularidade da vontade é já haver
sido repudiada em formações políticas primitivas como essa”, a
saber, onde já existe a “sujeição” do particular,
de modo que “não se deve imaginar que esse tipo de organização”,
como
o Estado originário, “poderia
surgir em uma ilha deserta ou no isolamento”. O que contraria
frontalmente a lição do “naturmensch” como
tradução do Crusoé
aviceniano.
Porém
Hegel inicia esse mesmo trecho afirmando que “A vontade subjetiva,
paixão, é a força que realiza, que torna real. A Idéia é a
energia interior da ação, o Estado é a vida que existe
externamente, autenticamente moral”. (p.
88)
Retorno,
pois, do lugar comum hegeliano em termos de proselitismo da
“modernidade” como emergência do sujeito pensável.
O
elemento da filosofia da história hegeliana realmente
já
não é a Sittlichkeit (“civilidade”),
mas a Moralität
(moralidade). (p.
84, 5)
Aquela é estritamente o universal
na acepção do costume como o que, na esfera do privado pode porém
ser julgado em geral, comparando-se
este ou aquele costume quanto ao bem ou o mal.
A
Moralität
é em que se realiza a possibilidade do
corpo de leis como
o juízo ao que é bem e mal relativamente à liberdade.
Pela
terminologia da ação contudo,
já vimos a
possibilidade
estar
proposta como necessidade do fazer.
Não
obstante, a lei que se realiza como ideal da Razão não procede da
fantasia individual, assim como não se restringe ao caráter
empírico dos acontecimentos.
Moralität
é
a
letra de um Estado em particular, que não pode ser julgado ou
compreendido pela de outro Estado. É
então
designada como “vida
que existe externamente”. (p.
88)
A
caracterização do Estado sendo a “união
da vontade universal e essencial com a vontade subjetiva, e como tal,
ela é Moral”.
Assim
também à página 100: “Pois já dissemos que toda a moral é a
unidade da vontade subjetiva (ou pessoal) com a vontade geral (ou
universal)”.
E
sabemos
que a ordem estatal em Hegel não define as
clásulas de um contrato, mas as fases de um processo, tratando-se
antes que do singular como “o” Estado, de um plural, “os”
Estados que sucedendo-se, perfazerm propriamente a História como
esse
processo teleologicamente orientado à modernidade que realiza a
civilidade constitucional correlata
à autoconscientização da Moralidade.
Ou
seja, o fazer, a ação, não é nem mesmo o correlato efetivo de uma
atualidade, mas o necessário meio do Estado enquanto processo de
transformação do
status quo vigente.
Mais
uma vez, é o sujeito que conta no fim do processo: “O indivíduo
que vive nessa união tem uma vida moral, ele possui um valor que
consiste apenas nesta existência real”.
Se
a Moralität
é a ação do particular na universalidade, a
questão do
sujeito em
Hegel
é também a
de como
na
universalidade
o que ocorre é processo em vez de, digamos,
a atuosidade de um eterno dever-ser natural.
Não
devemos supor que a fórmula moral em Hegel signifique um recuo
relativamente ao imperativo
pós-feudal de cisão entre a ética e a política. Ele
a reafirma expressamente, diferenciando
os dois sentidos do termo “moral”. O sentido que acima
estipulamos é exclusivamente conceitual, não coindidindo com o
corrente linguístico. Neste
último somente
é
que
“a localização da moral é o sentimento individual, a consciência
pesoal, a maneira de agir e a vontade particulares”. O que
tradicionalmente se distingue da localização da política enquanto
o âmbito público das decisões concernentes a normas legais.
Mas
assim decorre
o terceiro tema, desdobrando a tarefa algo espinhosa de discernir o
que realmente Hegel preconiza em termos do Estado realizador da
História
ou “modernidade”.
Não
ocorre um momento em que podemos discernir o fim da ambiguidade entre
o sujeito e a
sujeição, naquilo que concerne à realização da História ao cabo
do processo do Estado na “modernidade”. Mas
o que ocorre,
a exposição do processo em si, que devemos observar
com minúcia, relança
o problema ao invés de o resolver, uma vez que o escopo de Hegel
quanto à caracterização nova do Estado está nos antípodas da
supressão da Religião
como objetivo de sua realização.
A
partir daqui desenvolvendo as temáticas delineadas, vemos que,
quanto
ao primeiro tema, da
universalidade, o espinhoso da tarefa de interpretação está em
alcançar sua junção ao devir. Pois,
até então, não há praticamente exceção à antiga regra
metafísica
pela qual Ser (Universal) é axiomaticamente
o oposto do Devir, como
o que é e o que muda.
Nessa
tarefa, podemos cuidar primeiro do conteúdo e depois da forma.
Inicialmente o que está sendo expresso como universal, a saber, o
(s) Estado (s), e em seguida se e como a inteligibilidade de um
universal em devir está sendo justificada - para além da
mera ideologia propagandística
de
uma duvidosa concepção de
progresso que
não quer dispensar a Religião.
A
teleologia, assunção hegeliana
explícita de que há um “objetivo final do mundo” (p.
65), não
autoriza o recurso simples de
colocar somente na realização deste, definida
como Liberdade, a
afirmação da existência do Estado. Há antes uma “divisão
natural da história do mundo”. Por
“natural” aí não entendendo-se a sempiterna atualidade da
correlação de matéria e forma, se o que ela explicita é “a
afirmação ... a respeito dos diversos graus na consciência da
liberdade...” que
correspondem aos vários tipos de Estado que se sucederam na
História.
Conforme Hegel mesmo resumiu expressando-os “… quando dissemos
que os orientais sabiam que apenas um
é livre, os gregos e romanos, que alguns
são livres, ao passo que nós sabemos que todos
os homens, de maneria absoluta, ou seja, como homens, são livres”.
Essa
liberdade somente
de hoje
é que ele
define
“como objetivo final do mundo”. Se
é clara a correlação dos graus de liberdade com os regimes
sucessivos do despotismo à aristocracia, antes da liberdade do
presente, quanto a este veremos à frente que a ambiguidade é
nítida, entre a democracia e a monarquia. Em
todo caso, trata-se de um Estado de direitos civis que coincide com a
atribuição das prerrogativas legais a todos.
Que
no
processo teleológico se
tratam porém de Estados ao invés de uma
cisão entre a barbárie (passado)
e a civilização (presente/futuro),
podemos ver pela máxima que
coroa a dedução: “A liberdade não predominou repentinamente nos
Estados, nem a razão nos governos e constituições”.
A
definição de Estado, como o objeto único da História, “o
objeto preciso da história do mundo” (p. 91) envolve
como vimos essencialmente a universalidade, que
aqui é o mesmo que objetividade, o Estado sendo, pois, “onde a
Liberdade obtem a sua objetividade e se mantém no gozo desta
objetividade. A lei é a objetividade do Espírito, é a verdade em
sua forma verdadeira”.
Porém
não se limitando à essência da coisa pública enquanto corpo de
leis necessarimente
observadas e
assim oposto
a costumes como matéria de opção
pessoal. A
dificuldade da interpretação aqui torna-se
patente.
O
Estado
não é o âmbito público apenas quanto a normas estatuídas, não
obstante a definição da teleologia ser o “desenvolvimento da
moral em forma jurídica” (p. 93). Ele
o é, bem mais, um autêntico sujeito coletivo, o
“espírito
do povo”,
expressando-se ulteriormente às suas leis, na e como a totalidade da
cultura. Ora,
como vimos acima, enquanto o âmbito do universal oposto ao
individual, ele é a realização
externa
como
da vida existente, “autenticamente moral” (p. 88). Mas ampliando
o universal em nível cultural, já não se devem
enfatizar “os aspectos exteriores”, bem
inversamente
apenas
o “que
é chamado de espírito de um povo… a consciência que ele tem de
si, de sua verdade, de sua essência, as forças espirituais que nele
vivem e o governam” (p.
90), o
que abrange essencialmente “a arte, as leis, a moral [em sentido
corrente], a religião e a ciência” (p. 99).
Assim a nova definição pela
interioridade
resulta: “O indivíduo espiritual que é o povo, é o que chamamos
de Estado quando está organizado em si como um todo orgânico”.
(p.
90) O que Hegel circunscreve entusiasticamente: “É o laço sagrado
que une os homens e as almas. É uma só vida, um grand eobjetivo, um
grande desígnio e conteúdo, de que depende toda a felicidade
individual e todas as decisões pessoais...”. Ainda assim, “o
Estado não existe para os cidadãos”, mas sim que, ao contrário,
“o Estado é o fim e que eles são os meios”, porém
ocorrendo que “a relação meio-fim não funciona aqui”, pois “o
Estado não é o ideal com que se defrontam os cidadãos, mas estes
são partes daquele, como os membros de um corpo orgânico, em que
nenhum é o fim e nenhum é o meio”.
Além
disso, contudo, a existência factual de um povo não basta para
definir a existência do Estado. Com
relação ao Estado ou, universalidade,
vimos
ser o
objeto
da História enquanto esta é conceituada em termos de “objetivo
final da Razão” (p. 87). Porém
Hegel
distingue assim
o
objeto
e
a
matéria
da História, esta
somente sendo
“o
próprio agente subejtivo, os desejos humanos, a subjetividade em
geral”. Num
outro trecho, ele reenuncia
a distinção
nos
termos da
tríade em que o primeiro termo é “a ideia da Liberdade como
objetivo final absoluto”, o segundo termo são “os meios para sua
realização, o lado subjetivo do conhecimento e da vontade como sua
vitalidade, mobilitade e atividade”; e a
união objetiva de ambos vindo a ser “o Estado como conjunto moral
e a realidade da liberdade”. (p.
99)
Assim
há
um “lado” da Ideia objetiva que é sua determinação puramente
ideal, como
liberdade. Mas
somente o
outro lado, a
“simples
ideia da razão” ou ‘subjetividade” e
“consciência
de si”, sendo
em que
se descobre o
que são vontade e conhecimento, a saber, o pensamento, é que
realiza a unidade
como síntese de ambos,
nisso pelo que “no conhecimento e na vontade refletidos, eu desejo
o objetivo universal, a matéria da racionalidade realizada”. Se o
Estado é a existência da
unidade realizada, nele a realização sendo a cultura, esta é a
atividade espirutal em que a unidade vem a se tornar consciência,
como atividade espiritual, em três formas de “união consciente”.
A religião, a arte e a filosofia. Ora, ainda assim a linha que
secciona a História da pré-história, não passa pela cisão de
indivíduo e coletividade unidade pela vontade geral como “povo”.
“Os povos podem ter tido uma longa vida antes de alcançar seu
destino de Estado. Durante esse tempo, podem mesmo haver obtido uma
grande cultura em algumas direções. Esta
pré-história, como já foi dito, está fora e nosso plano.”
(p. 111)
Até
aqui, Hegel cuidou de diferenciar sua teoria de duas outras que
estabeleceriam o que podemos designar o corte histórico, a
ruptura para com a pré-história.
A
primeira, rousseauísta, que preconizaria um estado natural do
direito individual, de que o deliberadamente constituído seria a
projeção. Nesse estado natural Hegel acredita, como Hobbes, apenas
imposição da força bruta: “paixões
irracionais e atos de violência”, de modo que “a hipótese do
nobre selvagem é uma daquelas imagens nebulosas que a teoria produz…
sem uma justificação hist´roica suficiente”. Ao
inverso de Rousseau, para Hegel “a liberdade como ideal de natureza
original não existe como origianal e natural. Ela deve ser adquirida
e conquistada
e isso apenas é possível através de um processo infinito da
disciplina do conhecimento e da força de vontade”. (p. 92).
Mas,
ao contrário de Hobbes, Hegel não concorda com a teoria ulterior de
que a base do Estado é o patriarcado, sendo a base deste “a
relação da família”. Nessa teoria, a moralidade é o que
coalesce na família e só em segunda instância, no Estado. Porém,
conforme
entendo a concepção de Hegel, muito abreviada nesse ponto pela
adaptação da tradutora,
para Hegel na
família o que se realiza é sempre
só
a unidade de
um todo além do indivíduo,
por onde a vontade individual reprimida primariamente se canaliza
para a satisfação real na ordem possível, a
do grup.
E
sendo
o
liame de
tal unidade do
grupo familiar
apenas de sentimentos, “permanecendo dentro dos limites naturais”,
como
o amor, em que “um tem consciência de si na consciência do outro”
e se torna assim altruísta.
(p.
93)
Só
o Estado realiza a moralidade ela mesma, sem
instância precedente e que,
como na razão prática kantiana, não é um laço de sentimentos,
mas
sim realização formal. Porém
para Hegel, realização enraizada
da
cultura, antes
que
do imperativo individual da vontade.
Essa
precedência sendo de direito e não apenas de fato, é onde reside
a complexidade da interpretação do texto hegeliano. Pois,
por outro lado, é o elemento da paixão, engajando os homens como
indivíduos, que transforma a realidade na cultura.
Ora,
desse modo parece complicado entender que um povo possa ter realizado
a cultura, mas nem só por isso ao Estado. Ou
seja, assim como Aristóteles predicando a matéria sem forma, e
mesmo antes da noção de ideologia em Marx, Hegel concebe a cultura
sem história.
Ele
o explica do seguinte modo. Primeiro,
mostrando que a palavra história tem dois sentidos, o de
historiam rerum gestarum e
res
gesta,
a
efetividade do que ocorre historicamente, e “a narração dos
acontecimentos”. (p.
112)
O
Estado só se cumpre como definiendum
do status histórico, porque nele ambos os sentidos são atribuíveis.
Assim,
por um lado, “Uma comunidade que adquire uma existência estável e
se eleva a Estado exige mais do que simples mandatos subjetivos de
governo, que bastam às necessidades de momento. Ela exige regras,
leis, normas universais e universalmente válidas. Assim
ela produz e está interessada em um registro inteligente
e preciso, com resultados duradouros, de suas ações e
acontecimentos. Minemósina é levada a acrescentar a memória, para
perpetuar a formação e a constituição do Estado.”
Mnemosine,
a
mãe das musas, que guarda a atribuição da memória entre os
gregos, é assim evocada por Hegel ao mesmo tempo como a presença da
História e o
critério pelo qual o definiendum do status histórico pode ser
afirmado na forma da existência do Estado. A ambiguidade entre
Estado histórico enquanto espírito do povo, e povo em si como
pré-histórico, também
é patente
pelo
seu modo de tratar o Oriente
como o referencial do
regime imperial.
Querendo evitar a confusão de despotismo e monarquia, atribui ao
regime oriental, como o
de
autoridade única, a caracterização de “despotismo”, assim
explicitada: “Eles apenas sabem que um é livre, mas, por isso
mesmo, essa liberdade é um simples capricho, ferocidade, cegueira da
paixão ou, quem sabe, a suavidade e docilidade do desejo – o que,
mais uma vez, nada é senão um acidente da natureza e assim, mais
uma vez, o capricho”. (p.
64)
Mas
assim ao mesmo tempo sabem que um é livre e não tem consciência da
liberdade, não sendo livres, consciência que surge pioneiramente
entre os gregos, “e portanto eles eram livres” porém que o homem
mesmo é livre, ao invés de uns poucos “isto nem Platão nem
Aristóteles” nem os romanos “sabiam”. Não
obstante a ambiguidade, é corrente incluir o Oriente em Hegel como a
primeira forma de Estado.
Parece
evidente que a ambiguidade reside na cisão difícil
entre
universal e particular, objetivo
e subjetivo, uma vez que a atuação do Estado não é só a cultura
já feita, mas em se fazendo de modo que também
não
é o resultado que interessa à teoria, na forma do Estado
constituído, esse ou aquele, mas a sucessão que de um leva ao outro
como
entre as fases caracterizáveis daquilo
que realmente interessa à investigação, o telos ou sentido do
processo em si.
O
equilíbrio entre o fazer
historiador e a filosofia da história torna-se bem precário. Se “a
liberdade não predominou repentinamente
nos Estados, nem a razão nos governos e constituições”, e se
mesmo
tendo sido
entre os judeus e cristãos que surgiu
primeiro a concepção de que “a liberdade de espírito é a
própria essência da natureza humana”,
a
escravidão não foi erradicada com o início do cristianismo, é por
que cumpre distinguir o princípio e a aplicação.
Quanto
ao
princípio,
reza que “a história do mundo é o avanço da consciência da
liberdade – um avanço cuja necessidade
temos de investigar” (p. 65).
Quanto
à
aplicação do princípio, é o espírito real de um povo que
personifica num dado momento da história. Este
espírito sendo a somatória geral de seus feitos e tendências, que
se apreendem espiritualmente através do pensamento, não basta porém
a sua
concreção intuitiva. A realização do espírito de um povo só
ocorre quando ele atinge a auto-consciência como “um conhecimento
racional de si mesmo”. Porém
assim que isso ocorra, a ascenção daquele
povo
se transforma na própria
queda,
pois “é a asceção de um outro espírito, um outro povo da
história
do mundo, uma outra época dessa história” (p.
123).
E
desse modo podemos suspeitar que a posse da história não coincide
de todo com o registro da memória. Ou, do contrário, a
auto-consciência não seria necessariamente o telos do processo, o
que só se efetiva porque este telos é a autoconsciência do
processo, em vez de apenas a
coisa em si mesma, a ipseidade do ser livre. Se há moralidade, o
etos da lei pública, ainda que não a ética dos indivíduos
particulares, é porque não se reifica assim a realização da
liberdade de todos, mas como consciência da modernidade, de um
resultado do processo histórico como o conceito da História, sua
cientificidade
explicitada e realizada.
O
texto de Hegel parece autorizar convir que ele estava já ciente do
critério em geral da posse da História – como modernidade da, e
devido à,
ciência – oposto às sociedades do mito, cuja temporalidade é
cíclica, não linear.
Porém
na medida em que ele só enuncia a transição entre povos, e não
apenas entre fases, fazendo
assim obra de filósofo antes que de historiador, a
dificuldade aqui parece quase incontornável. Posto
que a realização da historicidade da História – sua
cientificização – seria ao mesmo tempo o fim da história, o
atingimento do objetivo que a informa como processo teleológico.
É
fato que a interpretação corrente de Hegel não decidiu até agora
entre os partidários de que a História para ele realmente teria
atingido o objetivo final com a constituição alemã do seu tempo, e
os partidários de que na sua época apenas se teria atingido o
conceito do processo de libertação como da orientação ao futuro.
Em
todo caso, aqui constatamos que nessa segunda contingência a
resolução do
problema da concretude
como conclusão apenas teria se adiado. O
mais grave é que não se pode sair pela tangente argumentando que
esse não é um problema dos historiadores, mas de
abstrusa filosofia. Só
bem recentemente, e
de modo ainda assaz raro, se tem considerado a sério a tarefa da
história sem o componente da totalidade interpretada, que vemos
emergir na teorização de Hegel.
Até
aqui examinamos o
conteúdo
da universalidade, a caracterização geral do Estado, quanto ao
primeiro tema que desenvolvemos entre os demais listados.
A
forma
pela qual Hegel pensa a originalidade do universal em devir interessa
à
oposição de ato e potência.
Conservação
da
terminologia pela qual ele de fato realizou a transposição do
conceito
aristotélico
fisicalista da potência, a
uma teoria do Poder político como validação da autoridade estatal.
Porém
essa transposição, no bojo da explicitação metodológica
hegeliana, abrange o deslocamento do objeto, desde a
fixidez da substância à dialética do devir. Assim,
mais uma vez, a
exposição da forma se mistura à precedência do conteúdo. Pois
em devir está a atuação e o “quem” atua, somente em função
de que podemos entender o deslocamento terminístico e metodológico
da “potência” na natureza ao “poder” na cultura. Por
isso se torna oportuno reservar o desenvolvimento dessa questão da
forma, na inerência do nosso
primeiro
tema da universalidade, só
ao
desenvolvimento do terceiro tema, em que o poder como o que realmente
Hegel expressou nos termos do regime em que a liberdade se realiza,
se
torna o
referencial compreensível. Assim também decorre a vantagem de
podermos apreender a união que na exposição de Hegel se configura
na
dialética do espírito, entre o subjetivo e o objetivo, o sujeito e
o Estado como ambos componentes da realização
da
Ideia
da Liberdade na
História.
Transitamos,
pois, ao
desenvolvimento
do nosso
segundo tema, que
endereça
a questão do sujeito em Hegel. Uma
vez que o tema é tão vasto, aqui o cingimos esclarecendo o escopo
da nossa interpretação. Trata-se
de responder
à indagação sobre se o
que visamos como a contradição não dialetizável da
filosofia da história hegeliana, pode
ser esclarecido pelo referencial da Fenomenologia do Espírito, ali
onde Hegel desenvolve o conceito da subjetividade.
Nas
Lições sobre a Filosofia da História, a
Razão que
se defende agente nesta como um capítulo especial da racionalidade
universal,
se expressa em termos da realização da humanidade como liberdade
dos
sujeitos. Mas
o que o percurso define no fim realizado
é “a
unidade do subjetivo e do objetivo” (p.
127). A Liberdade de
todos
nunca se expressa em termos de um estado de coisas em que a
singularidade de cada um poderá se criar por ele mesmo e se
desenvolver num meio livre, o
que não é exatamente a mesma questão da entrelimitação em comum
dos direitos de cada um. A
Liberdade assim se define: “… o reconhecimento e a adoção de
objetivos materiais, universais, como o Direito, a Lei e a produção
de uma realidade que esteja em conformidade com eles: o Estado”.
(p. 111)
Nem
mesmo se pode dizer que esse
resultado procede apenas do fato de Hegel estar se atendo à
segunda dentre aquelas questões, não tendo que se a ver com a
primeira porque seu
problema
é justamente o que a História realiza em termos de meio social.
Se fosse assim, poderíamos
pensar que o meio social em que a constituição garante os
direitos individualmente atribuíveis decorre só da evidência
da entrelimitação
dos direitos como de uma necessidade empírica.
A
Razão na História seria o caminho de constatação de
um fato,
o
de que não é possível a liberdade subjetiva senão num meio de
substistência, logo, numa coletividade, e que aí ela não é
impossível como
tal, mas depende de um recurso, o suplemento da
legalidade em geral. E o caminho mesmo culmina em ter alcançado a
inteligência do suplemento, mas
a
partir de um estado de ingenuidade seguido por séries de tentativa e
erro, etc.
Não
é assim, contudo, porque desde a “teoria
política” dos tempos de Locke em diante, trata-se
da espessura entre os estados inicial e final, primitivo e
legitimadamente
legal, do
ser. A Europa não é apenas o referencial da descoberta, como se a
realização da Razão pre-existisse a si mesma assim como se supõe
que os átomos preexistam ao seu enunciado científico – ao menos
assim se supõe para os efeitos de intelibigilidade contextual do
enunciado, cuja
regra de construção exige
deixar
por
ora a
filosofia em suspenso.
A “modernidade”
como regra de construção paradigmática que quer se sobrepor como
princípio a todas as ciências humanas, não descobre, ela realiza,
torna real o que não existia antes. Ela transfere para o âmbito
psicossocial o evolucionismo, cujo contexto, sendo o da descoberta,
validou-se na história do saber apenas no âmbito da natureza. O
meio termo dessa transposição não o valida propriamente, mas como
fator interveniente articula-se a partir da atribuição ambígua de
um “estado de natureza” humano correspondendo ao
ante-moderno-ocidental. Este último como “humano” em termos
civilizados, que significa recursivamente a auto-consciência da
humanidade além da natureza.
Não fugindo à
regra dessa paralogia, Hegel mesmo esclarece que na sua filosofia da
história trata-se de uma possibilidade que não se limita ao “quadro
asiático e não ocidental” (p. 124), quadro que percebe
nostalgicamente a mutação como o perecer contínuo dos povos
realizadores, testemunhado nas “ruínas de Cartago, Palmira,
Persépolis ou Roma”, mas o explica em termos de metempsicose e
transmigração. É a mesma coisa, a mesma alma, que apenas se
rejuvenesce de um envoltório a outro, no curso do tempo que assim se
anula na sua qualidade de diferença. (p. 124)
Hegel quer tratar,
ao invés, de uma verdadeira categoria da “mutação”, que não
se limita porém a um universal abstrato de mudança em geral, mas “o
pensamento abstrato da simples mutação dá lugar ao pensamento do
Espírito que se manifesta e se desenvolve e aperfeiçoa suas forças
em todas as direções que sua natureza multiforme pode seguir”.
(p. 125). Ao mesmo tempo há mudança que não é do mesmo, e
expressão de formas diferentes desse mesmo.O que morre hoje como
forma particular do espírito, sendo também anulado pela atividade
automática do espelhamento na consciência, testemunha da atividade
do Pensamento que é “preservação e transfiguração”. É o
espírito mesmo que ganha assim, na destruição do particular de si,
o universal de si mesmo. Segue-se que “O Espírito é
essencialmente o resultado de sua própria atividade”. (p. 129)
Assim a explicação
hegeliana da irredutibilidade do seu objetivo relativamente ao
“quadro asiático” se expressa pela analogia da planta: “Podemos
compará-lo à semente de uma planta, que é o começo e o resultado
de toda a vida da planta.” Mas assim, de um trânsito progressivo
da potência, Hegel tira a lição da “impotência da vida” que
“se manifesta precisamente nesta desintegração de começo e fim”,
se a atividade de um povo ou de um indivíduo visa realizar o seu
princípio, atingir a maturidade é ao mesmo tempo a realização e o
destruição, a bebida e o veneno: “Tomar o veneno é a destruição
do que bebe, embora seja ao mesmo tempo o surgimento de um novo
princípio”. Os indivíduos como os povos, atravessam diversos
estágios, sendo porém unidade, cada um deles o mesmo. Essa fórmula
é o que Hegel expressa como “a essência, a própria alma da
filosofia da história” (p.129)
A paralogia é
bastante atual, hoje em dia se formulando na assunção gobalizada –
portanto não pós-moderna - de que já nada está fora. O enunciado
paralógico é como consta. O erro não é o que não se sabe, mas o
que não se é. Mas o acerto é o que se sabe, não se podendo jamais
não não ter sido o único ser possível que um único saber define.
Longe da evidência empírica, assim como do que poderia
perfeitamente ter se presentificado antes, há ao mesmo tempo dois
seres e um só ser.
Vimos porém que
emergindo da cena primal da empiricidade indeslocável dos antípodas
na América, esse trauma do nascimento atribuível a esse sujeito
suposto Saber que é o Sujeito da História como ego geopolítico do
Ocidente – assim auto-delimitado para si frente ao outro de si como
quem se dotou do ego frente ao pré-ego-lógico natural - a
paralogia atravessa a oposição metodológica de empirismo e
racionalismo. A “teoria política” da época clássica como
cenário de antecedência das “ciências humanas” em nível de
paradigma (discurso) – não tratando até agora do nível da
pesquisa empírica – tem seus principais momentos entre os
empiristas a exemplo de Locke, e pode-se advogar a causa de Rousseau
nessa tendência, ao inverso dos que o pretendem inatista.
A evolução
biológica vem a ser o meio da transposição da paralogia a novo
enunciado, agora entretecido por interesse expresso do a priorismo.
Nessa transposição é que se pode falar de uma verdadeira
geo-ego-logia ocidental, porquanto a noção emergente, que não
havia na “teoria política” da oposição dos estados de natureza
e sociedade, é a da realização do trajeto paralógico em termos
de realização da subjetividade pensável na modernidade, assim como
referencial do político. O sujeito pensável e cidadão vem a ser na
história, nesse referencial, como a realização da humanidade,
moderno-ocidental.
Com o tempo, esse seu
caráter de vir a ser vai se aprofundar, e o nascimento da
psicopatologia em inícios do século XX é o cenário de
transposição do seu devir, desde a trajetória extrínseca do
não-sujeito ao sujeito em termos hegelianos de povos e estados
políticos, à trajetória intrínseca da formação do ego na
infância – logo, para efeitos de um esquematismo, em termos
hegelianos das figuras da consciência delineadas cuidadosamente na
Fenomenologia do Espírito. As fases do progresso infantil do não-ego
ao ego, não são decerto fases da filosofia, como antes, mas como
vimos, repetem as idades dos povos e condicionam essa sua
classificação, recursivamente sendo diagnosticadas conforme a mesma
classificação.
Na transformação
da paralogia do desenvolvimento, da teoria política empirista ao a
priori, Kant desempenha papel importante como formação do enunciado
a priorístico em termos de inteligibilidade. Se ele ainda não
atinge a emergência do Sujeito pensável, o que estabelece no bojo
de sua argumentação rigorista e inatista em questões de moralidade
é ambiguamente inserível. Tanto pode ser condizente com a condução
aufklaerung, para a qual a realização da razão é o desligamento
da oratória religiosa, quanto na superação da possibilidade
aufklaerung do mero “deísmo” como religião universal, pelo
culturalismo romanticista.
Entre a
argumentação do rigorismo moral e a do cosmopolitismo como
transcurso necessário da história ao universal, de fato Kant insere
o cristianismo – logo, um conteúdo religioso culturalmente
referenciado – como personificação do que seria a priori moral
em nós, na caracterização de Jesus como seu “arquétipo” .
Aqui vemos o
efeito paralógico, que do discurso do desenvolvimento como acima
caracterizamos, se espraia aos conceitos localizados. Pois, o
cristianismo aí, realizando o estado da moralidade universal como
reino de Deus na terra, é por um lado apenas o arquétipo do
universal, este acima do conteúdo das religiões históricas ou
fenomênicas, que pregam cada uma apenas o conteúdo de sua fé.
Deste modo, Kant pensa poder obstar à aplicação cruel de
penalidades por questões de fé cristã, com base na moralidade
universal.
Por outro lado,
o cristianismo em Kant é sim religião histórica, não podendo não
ser por estar definida, como cristianismo, em seu contraste a todas
as outras religiões, estas não-moderno-ocidentais na sua condição
de atraso psicossocial relativamente à realização do universal a
priori moral que Jesus personifica arquetipicamente como o princípio
bom, apto a vencer o princípio da maldade, quanto à máxima regente
das condutas.
Quanto a este
último, o mal é o egoísmo natural pelo qual os homens se afastam
do curso de sua própria razão, uma vez que eles podem se deixar
enganar pelo imediatismo das aparências que limitam a visão de cada
um de nós como individualidade irredutível às demais. Nessa
irredutibilidade imediata, os interesses de cada um seriam pois
vitalmente conflitantes com os dos outros. Ora, a moralidade como o
universal que o arquétipo cristão personifica, é ao mesmo tempo
que essa delimitação à mensagem de uma só religião, um a priori
do que somos, um ser necessário da razão, um dever-ser que
teria que se realizar assim como de um postulado geométrico segue-se
a realidade mesma da figura – é por isso que Kant se distingue
como “rigorista”, daqueles a quem designa “latitudinários”
como aos que não pretendem que exista uma caracterização universal
rigorosa do ser humano, tal que nenhuma exceção possa ser
possivelmente creditada a qualquer indivíduo. Assim também ele
recusa a doutrina da graça em nome do que seria a obrigação
incondicional, defendendo esse ponto de vista com base em que a
moralidade universal está em nós como um mestre, em termos da razão
que portamos, convindo pois, quanto a ele “ a consideração do
subordinado… e nesse caso como esse mestre que está em nós, o
sentimento do sublime de nosso próprio destino que nos enleva mais
que qualquer beleza”. (“A religião nos limites da simples
razão”, São Paulo, Escala, 2008, p. 32).
Para Marco Zingano
(“Razão e história em Kant” São Paulo, Brasiliense, 1989, p.
191), “o direito público… enquanto conjunto de leis necessárias
de ser promulgadas universalmente para produzir um estado jurídico”
é em Kant oposto ao estado de natureza, ou estado selvagem, onde
“não há propriamente injustiça, pois é um estado sem justiça”,
assim “o princípio que ordena todo o movimento jurídico é o que
assere a necessidade ‘de sair do estado de natureza’”.
Porém de que
necessidade se trata? Kant não é pois, rousseauísta nisso.
A necessidade do trânsito da natureza, que entende à Locke como
carência de autoridade pública de modo que os indivíduos estão
isolados uns dos outros, vivendo só para si, à sociedade, ele não
postula como Locke e Rousseau, devido a um estado de guerra
inteveniente que obriga a restaurar as garantias da sobrevivência
naquilo que tange aos comportamentos. Mas à Hobbes, isto é, como
algo positivo, o estado de natureza sendo já o da guerra de todos
contra todos.
Kant radicaliza
a opinião de Hobbes. Para este o estado de guerra natural é apenas
possível como circunstancial, podendo também assim estar havendo
cessação ou ausência de hostilidades. Para Kant, não: “A tese
de Hobbes ‘Status hominun naturalis est bellum omnium in omnes’
só tem um defeito. Deveria, de fato, ser formulada ‘Est status
belli’, etc.”
Caracterizado
como estado em que cada um é juiz de si mesmo, como do que parece
ser seu direito frente aos demais, não podendo haver garantis de
reciprocidade quanto ao que parece assim também a cada um dos
demais, segue-se um estado em que cada um precisa estar sempre armado
contra o outro. A pretensão mesma de ser juiz de si frente aos
demais, sem fornecer a estes outros qualquer garantia de legitimidade
além do próprio arbítrio é a “lesão contínua dos direitos de
todos os outros”. (“a religião nos limites...”, p. 113)
Kant também não é
rousseauísta nisso pelo que nega que o estado de natureza puramente
individual seja o desejável, e o que a civilização após a guerra
deve restaurar sendo esses direitos individuais. Assim Rousseau
pensando a eventualidade de agrupar-se como o transporte dos vícios,
tanto quanto do que se poderia socialmente considerar virtudes, já
que uns e outros são decorrências de sentimentos que temos com
relação aos outros. Para Kant, o dever-ser incondicional é sair do
estado individual para o comunitário, a princípio ético, familiar,
e, depois, moral.
Ora, Zingano,
mostra que nesse trajeto, o “jurídico” em Kant não é
realização da “virtude” moral, e que só esta é realmente a
realização do incondicional, isto é, não apenas as leis que ligam
extrinsecamente, mas a moral que se expressa na máxima que rege a
conduta própria – seguindo o princípio bom e rejeitando o outro.
Algo que o escrito kantiano sobre a religião confirma plenamente.
Não é a lei que engendra a razão prática como imperativo de
universalidade da lei, mas inversamente, conforme Zingano, “a
dedução positiva das leis da razão, por sua vez, supõe a razão
enquanto prática, que era justamente, o que acreditávamos poder
engendrar” no trânsito ao estado jurídico. (op. cit. p. 192)
Nem mesmo convem
esperar que desse estado jurídico resultem sentimentos bons que, nos
ligando assim aos outros de modo positivo, engendre a compreensão da
finalidade universal incondicionada, o bem soberano, a partir
da virtude considerada desse modo como respeito às leis a partir dos
sentimentos e não do dever-ser a priori. Mais uma vez, é só o
respeito, ao invés da afetividade, que estabelece o nível
propriamente moral da legalidade racional. O imperativo
incondicionado pelo qual os homens devem se reunir numa comunidade de
legisladores que podem garantir uns aos outros a legitimidade, ora
porque a comunidade em si é algo acima do arbítrio individual, ora
porque nela os imperativos são universais.
Porém, para
serem realmente universais as leis, isto é, em acordo com o
imperativo categórico (razão prática) que universaliza todo
princípio de conduta considerado válido, a história vem a ser o
palco em que todos os seres humanos vão sendo chamados a resolver
suas diferenças egoístas, rumo à legislação planetária –
nesse sentido, efetivamente universal. Zingano sublinha que
assim há um ponto obscuro na posição kantiana, de fato
revelando-se uma aporética do mal radical. Posto que o homem,
indefinido a princípio, entre o bem e o mal, ainda que não seja
maligno porque a indefinição aí é entre o empírico e o
transcendental, e neste o a priori é o bem, segue-se o pressuposto
de que a preferência é sempre primeiro pelo mal.
Mas assim
também, a história é ao mesmo tempo o curso a priori da realização
futura do Estado universal e reino de Deus na terra; e o curso
empírico da resolução das diferenças, na generalidade do egoísmo
como da preferência pressuposta sempre de
início pelo mal. Os homens descobrem pouco a pouco que
precisam entrelimitar esses egoísmos, na circunstância do que os
egoísmos implicam a guerra total ou em todo caso o espetáculo da
barbárie que repugna à legislação moral como o respeito em nós.
Podemos ver como é
essa mesma aporia o que se comunica ao pós-kantismo, onde deveria
estar sendo superada conscientemente a dificuldade kantiana de um
arquétipo religioso, ao mesmo tempo com e sem conteúdo
histórico-fenomênico. A resolução pendeu como já vimos, pela
recusa da vacuidade pensável do conteúdo, à historicização da
cultura. Porém a noção de um curso do mundo, que na verdade é a
alegoresis da doutrina cristã, posicionando exclusivamente a
moralidade, é conservada do kantismo, recebendo novo alento pelo
fato mesmo do caráter agora indeslocável da cultura histórica.
Como seria de se
esperar, a contaminação paralógica se estende aos componentes da
reordenação do que é realizado como Espírito, isto é, não
apenas o transcendental da Razão, mas o Sujeito pensável. Na teoria
do sujeito hegeliana, as contradições vão ser examinadas em
seguida. Hegel conserva a sentença kantiana, a propósito daqueles
que se perguntam se devem ou não adequar-se à finalidade da lei,
como da que prescreve a obrigação de restituir o bem emprestado ou
prestar testemunho verídico em justiça, como por uma outra
finalidade que poderia ser a esta superior. O escrito kantiano sobre
a religião é peremptório, como conviria a um rigorista: “De fato
pouco importa a natureza dessa finalidade [de determinada lei].
Melhor, aquele que, quando sua deposição legal lhe é reclamada
legalmente, julga necesário ainda indagar-se sobre um fim, já é,
por esse fato, um miserável” (op. cit. p. 14). A finalidade só
pode ser sempre a totalidade da Razão.
Hegel se expressa do
mesmo modo em seu escrito sobre a filosofia da história, onde a
"disposição legal" kantiana já é traduzida em termos de
posição social, porém conservando-se a subordinação da parte ao
todo: “A moralidade do indivíduo consiste em que ele cumpra os
deveres de sua posição social. É fácil saber quais são esses
deveres: eles são determinados por sua posição. O conteúdo
essencial de um relacionamento desse tipo, sua fundamentação
lógica, é conhecido. É precisamente o que chamamos dever.
Investigar o conteúdo de um dever é uma especulação
desnecessáaria; na tendência a encarar-se a moral como problema
difícil, sentimos antes o desejo de nos livrarmos do dever." A
posição determina para o indivíduo o que ele mesmo "sabe"
como o que é "justo e honrado". Assim, "afirmar nas
relações privadas comuns que é difícul escolher o certo e o bom,
encará-lo como um marco de moralidade característico da moral
exaltada, levantando escrúpulos por esse motivo, é uma indicação
de vontade perversa e obstinada. Indica uma vontade que procura fugir
dos deveres óbvios palpáveis ou no mínimo, uma vontade mesquinha
que dá muito pouco trabalho à sua mente". (op. cit., p. 76,
7). Assim como em Kant, isso não quer dizer que todos estão
satisfeitos uns com os outros, na presença apenas de poucas
excessões patológicas. Pelo contrário, se o mal é o que só
poderá ser superado ao longo da história, e essa superação sendo
toda a história, o que se pode esperar é a insatisfação
generalizada em cada presente até o fim dos tempos. As pessoas
estão revoltadas, as condições não são as que o saber moral das
posições prescreve, etc. Essa revolta não é do indivíduo frente
à sociedade, como entre aquele que deseja seguir o que lhe é caro
enquanto a sociedade procura impor seus valores. Desde sempre a
substância do indivíduo é o seu povo "em uma fase do seu
desenvolvimento", assim "o indivíduo não cria o seu
conteúdo, ele é o que é, expressando tanto o conteúdo universal
quanto o seu próprio conteúdo", ou seja, a vida do sujeito é
um esforço contínuo para "estar em harmonia com sua
substância", ou "trazer a vontade exigida por seu povo
para a sua própria consciência, para articulação". (p. 77)
Ora, qualquer
articulação implica uma multiplicidade de elementos, é Hegel os
define do seguinte modo, tendo transformado a moralidade kantiana num
conceito concretizado historicamente na forma do Estado. A "Ideia",
o que está sendo realizado como totalidade, em termos de Moral
(Estado); e a paixão subjetiva, a "força que realiza, que
torna real". Ideia e paixão são respectivamente "a
urdidura" e "a trama" dessa "tapeçaria da
história do mundo" (p. 69), e ora constituem " a liberdade
moral do Estado", ora a vida do indivíduo que deve ser por
isso considerado "uma existência específica" e nunca
"um homem qualquer", conceito que não tem correlato
existencial possível. (p. 70) Ou seja, por isso que, como
elemento principal dos motivos da ação, não se trata da regra de
conduta escolhida como princípio, conforme o kantismo. Mas sim da
"paixão", que "é o aspecto subjetivo e formal da
energia, da vontade e da atividade". O homem que existe é
sempre essa pessoa aí, esse ser humano singular, sujeito de suas
paixões. Assim a paixão é o verdadeiro critério da subjetividade
de um homem, não o "caráter" como qualquer modo pelo qual
o indivíduo se conduz, mas como "singularidde de vontade e
inteligência", a conotação da individualidade só é
caráter se este abrange o que só a paixão comunica em termos de
união a um conteúdo, da "força ue age e dá impulso a
feitos...". O "conteúdo objetivo" da paixão, por
determinar, é colocado assim de um modo que, seja qual for, é o
critério passional da força que define "se minha convicção e
paixão são verdadeiras e firmes", isto é, se tem existência
real, embora o conteúdo da convicção e o objetivo da paixão
continuem sendo avaliados quando se trata de julgar a propósito. O
Estado bem constituído é aquele em que o interesse privado dos
cidadãos - ou seja, as paixões deles - estão em harmonia com os
interesses do Estado: "um Estado é vigoroso internamente quando
o interesse privado de seus cidadãos tem o mesmo interesse em comum
com o Estado, um encontrando gratificação e realização no outro",
o que Hegel considera "uma proposiçaõ importantíssima".
Na articulação dos
motivos da ação, a Ideia o que se designa a "energia"
interior da ação que a paixão realiza: "A Ideia é a energia
interior da ação, o Estado é a vida que existe externamente,
autenticamente moral. Ela é a união da vontade universal e
essencial com a vontade subjetiva, e como tal, ela é Moral".
(p. 88)
A articulação é
expressamente definida em termos aristotélicos da relação de ato e
potência. É a que se deve a terminologia da "energia",
mas também o que introduz a contradição na teoria da Moral
hegeliana. Até aqui não há que fazer diferença entre fixismo e
evolucionismo. O argumento é algo ambíguo, Hegel começando por
referenciar o organismo, como exemplo geral da relação de ato a
potência, em termos de espécie imutável como germe originário,
mas em seguida admitindo o "desenvolvimento também" como
"uma característica dos objetos naturais orgânicos". O
essencial porém sendo que entre organismo e espírito, só o segundo
é realmente passível de desenvolvimento como criação do novo, e,
do mesmo modo, "envolvendo um avanço em direção ao melhor, ao
mais perfeito." (p. 105).
Na exemplifiação
generalizada, "a existência, progresso, aparece como um avanço
a partir do imperfeito para o mais perfeito", porém o
imperfeito não é alteridade relativamente ao mais perfeito, "e
sim, como o que ao mesmo tempo contém o seu próprio oposto como
germe, o chamado perfeito, um impulso dentro de si mesmo". O
impulso é o que relaciona, pois, o primeiro como o possível ao
segundo como o real, sendo a relação mesma entre eles pensada por
Hegel em termos de um "tornar-se", um verdadeiro devir, que
então encontra sua expressão em Aristóteles: "Da mesma
maneira [que o germe ] pelo menos em pensamento, a possibilidade
aponta para algo que deverá tornar-se real - mais precisamente, a
dynamis aristotélica também é potência, poder e força."
Porém assim, ao contrário da igualdade simples como negação do
devir no ser, que Abbagnano atribui a Hegel como apenas repetição
do enunciado aristotélico, temos que notar como a terminologia
aristotélica está sendo interpretada: "Assim", diz Hegel,
"o imperfeito" - nomeadamente a dynamis aristotélica -
"sendo o oposo de si em si, é sua própria antítese que por um
lado existe mas, pelo outro, é anulado e dissolvido. Ele é o
impulso da vida espiritual em si, o anseio para romper o envoltório
da natureza, da sensualidade de sua alienação, e atingir a luz da
consciência, ou seja, do seu próprio eu". (108)
Ora, se assim é,
como pode subsistir o critério da Ideia na articulação passional
dos motivos da ação, de modo que resulta um sentido inabalável de
existência coerente de um dever como meu, de modo que negar ou
tergiversar seja atribuível como a falta e a perversão propriamente
ditas? Com efeito, o que está sendo colocado na categoria da
existência é o mutável, o que está em devir na acepção não
"aristotélica" - conforme a interpretação organicista
fixista - de transformação efetiva.
Nesse trecho com
efeito Hegel interliga as três partes de sua filosofia, a Lógica, a
Fenomenologia do Espírito e a Filosofia da História, como os três
referenciais da existência que é espírito, e que se escalonando
sempre segundo o princípio triádico do desenvolvimento, abrange a
natureza como momento.
Na Lógica essa
abrangência é definida no âmbito mais geral da tríade que define
a inteligibilidade em geral enquanto correlato da existência real,
correlação que se define como especulativa, superfície de
reflexão ideal. O espírito como o que é, primeiro apenas é,
depois sai de si e se torna natureza, e num terceiro momento retorna
a si mesmo pela realização sócio-histórica da liberdade. Na
Fenomenologia do Espírito trata-se pois do elo dessa realização
como a consciência subjetiva que progride até capacitar-se ao que
na filosofia da História está sendo apresentado como o Estado da
perfeita Liberdade, isto é, realização da Ideia (da liberdade).
Aquilo que na Fenomenologia do Espírito é a realização da
consciência apta a produzir o saber absoluto, como do Eu
"transcendental" - condição de possibilidade - da
objetividade. Em termos de História, porém, há uma relação com
as instituições estatais na qual Hegel estabeleceu um lugar
essencial para a religião, como o referencial da verdade de um povo.
Ficando assim algo indefinido se ele considera ou não que a lei do
Estado deva ser nominalmente a lei da Religião do povo desse Estado
- como a adoração a "Atena" pelo povo "ateniense",
uma vez que para ele sem dúvida ela o é implicitamente, pois o
Estado é um produto gerado pela sua religião, sendo ulterior a
esta, manifesta porém o seu espírito na forma de sua concepção do
que é verdade (Deus).
Mas assim, na
relação da filosofia da história com a teoria do Eu e a lógica
dialética, o que na História se atribui como inteligibilidade
factual não é já a sociologia da ação, condicionada por um
critério, digamos, ético, da sua verdade enquanto individual e
efetivamente refletindo um certo valor do indivíduo que sempre se
poderia entretanto reduzir a uma norma de conduta - generalizável
"eticamente" em nível de costume, universalizável
moralmente em nível de Estado, em todo caso posicional e nesse
sentido, absolutamente garantido e fixo. É, bem inversamente, o
embate das mudanças que devem atingir as expectativas
dessa garantia enquanto propriamente a moral, porquanto provenientes
do que se destina a anulá-las completamente nessa categoria mesma de
sua moralidade, sendo contudo a moralidade que irá se estabelecer em
seguida.
O progresso
histórico no rumo da realização perfeita da liberdade, conforme
Hegel, é propriamente um crime, porém resta a inferência nítida a
meu ver, de um juízo hegeliano plenamente viabilizado sobre a
criminalidade que distingue o "crime" moral do crime
imoral. O moral é aquele que é crime apenas como um modo de
expressar, porquanto o que faz, agindo contra leis vigentes, é
desfazer opressões sedimentadas na própria lei, ainda que no
caminho do progresso só o último estágio poderia corresponder a um
desfazimento assim sem por outro lado sedimentar ainda outras
opressões que ficam por se anular depois. O crime imoral é aquele
que não tem a ver com a História, sendo o escopo idiossincrático,
aquilo que vimos Hegel definir antes como uma vontade individual
perversa de fugir às obrigações. Ou seja, aqui não há tanto uma
contradição não dialética, pois a transgressão moral é um tipo,
e dos mais altos, de obrigação posicionada, enquanto o crime
factual, imoral, seria o contrário, a recusa da obrigação.
O critério dessa
distinção não pode porém servir à pura efetividade. Pois nesta o
que está ocorrendo é o conflito em si mesmo, do progresso com a
reação. Ele serve somente à efetividade enquanto a História mesma
acontecendo, mas a questão historiadora, como da definição real do
acontecimento, permanece.
A pergunta sobre se
o critério da imoralidade criminal pode ser distorcido - como num
filme recente designado, pelo que me lembro, "Educators",
em que alguns jovens se tornam ladrões vulgares, sem qualquer
relação com ativismo político efetivo, mas em cada domicílio
abastado que roubam deixam escrito a mensagem de que futuramente o
capitalismo irá se acabar - não parece poder ser respondida
negativamente. Ainda que se houvesse a ligação com um ativismo
determinado, o objetivo da organização poderia ser julgado segundo
o critério, na medida em que definiria para avaliação a a sua
noção de progresso, resta que a mensagem ao mesmo tempo cauciona um
definição do progresso como fim do capitalismo. A definição dos
jovens ladrões sendo meramente nominal, é óbvio que sua mensagem
de progresso não assegura qualquer vínculo com a ação real deles
que se limita a se locupletarem individualmente. Porém o problema da
efetividade reside justamente na espessura do discurso do progresso
histórico relativamente à ação transgressiva da moral vigente.
Não bastaria que eles estivessem, digamos, transferindo ganhos para
uma associação proletária, posto que a questão moral é se é ou
não o proletariado representado por essa associação efetiva, e
mesmo, se é ou não o proletariado em geral a verdadeiro realização
da Liberdade.
A solução
hegeliana em geral do progresso como novo critério moral,
definindo-se em nível de Estado, é apenas de princípio: "a
história do mundo apresenta as fases no desenvolvimento do princípio
cujo conteúdo é a consciência da liberdade." (p. 107) Porém
assim, contam apenas como "acidentes externos" a substância
do passado realmente aniquilado, os "antigos tesouros" das
civilizações há muito destruídas, esquecidas não importa o
imenso progresso de saber que tenham alcançado, de que nos restam
por vezes alguns vestígios. Ou aqueles progressos que fazendo-se
numa só estrutura ou esfera da cultura, conservaram-se, porém não
relacionados diretamente com a mudança política, estatal, que
define-se em nível de moralidade. A matéria historiadora é
irredutível a ambos.
Inicialmente a
matéria historiadora é restrita à vida dos Estados, enquanto,
sendo história, é a parte da existência em geral, em progresso,
mas restrita ao nível maior da realização da consciência na
sociedade. Maior, pois, sendo em que se elimina a disparidade de
indivíduo e povo, sujeito e sociedade, ao mesmo tempo que se elimina
qualque prejuízo de um deles pelo outro naquilo que verdadeiramente
são. O que na fenomenologia do espírito é do mesmo modo a
resolução do conflito filosófico de sujeito e objeto na realização
da ciência como do saber absoluto, subjetivado.
Em seguida, a
matéria historiadora se relaciona aos espíritos nacionais como
concreções dos Estados que progressivamente se encaminham e se
superam no rumo da realização máxima do Estado da perfeita
liberdade. Aqui podemos ver como as relações de Estado e Religião
são algo problemáticas em Hegel. Se o Estado perfeito realizará -
ou realiza, se for considerado já a "modernidade"
constitucional - a plenitude da capacitação a que se permitiu ter
chegado a, e como a, autoconsciência, o ser "si" do Eu
para ele mesmo, então segundo a fenomenologia do espírito, o que
ele realiza é o estágio científico, ulterior ao religioso, em
termos de figura da verdade na consciência.
Inversamente, na
introdução à filosofia da história, que estamos examinando, a
religião sendo a base, como origem do Estado, exprime sua verdade
como a do povo. Parece que independente de seus problemas com a
censura da época, Hegel pensa a interligação da religião com a
possibilidade do saber, mas, assim, a religião melhor seria a que
possibilitaria a emancipação do saber e sua legislação,
relativamente a si.
Com efeito,
naquilo que essa sucessão dos epíritos nacionais enquanto
momentos que tipificam estágios da mudança social definida como
progresso teleologicamente orientado, em paralelo às figuras
fenomenológicas da consciência , muda, de modo decisivo, a visão
fixista para a evolutiva, temos por um lado a transformação na
função do indivíduo. Até aqui vimos que ela se limitava a
conquistar o seu lugar no mundo e aí defender galhardamente a sua
posição, assim sendo definida como o "apossar-se de sua
existência material, tornando-a parte de seu caráter e de sua
capacidade..." (p. 125). Mas agora a posição conquistada é
ela mesma o problema da História enquanto a sucessão necessária
dos espíritos nacionais, ou seja, da moralidade em si mesma. E, por
outro lado, aquilo mesmo que nessa transformação da função moral
do indivíduo resulta, interligada como é à aporia da efetividade
que já vimos, em uma nova aporia que podemos designar como a do
caráter. Uma vez que a paixão já se deslocou do necessariamente
fixável ao mutável, no plano mesmo dos conteúdos.
Ora, o modo como
o deslocamento evolutivo opera a transformação da função do
indivíduo, implica um escalonamento entre eles. Não é só que o
sujeito deva ser visado, nesse contexto, ora como sujeito, ora como
objeto da história, mas sim que nessa oposição, as posições do
sujeito já não são redutíveis aos papeis dados na sociedade como
totalidade da cultura, mas transitam ao dualismo do destino, entre o
homem comum e o heroi. A função do heroi na transição da ordem
social vem a ser não apenas variável em relação a do homem comum,
como positivamente antitética e inconciliável.
Pode-se objetar que
o conflito é apenas de momento, destinado a demonstrar a
provisoriedade de toda antítese. Efetivamente, é essa a pedra de
toque do paradoxo da liberdade totalizada - como creio ser
pertinente designar a alma da filosofia de Hegel. O que está sendo
realizado é sempre unidade, ainda que o que esteja sendo
afirmado seja sempre a
diversidade do que a compõe, e
a liberdade
da plena expressão das partes seja o sentido
temporalizante/temporalizado
do todo, ao
invés de sua
definição idealista
puramente nominal
que Hegel critica exemplarmente na Fenomenologia do Espírito. Não
há, é claro, paradoxo algum na destinação funcional das partes ao
todo,
mas assim ninguém ousaria falar de "liberdade".
Esse
paradoxo é o elemento mesmo da existência do heroi. Este tem como
função desestabilizar e destruir a
fraternidade vigente, como a inteligibilidade prática sobre a qual
repousa a coesão do grupo social
que o homem comum integra, cuja
hora de ser ultrapassada
chegou pelo fato mesmo de ter
coalescido a esse
ponto da plenitude em que
uma sociedade engendra o seu heroi. Mas
se podemos conjecturar que o
melhor exemplo aqui, o que poderia estar subjacente à
projeção de Hegel, seria a relação de Jesus com o povo judeu,
ele também
não delineia o heroi
como o
homem comum da ordem coesiva
futura, que
ele mesmo institui
e representa contra a que
vigora como a que tão somente o homem comum pode conceber. A ordem
do heroi é de fato antitética
ao status quo vigente, mas é
a que será vigente como o
status quo de amanhã, e
por obra sua. Porém
o entusiasmo com que Hegel se lança à caracterização da
irredutibilida do heroi não
se limita ao detalhe do momento,
nem aí se anula. O heroi
hegeliano não parece de modo algum sentir-se inter pares,
ainda que de uma comunidade e
de um tempo virtuais.
Ao contrário de
ser simplesmente aceito, ele
só pode ser odiado ou amado, ele é "grande"
na acepção do sublime kantiano,
não apenas o oposto do pequeno, mas o que excede toda preconcepção
do tamanho na qualidade do
maior.
Assim
podemos compreender a nota de Hartman
a propósito da declaração de Hegel sobre "os
indivíduos históricos do mundo", aqueles que foram atrás dos
objetivos da história,
não apenas os do presente. Eles
podem
ter encontrado satisfação, porém não desejando ser felizes.
Hartman acrescenta que "eles desejavam ser grandes".
(p. 73)
A
satisfação aqui porém não é a como
a de
fins pessoais,
mas do seu objetivo
histórico. Uma proposição que Nietszche, o declarado inimigo de
Hegel, compartilhava plenamente, asseverando que não se
importava com a felicidade,
mas somente com a
sua obra. Hegel nisso
é bastante
prosaico, mantendo-se na
linha dos fatos. A propósito
dos herois, "toda
a sua vida era trabalho e problemas, todo o seu ser estava na sua
paixão. Um vez
atingido o objetivo, eles saem de suas cascas como carcaças vazias.
Morrem cedo, como Alexandre, são assassinados como César, levados
para Santa Helena, como Napoleão".
Resta
apenas a ironia de que
"esse fato terrível de não serem
felizes os homens históricos - pois apenas a vida privada em suas
diversas circuntâncias exteriores pode ser 'feliz'" -
poderá servir
de consolo aos que dele necessitem, invejosos incapazes de tolerar a
grandeza e eminência". (p. 80)
A
propósito, Hegel é até sarcástico, atingindo algo de jocoso
contra o conhecido mote de que ninguém é verdadeiramente grandioso
para o seu camareiro. É verdade, diz Hegel, porém
"não porque o primeiro não seja um heroi, mas porque o segundo
é um camareiro".
Este se torna pois,
o tipo do homem comum,
possivelmente invejoso
dos grandes. A psicologia do homem comum se expressa na profusão de
conselhos que não atingem nunca o mero fato de que o heroi não só
não precisa deles, como positivamente não pode utilizá-los, já
que seus objetivos não se
coadunam com nada do que os conselheiros podem imaginar. O heroi peca
por agir somente, assim sendo aparentemente irrefletido: "Por
isso homens assim poderão chegar a tratar outros interesses grandes,
ou até sagrados, sem muita reflexão - comportamento esse que
realmente os sujeita à repreensão moral. Uma personalidade tão
poderosa tem que pisar em muita flor inocente, esmagando muitas
coisas em seu caminho" (p.
81, 2)
Não obstante o que pode haver de criticável nessa asserção, seria
um erro ver nisso apenas uma espécie de preconceito
hegeliano - não obstante um traço de estilo seu realmente antecipar
algo do Realismo e Naturalismo, de Balzac a Zola.
Trata-se antes da crítica da
representação, o verdadeiro significado hegeliano da antítese, que
nesse texto que estamos examinando se expressa com rara nitidez.
A
importância histórica dessa exposição
é a meu ver inexcedível, a carta do Ego pensável na modernidade
ocidental, a revolução real
da filosofia após Kant. Com
efeito, a antítese que o heroi encarna transforma
a concepção da Ideia, e assim pode-se entender
também como transformação necessária da relação do homem com
Deus. Transformação de
que podemos já apreender o
alcance, se para entender assim precisamos por um instante suspender
a questão mesma
dessa relação,
personificada numa reprentação possível de Deus e do homem, e
retroceder até a possibilidade do pensável na Ideia.
Enquanto
apenas pudermos conceder
pensar na preminência da representação, ao
menos quanto a isso,
argumentando que em se
tratando de Deus não há o que postergar de qualquer maneira, o
resultado não deixa de ser possível como definição adequada da
Ideia conforme o que Hegel almeja instituir, mas assim só o
visaremos de um modo
paradoxal.
Hegel concede se expressar
nesses termos, de início: "Ao contemplar a história do mundo
devemos considerar o seu objetivo final", (p.
62) e é por isso que não
nos contentamos com torcer passionalmente por este ou aquele general.
Queremos efetivamente que os gregos vençam os bárbaros, porque este
é o objetivo da democracia, depois
nos interessamos pelo domínio macedônio, uma vez que o
possamos ver agora, após
ter sido apenas
o inimigo da Grécia
livre, ao contrário,
como "o governante sob cuja liderança os gregos subjugaram a
Ásia".
Mas
a explicação do objetivo é um capítulo da teologia hegeliana:
"Este objetivo final é aquilo que é determinado no mundo em
si. De Deus sabemos que é o mais perfeito. Ele pode controlar apenas
a si mesmo e ao que é como Ele. Deus e a natureza de sua vontade são
a mesma coisa; a isto chamamos, filosoficamente, a Ideia. Por isso
temos de contemplar a Ideia em geral, em sua manifestação como
espírito humano. Mais
precisamente, a ideia de liberdade humana."
Não
basta o trecho considerado
para ultrapassar esse
paradoxo do divino e do
humano quanto ao Espírito na História,
não obstante Hegel
especificar
aí
a diferença entre a forma da manifestação do Pensamento, a ideia
em si lógica; a forma alternativa, como natureza física;
e a forma na existência
concreta, o Espírito como o assume o Estado.
Mais à frente, por uma depuração do tema à filosofia
somente, é que
vemos em sua
plenitude a crítica hegeliana
da representação embutida
na diferenciação como o que
permite solver o paradoxo, ao menos numa tela em movimento na
temporalidade.
A
continuação da Ideia até sua "antítese infinita" (p.
72) é conceituada agora como
a irredutibilidade entre o que estou tratando por definição nominal
e sua realização num pensamento vivo e volitivo, tingido como é de
interesse e paixão. A
antítese da ideia na limitação semântica da representação
que é vazia embora tivesse sido a vida eterna de Deus, é
porém mais que a pragmática enquanto,
digamos, um plano consensual dos falantes a propósito da
pertinência, é o Ego, o
existencial ideativo que se tornou reflexivo.
O Ego é a negatividade
infinita do que coloca no outro lado de si como a ideia meramente
representada por ele.
Aqui
há um ponto obscuro na terminologia hegeliana porque a princípio,
Hegel
nega o "sentimento" ou emoção, como o elemento próprio
da moralidade (p. 59),
com base em que ninguém pode demonstrar a universalidade do seu
propósito emotivo a outro, que sempre pode retrucar: " não
sinto nada disso". Porém como vimos a "paixão"
em Hegel é o elemento
essencial da articulação da Ideia ao sistema dos motivos da ação
que efetivamente movem a história:
seja na forma da tradição em que a história se efetiva num
presente compreensível das
ações comuns;
ou
na forma da ruptura em que a história se faz stricto
sensu por meio da ação
do heroi. E
a continuidade da ideia na antítese infinita se faz propriamaente
por meio da ação, pelo fato dela ser o substrato inteligível do
que o homem faz: "A ideia tem dentro de si a determinação de
sua auto-consciência de atividade". (p. 72)
Em
todo caso, deixando
de lado a espinhosa tarefa de entender a irredutibilidae
entre sentimento e paixão, é
o ego o elemento em que existe a história,
tanto por ser reflexivo como por ser ativamente impulsionado por sua
reflexão ideativa. Reflexão
aqui não no sentido de
um valor determinado,
como o do homem comum, mas na
acepção generalizada da
ação orientada por um objetivo ideal.
Para o homem comum o heroi
que não ouve seus conselhos está sendo estouvado e irrefletido
nessa acepção de alguém que age por mero impulso
egoísta, mas está evidente
que para Hegel, ao contrário, é ele quem age mais refletidamente
nesse sentido de mover-se unicamente por seu ideal, seu objetivo.
Seja como for não é
realmente possível elidir o caráter chocante que Hegel almeja
imprimir na caracterização do heroi enquanto irredutível à
moralidade vigente.
E
a história é realização
de Deus como a síntese que vem a ser,
porém,
nesse trecho estritamente
filosófico,
não tangenciada como o Estado, mas sim
definida apenas como a metafísica da finitude
- e eis
a transformação capital.
O
Ego
também é designada
"o Absoluto em si tornado finito",
não obstante sua negatividade ou caráter antitético ter se
designado infinito. O Absoluto é infinito,
enquanto o que a metafísica
apreende,
não apenas como ideia
representável independente do Ego que a reflete verdadeiramente como
atividade sua e o que tem sentido somente nesta e por esta, como o
que aqui poderíamos lembrar, o artista modernista que zomba dos que
fazem poemas consultando
dicionários. Nem somente o
Ego, que assim, confrontado ao que ele nega como a representação
vazia, torna-se visto metafisicamente como o lado finito da
duplicidade. A metafísica opera a síntese porque é nela que se
apreende a duplicidade da ideia em si e do Ego para si:
" Compreender a perfeita união dessa oposiçaõ é a profunda
tarefa da metafísica.", Assim a metafísica é o que trasforma
a filosofia e a teologia, solvendo o paradoxo entre Deus e Homem: "
O Divino, e por isso a religião, existe para o Ego e assim, também
o mundo em geral, ou seja, a totalidade universal da existência
finita existe para o Ego. O Ego nessa relação
é em si a sua própria finitude e se compreende como finito."
Mas se assim poderíamos
compreender, tudo é consciência, a mente de Deus e a mente do
homem, como um Spinoza que tivesse ganho a noção subjetividade, de
fato não é o que Hegel define aqui, e sim o correlato não de todo
consciente que é o da paixão,
o "desejo"
tratando-se aqui do elemento da História.
(p. 73)
O Ego só age visando sua salvação, particularmente.
A
ação é pois o "elo" entre a ideia e o mundo, e vemos que
o elo solve também algo da irredutibilidade do homem comum e do
heroi. Ambos estão do mesmo modo agindo só por sua salvação, sua
piedade, etc., mas para o homem comum ela é a conservação do
conhecido, e para o heroi é
a transgressão revolucionária.
Segue-se
que aquilo que designamos como o paradoxo da liberdade
totalizada
apenas se constroi assim,
inscrevendo-se pelo meio
termo do Ego como da ação, abstraível entre a ideia (interior)
e o mundo (exterior),
para depois ser aprofundado na caracterização
do Estado como totalidade. Assim
Hegel conclui o que designei a carta do Ego
pensável como transformação
histórica da modernidade: "A universalidade, ao ser
externalizada, faz-ze particular ao mesmo tempo" - se é a
ação, a mola da particularidade passional, o elemento da finitude
em si mesmo, "o que leva a Ideia de sua imanência para o seu
estado exterior". (74)
Na
antítese o ultrapassado, em
todo caso, é
designado a
"representação",
o que
desde a
Fenomenologia assoma
pejorativamente, como
um primeiro momento da encarnação
da ideia. Aquele
em que o movimento para si do sujeito pensante se reduz ao mais
pobre e básico elementar, a aparência em que tudo é redutível a
um "isto"
para um "visar".
Assim
o nexo da Fenomenologia do
Espírito com a Filosofia da História
é tal que a interpretação desta última em termos de realização
de Deus como da Ideia da Liberdade neste mundo, não
pode porém ser vista como a mera presentificação de um destino
pré-fixado da espécie humana.
A
paixão segundo Hegel é de fato "uma coisa quase animalesca",
como "a unidade absoluta do caráter individual e da proposição
universal", assim "o
espírito em sua particularidade subjetiva aqui se torna identificado
com a Ideia." (p. 81)
Porém o que está movendo a
realidade sendo a ação, como
o inteligível para si e não
apenas em si, não obstante
ser "desejo" e paixão, não de todo consciência, é
"racional" (p. 73).
A
racionalidade torna-se, já não o que é apenas representável
segundo a ordem lógica.
Mas sim o reflexivo segundo a
ordem ontológica em que submergem agora a particularidade subjetiva
e a história humana.
Podemos
assim conjecturar a propósito da irredutibilidade de direito, entre
a realização da Razão na história e a mera efetivação de um
estado de coisas biologicamente determinado. Hoje sabemos algo sobre
o comportamento ordenado e até socializado, animal. A galinha por
exemplo, impõe uma hierarquia no
terreiro por
ordem de bicadas, a mais forte obtendo proeminência,
como se assegurasse um respeito realmente devido
pela liderança. Estudos
de grupos de galinhas mostraram que
num galinheiro, a ordem é
bem definida e estabilizada: A
pode bicar B, que pode bicar C, sucessivamente. Um
respeito poderia ser predicado porque a hierarquia é fixada, não
apenas uma questão de circunstância que se veria burlada assim que
a oportunidade se apresentassse. A
injeção de hormônio masculino numa galinha que estava na posição
baixa da hierarquia, fez
efetivamente que ela se tornasse
agressiva e mudasse
sua posição, porém essa
hierarquia consolidada mostrou-se persistente mesmo muito tempo
depois que o efeito do hormônio já havia cessado. (Kretch
e Crutchfiel, op. cit. p. 332, v. 1)
Hegel
permite contudo,
assim ultrapassar esse limite
indiscernível do respeito, entre o animal e humano.
A critica da representação,
crítica que é como o
elemento próprio da negatividade em que nos colocamos ao
nos discernir como irredutíveis aos objetos que
visamos
ou produzimos, já que eles estão aí não por si mesmos,
mas só
devido a nossa atividade e
necessidade de satisfação, é
a ultrapassagem em si mesma, na História impulsionada pela recusa da
conformidade do Ego a tudo o
que ele não fez. A liberdade
é pois não um tipo de hierarquia como qualquer predisposição
simbolizável - símbolo aqui no sentido lacaniano da álgebra
ou da lógica matemática.
Pois também o matemático
não poderá formalizar o seu próprio ato de formalização em se
produzindo. O que realizamos
na história, o que é
possível assim abstrair como a Razão enquanto objetivo final,
é pois o contrário da predisposição biologicamente
apreensível, a contestação da hierarquia fora de nós, sobre nós,
o que não se encontra na animalidade.
Mas
a partir daqui o nosso segundo tema, referente à subjetividade em
Hegel, só pode se desenvolver abarcando em si o terceiro, sobre a
inteligibilidade
metodológica do percurso
hegeliano. Isso porque é na
Fenomenologia do Espírito que o
desejo vem a ser de fato concentuado
como componente da
teoria da consciência subjetiva,
permitindo assim algum esclarecimento a propósito do que até esse
ponto restou ambíguo e confuso, a saber, o intervalo entre a
ação e a
reflexão
na passionalidade dos agentes que
movem a História.
///
Para
o próprio Hegel, como vimos, há um sentido pelo qual ação e
reflexão se excluem mutuamente. Esse é o sentido usual na
psicologia de hoje. Piagetianos
costumam asseverar que a definição de inteligência em Piaget é o
grau de ajuste entre o que fazemos e o que sabemos que fazemos.
Mas nesse sentido
psicológico atual,
o saber como o refletido é
o mesmo que representação,
o oposto do agir próprio, assim como de qualquer objeto da reflexão.
O
objeto do saber, mesmo que
atinente ao ser de quem sabe, é o
representado. Isso interfere
com o conceito de subjetividade, certamente,
mas apenas na medida
em que se puder demonstrar
haver um escalonamento variável, ao invés de um
modo único, da possibilidade
do saber reflexivo, tal que um intervalo possa ser definido sem
dúvida para estados de subdesenvolvimento e desenvolvimento
num critério de tudo ou nada, assim as gradações sendo elas mesmas
quantificadas.
Nessa
acepção, a representação
como a mera captação objetiva por um sujeito perceptivo
não integra qualquer
teoria das ideias, ao contrário do vocabulário cartesiano, mas
também se opõe à
diretiva das coisas elas mesmas.
A margem variável situada, que qualifica o ser mesmo do sujeito
enquanto possibilidade de objetivação das coisas, é o
determinante. Mesmo assim,
enquanto o vocabulário se limita ao termo "representação",
a margem variável do sujeito pode ser num outro sentido coordenada
às coisas mesmas, já que
"sujeito" aí se limita à possibilidade de
"representá-las".
Podemos
afirmar que Hegel é o pioneiro teórico desse escalonamento
que caracteriza praticamente toda a psicologia do século XX,
e do qual já vimos as consequências sociais e políticas, uma vez
que o sub-desenvolvimento é estado que define para todos os
objetivos médicos,
sociológicos e jurídicos, o
estatuto intelectivo comum
da criança, do primitivo e do louco.
Porém
isso não implicando que a ciência mesma considere-se relacionada a
esse patamar político
do "desenvolvimento".
Pelo contrário, a psicologia
pode protestar, contra a
caracterização de um discurso da ciência,
que é somente a pretensão de ligar a
uma teoria social algo bem
irredutível, como é uma
teoria da personalidade relativamente à da representação, que
se poderia relacioná-la a questão política do homem.
O
fundamento desse protesto é nítido. "Representação" se
limita à
captação perceptiva de um objeto por um sujeito,
que por isso se habilita apenas para dizer o
que o objeto resulta como afetação do
seu organismo. Ele
pode nem mesmo saber para que isso serve, ou que nome tem. O
interesse da pesquisa é saber como se resolve
o dado. Muito mais
tem sido descoberto além da variação de modos específicos de
relação com as coisas,
entre a criança e o adulto. Há
discrepâncias em situações projetadas, que informam sobre leis
perceptivas oriundas não só da
situação física do objeto,
como em figuras que formam
ilusões persistentes, as
quais definem por exemplo a escala do que podemos perceber. Mas
também leis
relativas a disposição
orgânica, como já vimos a
localização dos corpúsculos do
tato, que não são realmente
uniformes, porém situados em
lugares específicos na pele,
pontos receptivos que variam
com o tempo mas mantendo uma
certa regularidade na sua distribuição,
e ligando-se entre si.
Repetindo
o que já examinamos antes, resultados
perceptivos bastante inesperados e surpreendentes já estão
arrolados em manuais de psicologia.
O escalonamento por fases
já não é o limite da
heterogeneidade, com fatores de personalidade pessoal
e fatores culturais
mostrando-se igualmente determinantes para certos quesitos
básicos, porém não
chegando a quebrar o pressuposto
do desenvolvimento
escalonado.
Vemos
que há uma ambiguidade no
discurso da ciência, mesmo
que seu protesto de
neutralidade seja válido,
pois a margem de variação
do desenvolvimento é
teleologicamente orientada. Ao mesmo tempo há independência das
fases e subordinação a um pressuposto da normalidade objetiva. Mas
esse é o círculo em que a ciência se move, uma vez que o
pressuposto é ela mesma,
enquanto a forma
decisiva quanto ao que é ou não "saber".
Resta
que a disposição de qual é essa forma, além de critérios
subordinados a possíveis
constantes histórico-sociais, é discursiva e não propriamente
"científica"
na qualidade do que pode ser falseado por uma prova em contrário da
parte dos fatos. Ao menos até
onde o próprio conceito de "representação" implica a
colocação entre parêntesis da coisa como tal.
Piaget,
um dos principais artífices da estabilização da ciência do
desenvolvimento na psicologia, creditou
o mérito do predecessor ao seu
conceito de inteligência
ativa de Marx. Segundo esse
conceito, a representação escalona-se por fases em
função da variação de
possibilidades ativas que
desencadeiam para o sujeito em sua prática, possibilidades de
captação do objeto. E
essa relação prática é um estágio técnico que socialmente
define a categoria marxiana
de "produção"
como regime do trabalho social.
O estágio técnico que se
traduz em práticas coordenadas, define
a inteligência como possibilidade de performances, não o contrário.
Piaget
devia estar certo quanto às suas próprias influências, não
obstante hoje em dia haver questionamentos de marxistas quanto ao
"que"
realmente o liga a Marx. Essa
objeção não me parece justa quanto a uma teoria da inteligência,
como da representação, porém ela conota algo com que estamos a
braços aqui. Mas a
elucidação do que se trata
relaciona-se melhor a um exame da
Fenomenologia do Espírito,
como a origem histórica
autêntica da epistemologia do desenvolvimento.
Assim,
se é por uma teoria do desenvolvimento psicossocial que o
conceito de inteligência
ativa se propaga como conceito de Marx a Piaget, a
centralidade da classe na visão marxista não explica, mas é
explicada, pelo conceito, que
o laboratório piagetiano trouxe
à observação testável de modo a definir as estruturas unicamente
cognitivas de cada fase da inteligência.
A
opressão de classe
- e não haverá opressão quando não houve classe -
é conforme |Marx um
estágio da inteligência, como da técnica, ambas formando os dois
lados articuladores da "produção".
Assim, mesmo que quanto a
esta,
à Althusser,
se resuma numa combinatória dos meios, do proprietário deles e do
trabalhador.
Ora,
se a inteligência se torna escalonada em fases pela primeira vez na
origem hegeliana, uma inversão dos termos
tal que a representação não é o correlato
final da teoria, em vez de contrastante,
se torna altamente
esclarecedora do núcleo duradouro do discurso científico da
modernidade. Nesse
núcleo, como exemplarmente na Fenomenologia do Espírito, não
é dissociável o psíquico e o social, não obstante tratar-se de
uma teoria do sujeito ao
invés de sociologia. O
objetivismo de Marx e o estritamente observável de Piaget apenas
camuflam o que permanece na
gênese, a qual se expressa melhor numa filosofia da história.
A "representação" é uma política.
Em
se tratando da teoria do sujeito em Hegel, a matéria da
Fenomenologia do Espírito, a expressão "filosofia da história"
não deve se entender na acepção de uma filosofia aplicada. A
história do sujeito é
a da própria filosofia, interligável
ao regime político,
como se interliga o
possível ao que ele possibilita.
Hegel
antecipa aí o alcance que
Heidegger reclamou para a
sua categoria do historial, o
critério forte de
época,
subjacente contudo à
História do Ser como da
metafísica. Mas
desse modo Heidegger ilumina a bifurcação que realmente poderia ser
requisitada entre dois
conceitos de inteligência bem irredutíveis,
como o dele e Hegel por um lado, e o de Piaget e Marx, por outro. Os
primeiros delimitando-a pela filosofia, os segundos pelas
possibilidades da técnica, como num hiato intransponível que é
aquilo que a inteligência ativa enquanto conceito propriamente
denuncia. A saber, a redução
intelectualista da mente, a ideologia em pessoa, o "eu"
substancializado, etc.
Não
se trata de abstrair o principal, mas sim notar
que, quanto a ele, é o que está em questão,
para lá do mero pressuposto e convencionado. Podendo
bem ser que se trate da "ideologia"
antes que de "inteligência".
Se
há um fundamento em nível de discurso, ei-lo. O
que o dogma de que a técnica precede a essência,
assim como a existência, encerra
de
irredutível a um fato, dotando-se de valor, é
a crítica ideológica a vários substratos do subdesenvolvimento,
entre os quais está a opressão social, mas também aí cabendo a
alienação do sujeito. Mesmo que a
alienação fosse pela
crença na subjetividade substancial
antes que por
sua negação extrínseca.
O
sujeito pois, esse denunciado como tal como a fantasia de um
intelecto agente ab eterno
e individualizado, é porém
o componente indeslocável de
toda compreensão
estruturante da modernidade
enquanto histórica - isto
é, não mítica.
Em um mundo em processo, ao
invés de num tempo cíclico dos tipos imutáveis.
A
transformação do Sujeito, na qual ele vem a ser pensável para
efeitos de teoria, é feita
pois na Fenomenologia do Espírito como a sua inserção na história.
Aí originando-se a
base comum da inteligência escalonada, base que em Heidegger -
após Nietzsche - se inverteu
na distopia, não pôde pois
o sujeito pensável ter
resultado
apenas de ter-se apresentado
à representação a categoria das novidades sucessivas no tempo dos
relógios.
A
crítica de Hegel à representação esclarece pois,
tudo o que desde Marx tem-se
objetivado como propriamente
"representação". O que permitiu a mudança de sentido do
termo, parece ter sido a eliminação cabal,
levada a termo por Hegel, do
que estava implicado na teoria clássica do intelecto como a
representação puramente
ideativa. A função da "Ideia" em Hegel não é pois o
certificado de sua pertença ao mundo clássico.
Mas qual é ela? Ressalta a singularidade que já sublinhamos, pela
qual entender a teoria do sujeito nascente em Hegel é
intrinsecamente relacionado ao tema de sua metodologia.
E mais uma vez, constatamos que o substrato na origem persiste como o
modo de operação de tudo que sucede. A "Ideia" em Hegel é
a história em movimento, "uma" ideia, a Liberdade - então
o sentido de toda crítica posterior à ideologia, de modo porém que
o fundo distópico se depreende, como a sombra da teleologia, o
discurso não só da ciência, mas de toda teoria possível
do desenvolvimento.
Até aqui constatamos, pois, que não houve na, e como a,
modernidade, História e sujeito não tributários de um
desenvolvimentismo. O
sintoma, agora: mesmo o enunciado da sombra, como da distopia, não o
elide.
O
ponto alto na corrente
dos acontecimentos que tornaram oportuno o encadeamento de Nietzsche
a Heidegger, reversivo do
sentido ascendente do desenvolvimentismo,
poderia ser expresso na conferência de Husserl sobre "a crise
da humanidade europeia",
pronunciamento de uma era traumática, na decorrência da segunda
guerra mundial marcada pelo holocausto
genocida, decorrente do cego
furor nazista, assim como da
ameaça de escravização de imensos contingentes da humanidade
(Kelkel e Schérer, São Paulo, L isboa, Edições 70, s.d., p.;
114).
Mas
ali,
e independente de Husserl ser ele mesmo vitalmente interessado como
judeu perseguido, o que se
expressa é a negação de
qualquer caráter essencial
do destino desta
crise: "podemos
compreende-la e penetra-la
com o olhar se a colocarmos sobre o fundo
da teleologia da história europeia
que a filosofia permita descobrir".
Não
é destituído de interesse a consideração
de Husserl pela qual,
se algo como crise se declina, o importante é saber o que a
determina, de modo nenhum significando aquilo contra que nada se
pudesse
fazer. Porém o oportunismo do diagnóstico de
Husserl é evidente, quanto
ao "caráter inessencial da presente crise",
como o que ele quer designar
óbvio a qualquer tomada de
consciência do "conceito de Europa". Se
é a filosofia o berço do mundo europeu que assim "nasceu de
ideia da razão, a saber, do espírito da filosofia",
torna-se consecutivo aos fatos apenas
"fazer aparecer aí a teleologia histórica que ordena os
objetivos infinitos da razão",
para reencontrar o êxito: "a
Europa renascerá do espírito, graças a um heroísmo da razão que
ultrapassará definitivamente o naturalismo".
Heroismo desse modo orientado, ele se faz combate ao único perigo
da lassidão. O denodo todo
se resume à defesa
do racionalismo,
metonímia
de qualquer
Razão possível, como defesa da
própria Europa contra o
"ódio ao espírito e a barbárie".
Heidegger
só fez corrigir o Husserl
dessa
conferência num ponto, em
sua própria conferência
sobre "O fim da filosofia e a tarefa do pensamento". Não
consistindo de modo algum a correção no protesto contra a grosseira
distorção dos fatos, como
qualquer pessoa minimanente informada poderia fazer, todos sabendo
bem que não há tradicionalismo que ultrapasse o nazismo em
radicalidade, e o biógrafo de Einstein poderia decumentar o quanto
isso interfere com a ciência na instituição totalitária, com
o pronunciamento do reitor
banindo a ciência cosmopolita pelo imperativo da ciência xenófoba
militante. (Clark, R. W.
Einstein, the life and times, New York, Avon books, s.d.).
Um
cotejo da conferência de Heidegger com
a de Husserl mostraria apenas a alteração
pela qual a ciência
naturalista, sendo europeia,
é a criação da filosofia.
Mas
o espírito profético e
terapêutico é
o mesmo, que
reconheceríamos como o acento que Nietzsche impôs à filosofia
transcendental após o seu
ocaso positivista, renascendo como "a Fênix de uma nova
interioridade viva" a que alude Husserl
- expressão bem estranha à origem sóbria do
kantismo. Heidegger
conserva pois de Husserl, e devemos lembrar que ele o atribuiu
expressamente a Nietzsche, não
só a atribuição ao cientificismo a culpa pelo nazismo, como também
a teleologia
do conhecimento, o Armagedon,
mesmo já
após as grandes guerras que
encerravam o significado da crise, sendo
enunciado como a batalha contra a
incredulidade.
A salvação da
Europa é mais que a do
presente mundo inteiramente
sob o jugo
do naturalismo científico, é
a do futuro planetário.
Não
se compreende nessa conversão apocalíptica do transcendental
que promete o inferno ao antípoda positivista,
a oclusão do fato capital,
para efeitos de prédica tórrida,
e por mais que seja o que está sendo apontado como a Carta
Roubada
porém num quadro de entrada
assinalada. A Europa que combate contra a barbárie não combate
senão contra si mesma, na figura do naturalismo científico,
e nenhum dentre esses
personagens pretende que assim não seja, nenhum deles fazendo como
se a cientificidade positiva
não fosse fruto europeu.
Um
dilaceramento assim, que apenas traduz os
acontecimentos
reais
da destruição do
continente, na
guerra em que um dos lados o
fazia de bom grado se com ele ficasse garantida a destruição do
outro lado, e a construção
do muro de Berlim que só há
pouco foi derrubado porém
não para contentamento dos objetivos contrários ao domínio
- da técnica da ideologia ou
da "esquizofrenia"
midiática? -
sobre o homem, é
notável que tenha sido tão simplesmente acomodado sob a definição
de estar acontecendo entre ciência e cultura,
para efeitos da defesa desta última, estereotipada no
"tradicionalizar"
a que Husserl pretendera
reduzir todo o sentido
da cultura,
enquanto ela mesma histórica. (op. cit. p. 112)
Alguns
trechos dessas considerações de Husserl na Origem da
Geometria poderiam ser
comentários introdutórios a um estudo sobre a humanística de
Hegel: "compreender a
geometria e um facto de cultura dado em geral é já estar consciente
de sua historicidade, ainda que de maneira 'implícita'". (p.
111) Eis uma verdade de
locução "completamente universal", isto é, quer se trate
da "baixa cultura relativa às necessidades vitais, ou da
cultura mais elevada (ciência, Estado, Igreja, organização
econômica, etc.)".
A historicidade consistindo em que "cada explicitação" ao
mesmo tempo põe em evidência um fato histórico, e é um fato
histórico em si, pois decorre de que "em toda a compreensão
simples deste
fato como fato de experiência,
há já uma 'consciência solidária' de que ele é uma formação
nascida de um formar humano". O
enunciado que poderia ser
atribuído a Hegel ele mesmo
vem em seguida: "o conjunto do presente
da cultura, compreendido como totalidade, 'implica' o conjunto do
passado da cultura numa universalidade indeterminada, mas
estruturalmente determinada".
Porém
não creio que tenha sido
a intenção de Hegel seccionar a
inteligência de tal modo que a continuidade histórica, pela qual
cada passado se faz,
em nosso presente, ele mesmo um presente de cultura
cuja continuidade está
implicada em nosso hoje, possa
ser como propõe Husserl apenas "uma unidade da
tradicionalização até o nosso presente
e que, enquanto se encontra ele mesmo na permanência do decorrer de
uma vida, é um tradicionalizar".
Ou seja, uma determinação
estrutural apenas esclarecedora de "realidades facto-concretas"
implicadas, de modo que a
ciência positiva fosse o avesso e não a continuidade da trama da
cultura pelo lado certo.
A
egologia de Husserl contrasta do mesmo modo com o Sujeito pensável
em Hegel, por
isso que toda ela poderia se
resumir como uma
representação hipostasiada.
Igual a
um Carnap que houvesse esquecido o mundo, o
panlogismo a que Husserl reduz tudo
que se configura "mundo",
a ponto de se
o poder aniquilar sem
prejuízo do inteligível (p.
84), conta com o fato de se
poder operar com base numa unidade do ato que visa
intencionalmente: primeiro
a si, depois aos outros egos, e nessa realidade intersubjetiva, um
mundo objetivo comum a todos.
(p. 101) Tudo
é redutível a um objeto, 'pois a objetividade lógica é eo ipso
também objetividade no sentido da intersubjetividade", (p. 100)
de modo que quanto ao homem,
pode ser "este único sujeito humano" a que Husserl designa
o "objeto intersubjetivo" (p. 99).
A
única coisa a corrigir nesse
homem objeto, pelo
conhecimento fenomenológico à Husserl, é
sua impressão de que se constituiria assim a si mesmo independente
da intersubjetividade que lhe fabrica um "corpo
próprio"
sujeito ao olhar alheio. A
lição de que "toda objetividade apreendida, seja ela qual for,
requer uma referência à apreensão de uma pluralidade
de sujeitos em comunicação".
A
origem objetiva
parece subjetiva, mas é a intersubjetividade, que porém, como
aquilo que parece, só fornece o
de que provém, a
objetividade visável do eidos
inato à consciência, ela mesma toda razão e esse eidos.
É
por isso que um observador arguto como R. Gorman
sugeriu que as duas partes da filosofia de Husserl, a demonstração
eidética transcendental em que consiste propriamente sua
fenomenologia, e a
teorização do "mundo
da vida", o Lebenswelt
historicamente situado, são um contraste absoluto em que a segunda
tem que destruir
a outra. ("A
visão dual, Rio de Janeiro, Zahar, 1979, p. 40)
Como Husserl nunca admitiu um
colapso assim, Gorman conclui que a única possibilidade é sugerir
que para ele a análise do Lebenswelt é apenas propedêutica de uma
fenomenologia da consciência transcendental.
A
oportunidade dessa colocação a uma introdução da Fenomenologia de
Hegel é segundo creio grande, já
que assinala o contraste essencial ao que se poderia creditar a ela,
e nem só por informação já
deformada pela terminologia de Husserl. O
que Hegel desenvolve na sua Fenomenologia do Espírito poderia ser
acusado de tudo, menos de um dilaceramento como
o que decorre da, ou se expressa na, se
vindo de alhures,
fenomenologia de Husserl.
Não
há na formação hegeliana
da auto-consciência,
enquanto necessariamente transitando
pela estação da consciência do outro, qualquer
redução possível da consciência de
si a um visar que seria o de um "si" mesmo.
A categoria que informa o acontecimento "outro" é o
desejo, o âmbito do político
não é reduzido pela placidez da tradição que apenas teria que se
ver com a atribuição de papeis dados e
apreensíveis. A
dialética de Hegel,
elemento que não compõe o pensamento "transcendental" do
novo kantismo emergente de Nietzsche em diante,
não é algo = x primeiro
a que um composto segundo
possa ser reduzido. É
o referencial da pluralidade em
que o pensamento consiste.
A
crítica de Nietzsche a Hegel, como hoje tem sido apresentada desde
Deleuze (Nietzsche e a filosofia,
Rio de Janeiro, Editora Rio, 1976)
incide sobre a dialética como um reducionismo da pluralidade,
designada como diferença,
pela oposição ou antítese. Pode
ser que, não obstante o contraste que Deleuze afirma entre sua
interpretação de Nietzsche e a de Heidegger, este
seja nietzschiano nisso. Porém, como espero mostrar oportunamente,
não parece que o pars construens
do Nietzsche heideggeriano ou
deleuziano tenha escapado
realmente ao que com tanta veemência condenou.
E se essa frente pode ser crítica também de Husserl, neste o
dilaceramento expressa o movimento antitético, carente do "conceito"
na síntese, isto é, em si mesmo incompleto. Todos
estes referenciais descuram pois, o essencial como a interveniência
do momentum na
caracterização da pluralidade. São tributários do kantismo
enquanto enunciado do passado
puro, "camada" e
não devir.
Mas
assim a questão condutora da interpretação
de Hegel poderia ser o conceito,
na qualidade de síntese correlata à completude real do movimento do
espírito. Se fosse
totalização,
como sugerem
as interpretações
tradicionalistas da Filosofia da História hegeliana, isto é,
justamente o contrário da heterogeneidade
de que o conceito afirma apenas a relação possível,
como poderia ser o que na
Fenomenologia do Espírito é sem dúvida
totalidade?
Apenas a consciência mais
rica de
conteúdo, podendo
agora abarcar toda
pluralidade do que
coexiste, bem ao contrário da destruição de qualquer das partes
como almejava antes cada momentum incompleto
como ele mesmo parte.
Resta
a questão do pensável fora da relação.
Seria mesmo que Hegel almejou
construir o seu sistema
sem qualquer crítica da hierarquia categorial da substância,
a
qual sem dúvida Kant preservou,
e como desde a "linguistic
turn" do século XX,
a fascinante solidez única do signo?
Ao
menos quanto ao meu interesse por Hegel, ele reside na possibilidade
de que tenha realmente provisto viabilidade
ao pensamento por relações,
de modo que as tematizações subsequentes, como a de Nietzsche
que já
vimos contudo frustrar-se
totalmente nesse declarado propósito,
tenham em Hegel
uma base incontornável.
Se o pudermos demonstrar, o sintoma teleológico
do imperialismo Ocidental,
que captamos aqui como a persistência do aristotelismo na episteme
evolucionista, deve exibir
uma singularidade em Hegel, de modo que o sintoma da
"modernidade" se
constitui pelo recalque dessa
singularidade mesma.
Na
Fenomenologia do Espírito de
Hegel começa-se pois, pela crítica da representação
num sentido que podemos conceber correlato à teoria clássica do
intelecto racionalista.
Mas o sentido das figuras da consciência que se sucedem naquilo que
aqui estamos considerando explicitamente uma formação do ponto de
vista da gênese - ao contrário de "camadas"
como defende a sincronia
radical desde
Husserl - tem
sua consistência em torno do
desejo determinante do
valor ali onde a
representação só poderia instalar
o fato.
A
consciência, quando transita do
seu primeiro momento, a
representação,
ao outro momento da pioneira
depuração do seu "quem"
- o
Selbst (eu), ele mesmo como
sujeito que representa e que se descobre
então irredutível à
própria representação
- não é a aptidão a um
novo objeto, ou ao apreender de sua intercessão, digamos, ativa a
este novo objeto como um outro sujeito
que o afeta de algum modo.
Já
houve a ultrapassagem propriamente
hegeliana do limite,
quanto à capacidade da
consciência pôr
algo.
A ultrapassagem do objeto à
consciência, e o que a auto-consciência (selbstbewusstsein)
entende agora é que o outro
sujeito, ao contrário de
qualquer objeto, é também
auto-consciência.
Ora,
a possibilidade desse trânsito não é uma dialética oca, de modo
que apenas um determinismo da
mania negadora é requisitado
para que se invente alguma coisa que contraste
com o anterior. É
preciso apreender o "visar" hegeliano, como ele mesmo, na
origem, não a intencionalidade da coisa, "um"
possivelmente anteriorizável por assim expressar. Mas
o sentido da partícula verbal,
o "isto",
correlato do visar. A pluralidade não
possivelmente opositiva é o significado do "isto", quando
seu sentido é a generalidade de qualquer coisa possível, e não a
coisa=x que é esta em vez daquela.
O "isto" indefinido
primeiro jamais sonhou com um "isto" demonstrativo
definível, e é por isso que
para ele o sujeito não pode ser um "eu", mas só um "este"
igualmente indefinido.
O
correlato do "isto" para o "este" é pois a
pluralidade infixável das coisas que se sucedem na designação de
um visar da hiância como o
de um olho que passeia.
É uma árvore, mas agora já
é uma casa, é sempre outro objeto, o exemplar aqui sendo a
alternância do "agora" entre o dia e a noite (agora é
dia, agora é noite, mas já
novamente é dia, e é de novo noite, etc.).
Antes
da autoconsciência
plena, ocorre o deslocamento
do
simples "este"
qualquer
que visa o transcorrer do isto,
à consciência de algo como tal.
Nessa
transição ao segundo aporte
da objetividade simples, o
fator interveniente é a percepção,
onde a consciência já
concebe cada coisa
independente da outra em sua especificidade, mas assim nascendo, com
esta
delimitação do "uno",
também a oposição do "outro",
como a diferença recíproca de duas coisas independentes
determinadas.
Ora,
não reside aqui a gênese dialética do pensamento hegeliano. Ao
contrário da posição deleuziana a propósito, Hegel
se pronuncia claramente em seu prefácio à Fenomenologia
do Espírito,
e o curioso é que se poderia utilizar
proposições deleuzianas,
supostamente críticas da
dialética de Hegel, como comentário do que este mesmo sublinha
ali não ser o caso do seu conceito. Assim,
por exemplo: "A oposição pode ser a lei da relação entre os
produtos abstratos, mas a diferença é o único princípio de gênese
ou de produção que produz a oposição como simples aparência"
(op. cit. p. 131) O
vocabulário da abstração é bem hegeliano, apenas
não sendo tão simples a gênese pela "diferença",
pois se trataria antes de explicar as
várias determinações desta na própria consciência. A princípio,
como a consciência se eleva
de apenas o visar da
continuidade mutável até a determinação de algo como
irredutível a outra coisa, a diferença abstrata como oposição
simples.
A
concepção lógica de Hegel, do devir como terceiro termo na tríade
do ser e do não ser, mas também como limitado dialeticamente pela
qualidade, que inicia a tríade em que o segundo termo é a
quantidade e a síntese é a medida,
é conveniente ser lembrada aqui. Pois mostra-se mais consistente do
que a concepção de Deleuze a propósito de uma multiplicidade
não-quantitativa, puramente
qualitativa, para falar de
diferenças de grau como o
correlato da variação da potência na ideia spinozista ("Spinoza
e o problema da expressão"). A diferença de grau é porém
exatamente o que Hegel designa como exemplo da medida enquanto
síntese de qualidade e quantidade. Uma
noção bem mais coerente para o que se deseja ilustrar na variação
de graus, como de calor, de brancura, etc.
Assim também a questão é a gênese do pensável em que a diferença
vem a ser conceituada de um modo ou de outro, não sendo certo a
princípio que Deleuze e Nietzsche tenham realmente ultrapassado a
oposição como limite do conceito, ao contrário do que assevera:
"A dialética [hegeliana] se alimenta de oposições porque
ignora os mecanismos diferenciais diversamente sutis e subterrâneos:
os deslocamentos, as
variações tipológicas". Ou:
"Visto do lado das forças reativas, o elemento diferencial é
invertido, refletido ao contrário, tornado oposição" (p.
133)
Porém
seria um contrassenso ignorar os tipos hegelianos, que justamente
perfazem a galeria das figuras da consciência, assim como, na
filosofia da história, do heroi e do homem comum
das diversas fases da
história. Ora, o
tipo nietzschiano não é menos disposto pelo sentido da evolução
até a autoconsciência que o de Hegel,
e pode bem ser que a fórmula do saber absoluto,
que é o destino da autoconsciência,
seja a mesma, se pudermos demonstrar que tem
um correlato, o
evolucionismo, em que a substância se faz sujeito em devir.
Assim
a categoria que informa "a tarefa positiva de Nietzsche"
segundo Deleuze - o positivo
aí sendo expressamente o contrário simples do negativo a que se
limitou a dialética hegeliana - é bem a "superação",
categoria mestra do hegelianismo. As
tarefas gêmeas
"do
super-homem e da transvaloração"
(p. 136) concernem
ao trânsito à pergunta já não sobre "quem é o homem",
mas "quem supera o homem"?
- quando, contudo, era a pergunta pelo "quem" em cada caso,
que devia desfazer a dialética do universal, particular, singular,
finito e infinito (p. 131) E
quando se trata de definir a "superação"
como se contra
a dialética, tudo o que Deleuze diz é: "superar opõe-se
a conservar mas também a
apropriar e reapropriar". (p. 136,
grifo meu)
Ora, se aquilo de
que se trata é o evolucionismo, podemos interpretar a dialética
hegeliana como o conceito filosófico proposto como adequado ao seu
modus operandi. Assim seria até facilitada nossa compreensão de que
não seria a antítese, como lógica revolucionária, apenas a
oposição de coisas dadas na igualdade do mero ser generalizado, tal
que também se poderia dizer que a coisa que suprime a outra na
evolução, com ela nada tem a ver, é o novo num sentido
totalizante, bastante abstrato até pelo próprio modo relacional
da qualificação do novo que só se pode pensar relativamente
a algo que perdura desde o anterior. Porém quanto a Nietzsche, ao
menos conforme Deleuze o interpreta como o inimigo declarado do
hegelianismo, é exatamente uma abstração assim que encontramos
enunciada porém como o oposto total de toda contrariedade simples
pensável, quando se trata de visar o super-homem como superação do
humano. Aqui instaurando-se evidentemente o sentido filosófico
nietzschiano do evolucionismo, trata-se explicitamente do que é
ensejado por um ser humano cujo "querer" - já não se
tratando pois, de "saber" - totalizante é o próprio
perecimento. Ou seja, querer a evolução, como a humanidade que quer
a sua "modernidade", na interpretação da evolução em
Nietzsche não é de algo que sobrevem pelo modo de ser mesmo daquilo
que antecede, mas pela destruição disso, na figura óbvia da
oposição totalmente simples. É certo que Nietzsche fala do "homem
da destruição ativa", segundo Deleuze, nos termos do
Zaratustra, como pai, ancestral (p. 145). Mas ao contrário do
vocabulário hegeliano em que o fruto não é apenas a aparência da
negação da flor, mas sim conceitualmente é a realização ativa
dela, a função do ancestral é votar-se ao "declínio",
o perecer de todo como do ser próprio. Essa
irredutibilidade é aí
essencial, posto que a caracterização deleuziana do ativo contra o
reativo a que estaria limitada a dialética, é a definição mesma
do que opõe o super-homem ao homem cuja "ratio essendi" é
ser contrário ao ativo, o avatar das forças reativas - assim o
niilismo é a "ratio cognoscendi" da vontade de poder
entregue às forças reativas.
Assim,
conforme Deleuze, para Nietzsche " o que constitui o homem e seu
mundo não é apenas um tipo particular de forças, mas um devir das
forças em geral. Não as
forças reativas em particular, mas o devir reativo de todas as
forças. Ora, tal devir exige sempre, como seu terminus a quo, a
presença da qualidade contrária, que passa para seu contrário ao
vir-a-ser" (p. 140). O
homem pode ser ativo, mas assim que ele o é, já exibe os sintomas
da reação por vir, como um
jovem vigoroso e esplêndido que porém exibe no rosto traços da
doença de que sofrerá:
"Existe portanto uma atividade humana, existem forças ativas do
homem, mas essas forças particulares são apenas o alimento de um
devir universal das forças, de um
devir-reativo de todas as
forças, que define o homem e o mundo humano".
A
oposição simples de algo contraposto a outro como diferença na
acepção de um
contrário, é pois
o que está explícito no
pensamento evolutivo
nietzsche-deleuziano,
primeiro como um contrário do reativo que é um ativo provisório,
permanecendo-se na espécie, depois um contrário que é entre
espécies, como do homem ao super-homem, mas do mesmo modo
contráario simples do reativo por um ativo, este já votado ao
futuro por si só como super-homem em vez da espécie humana. "Super"
aqui significando "após", "acima"
neste sentido tópico.
O
homem não é qualquer positividade, os homens "são naturezas
falhas", porém não sendo o homem "que
falha ou malogra no seu produto",
e
sim "o próprio objetivo
[humano] é falhado,
malogrado, não em virtude de meios insuficientes, mas
em virtude de sua natureza , em virtude do que ele é como objetivo."
Ou, "o homem tem como
essência o devir-reativo das forças".
Assim Deleuze considera não
poder seguir Heidegger quando este interpreta o super-homem
nietzschiano como "a realização e mesmo a determinação da
essência humana". (p.
140, 141)
A
questão correlata como podemos objetar, é a da liberdade. Num
pensamento evolutivo que exibe um modo de operação intrínseco, e
já vimos com Heidegger que a noção genética de forças em
Nietzsche não é conceitualmente elaborada,
explicada em
sua origem na consciência
pensante que com ela já pode
lidar - mesmo que fosse a
partir de uma noção de inconsciente, etc. - provindo
antes, ao que parece, da
física. O
que Heidegger condena como metafísica, o horizonte de totalização
do ente. Se permanece duvidoso essa atribuição à física, quanto a
Nietzsche não parece objetável.
Se
o devir evolutivo é intrinsecamente relacionado à espécie que
evolui, como em Hegel, a
liberdade dos exemplares dela é de qualquer maneira, à Lamarck ou
Darwin, o essencial. Mas numa
disjunção totalizada de duas espécies, como
em Nietzsche, não há
qualquer ato de liberdade que seja pertinente à condição da
espécie por evoluir, já que toda ela está condenada a um a priori
- "o niilismo é o conceito a priori da história universal"
- de sua oposição simples à
outra evoluída. (p. 139).
Se
podemos atribuir a Deleuze o estabelecimento do não elaborado como
não interpretado, como a categoria mesma do sintoma - o que ele
supõe poder se dizer da dialética (p.
131) - pelo que vimos a força
é o sintoma do nietzscheísmo, justamente
onde a força é o que deve
ler para efeitos de qualquer sintomatologia geral. Em
Freud, por exemplo, não é certo atribuir o impulso ou pulsão
(trieb), aquilo que aflora no sintoma como não exitosamente
recalcado, à categoria de força. Pois
já existe o psíquico, para haver a pulsão, algum elemento do
"para-si" - Je
- mesmo subentendido no jogo
regrado dos puros sistemas (inconsciente/Ics,
pré-consciente/Pcs,
consciente/Cs).
O
que Hegel
reprova em seu prefácio da Fenomenologia do Espírito,
como falsa imagem da contradição dialética,
é a oposição abstrata como aquela em que a disjunção dos termos
não os subentende como "momentos mutuamente necessários"
(op. cit. p. 22) Assim não
é que seja de todo inapropriado afirmar que em seu desabrochar a
flor refuta o botão, ou que essas duas formas "se
repelem como incompatíveis
entre si", mas isso não é tudo, esse
modo de dizer não encerra o sentido do que profere, pois
"ao mesmo tempo", a
"natureza fluída" das duas formas, "faz delas
momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem,
todos são igualmente necessários."
Ora,
o fundamento da caracterização da Aufhebung hegeliana, é o
claramente legível
do parágrafo 19, onde
contudo o modo de expressar
hegeliano necessita um conhecimento da história dos conceitos. Aí
Hegel expressa que "uma vez que foi enunciada a igualdade da
forma com a essência, por isso mesmo é um engano acreditar que o
conhecimento pode se contentar com o em-si ou a essência, e
dispensar a forma - como se o princípio absoluto da intuição
absoluta pudesse tornar supérfluos a atualização progressiva da
essência". A conclusão,
que transpõe o elemento da reflexão ao do pensamento evolutivo,
vem com o parágrafo 20: "O verdadeiro é o todo. Mas o todo é
somente a essência que se implementa através de seu
desenvolvimento" (p. 30,
31).
Ora
os termos aí são evidentemente aristotélicos, mas
já assimilados conforme o delineamento geral que Bloch designou a
sua "esquerda". Ou seja, não tanto o fato de ser
materialista, mas
sim
o que implica a ativação da potência para a compreensão
mesma da essência.
Na direita aristotélica, o Aristóteles da tradição
escolar, é inteiramente o
contrário.
Assim
aqui precisamos ter em mente a distinção aristotélica entre as
substâncias primeira e segunda. Ambas
são a coisa mesma, que existe neste ou naquele exemplar vivo, assim
como em qualquer objetividade pressuposta. Mas a primeira é essa
existência materializada, e a segunda é a essência como o "que"
realmente a coisa é de modo que mesmo outras coisas, se forem
definidas pela mesma essência, também são. Uma é este ou aquele
homem, a segunda é o homem em geral, como espécie.
Convencionalmente
se atribui como aristotélica a explicação
dessa distinção a partir de uma outra, a de forma e matéria. Sendo
a forma a essência (substância segunda), e a matéria o que se
compõe com a essência para efeitos de um exemplar na duração. O
que Hegel expressa como forma,
inversamente, exibe um intervalo relativamente à essência pura,
ao que parece porque ele está tomando a distinção de forma e
matéria num único sentido coordenado ao da outra distinção das
duas substâncias. A forma enquanto componente primeiro
substancial, é a própria
essência, mas "por isso mesmo" ela é a essência sendo
ativada num exemplar materializado, a "atualização progressiva
da essência" como o "desenvolvimento da forma".
É
irônico que, sendo este o
sentido de forma com que lida somente o que vimos Bloch designar a
esquerda aristotélica, na origem o aristotelismo árabe, Bloch
não o tenha sabido vislumbrar em Hegel ele mesmo, não obstante a
sua designação de "esquerda" e "direita"
ser emprestada àquela que se usa habitualmente para a posteridade
deste filósofo, cindida como foi.
Bloch
se espanta que não tenha sido diretamente do aristotelismo "de
esquerda"
oriental que
o conceito de matéria evolutiva emergiu, mas, em todo caso, um
pensamento dialético
"comovido pelos 'germens de uma evolução universal', e assim
autenticamente materialista, seria
o esperável, não tardando a emergir com o marxismo,
e consigo mesmo enquanto explicitamente evidenciando o parentesco do
conceito de atualização ao de evolução biológica.
É interessante que Bloch
não tenha se detido na decorrência de que
se é assim, a esquerda de
que se trata em Marx é
a canonicamente
designada hegeliana.
Caso
ele houvesse se dado conta desse detalhe como de
algo importante, teria
sido talvez menos precipitado na sua convicção de que Hegel é o
último prosélito do que se
propagou como o celeste "preconceito
circular" proveniente
da ingênua cosmologia
das
esferas, como a
regra desse
fixismo
que demarca toda
posteridade
do aristotelismo até Marx
(op. cit. p. 64).
Mais profundamente,
teria se indagado da posição do motor imóvel na constelação do
aristotelismo qualquer. Em
Hegel, o "motor
imóvel"
se faz expressamente o "sujeito",
mas assim como vemos, ele mesmo é o lugar da transitividade, ao
invés de qualquer ponto
fixo acima dos céus.
Conforme Hegel: " Mas importa notar que - como Aristóteles
também determina a natureza como um agir conforme a um fim", e
tratando-se aí de definir a razão como agir conforme a um fim, "
o fim é o imediato, o que está em repouso, o imóvel que é ele
mesmo motor, e que assim é sujeito".
(op. cit. p. 32) Sua
transitividade é como segue: "O fim
implementado, ou o efetivo essente é o movimento e vir-a-ser
desenvolvido. Ora, essa inquietude é justamente o Selbst".
O
"absoluto"
é pois, "sujeito',
porém não como o "ponto fixo" dos seus predicados, e sim
como a essência que são seus próprios
acidentes - uma conceituação
eminentemente atual, que o pós-estruturalismo tem usado porém como
se originalmente nietzschiana, contra Hegel. Para
uma antecedência
expressamente aviceniana dessa
concepção, ver A "Logique
du Sens" de Deleuze
(Paris, Ed. de Minuit, 1969, p. 48).
Avicena distinguindo três estados da essência, universal, singular,
e propriamente essencial
("animal non est nisi animal tantun"),
esse terceiro estado corresponde conforme Deleuze ao "lekton"
estoico, o "acontecimento"
ou "sentido" da proposição: "Logo, [o terceiro
estado da essência é ] indiferente a todos os opostos. Pois todos
os opostos são somente modos da proposição considerada em suas
relações de designação e de significação, não caracteres do
sentido que ela exprime". O
acontecimento, como o animal e a batalha, diversamente
da ideia platônica só
existem encarnados,
isto é, na realidade dos seus acidentes como de suas diferenças
internas - raças diversas de
animais, tipos diversos de batalha, etc.,
sendo porém
transcendental relativamente à sua encarnação.
Mantendo que se trata de
acontecimento nesse
transcendental, é
visível que ele contem
indiferentemente toda possível variação encarnada, inclusive a do
não ser.
Se
haverá ou não a batalha
naval, amanhã, em todo caso
ambas os opostos estão
compreendidos
como os acidentes entretanto
essenciais do
acontecimento "batalha".
Não faz sentido
realmente perguntar se haverá ou não o resultado quatro para a soma
de dois e dois, amanhã - os
componentes variáveis numéricos
do conceito "soma",
não se articulam do mesmo
modo que os do conceito
militar "batalha".
Os acidentes
como componentes se tornam
essenciais em todo caso como
sentido da proposição,
notando que não se confunde com o universal ou significado porque
neste não se atribui o ser e o não ser eles mesmos como acidentes,
mas como a substância mesma.
Mas
assim podemos traduzir em linguagem aristotélica o que Deleuze
propõe como propriamente estoico. O
transcendental aqui sendo o campo predicativo de singularidades
distribuídas como virtualidades do acontecimento,
conforme a entreimplicação de entelequia e dynamis. Deleuze mesmo,
que é tão avesso a redução da duplicidade de empírico e
transcendental à de ato e potência como se pode ver na sua censura
a Rimbaud quando se trata de ilustrar Kant porém com a fórmula
poética de Rimbauc (Je est un autre),
como se este não fosse consciente do que diz, se
expressa nesses termos na Logique...: "A
energia potencial é a energia do acontecimento puro, enquanto que as
formas de atualização correspondem às efetuações do
acontecimento" (p.
125) .
Porém
a necessidade do sujeito na
inferência hegeliana da entreimplicação,
necessidade que
Deleuze quer de todo evitar, faz justamente em Hegel o que se devia
ultrapassar do aristotelismo ante-evolucionista, ou seja, o
caráter pré-crítico, pré-kantiano, da filosofia. A
entreimplicação não explica as coisas, como numa concepção
metafísica, ultrapassada, de ciência, mas
sim os conceitos que não são dados do entendimento, mas
geneticamente formados em momentos na Razão, isto é, o
transcendental temporalizado. Ao
deslocar ao inconsciente a gênese, Deleuze porém se limita ao
kantismo pré-hegeliano, pois explica apenas a gênese de
"faculdades" (ver Diferença e repetição) a partir de um
cálculo das pulsões singulares. Esse cálculo não é evidentemente
temporalizado, pelo contrário, ele está fora do tempo como o que
institui um "passado puro" determinado fora da consciência,
determinante dela, estaticamente a priori.
É só por isso que Deleuze
se exime de poder seguir Husserl, fazendo-se porém bergsoniano,
mesmo notando que o método
de Bergson se limita à divisão platônica, a ideia portanto, fora
do espaço-tempo - e no entanto, por mais que proteste contra isso
Bergson não pode representar o tempo senão pela espacialidade, com
sua figura geométrica do cone,
contradição de que ele entretanto jamais se torna consciente.
É
certo que até aqui vimos apenas o desenvolvimento em Hegel na
acepção que poderia ser
objetada como a do fixismo,
os momentos de um certo ser,
mas a temática hegeliana
da liberdade evidentemente
extrapola a compertinência prefixada da partes de um todo dado. É
o conceito de todo ele mesmo que se coíbe agora ser reduzido ao
"dado" exceto para efeitos de um presente que avalia o que
nele se concretizou desde o passado, mas consciente do movimento
ao futuro, como a mola secreta do Real.
Se aquilo de que se trata na
consciência é o Real, não porque ela é pré-crítica mas porque
ela é sua gênese, nesta o
que se configura é o conceito quase-paradoxal do todo ele mesmo em
evolução.
Assim
Hegel, nesse terreno do aristotelismo, expressamente se opõe à
concepção convencional do significado do conceito em Aristóteles,
não sem propor um outro que continua podendo ser interpretação
mais autêntica do Estagirista
conforme as objeções que já examinamos, do aristotelismo árabe ao
heideggerianismo.
Mas creio que com um
componente de que Heidegger carece, pelo qual a "indiferença"
do terceiro estado da essência, atinente aos seus predicados opostos
possíveis, se torna aparência, ela mesma equacionável na senda dos
momentos essenciais transponíveis ao próprio
transcendental como campo da gênese. Ou
seja, o aporte real da
oposição que Deleuze, em Nietzsche e a filosofia, vai
opor bastante contraditoriamente à "diferença" como o
que não pode ser descartado do Real. E
contraditório também nisso pelo que supondo denunciar a oposição
em Hegel - que é expressamente, contudo, apenas a aparência na
multiplicidade dos momentos - como figura pobre da diferença
múltipla, não pode evitar a caracterização meramente opositiva,
num sentido estático, do ativo do reativo como nietzschiano
diferencial transcendental das forças.
Hegel
faz ver na Fenomenologia do
Espírito, que o
conceito é convencionalmente articulado entre o sujeito e o
predicado. O escopo de Hegel
é antes de tudo o deslocamento da terminologia da "substância'
pela do "sujeito", uma
decisão que não tem apenas amplitude ontológica "subjetivista",
mas a princípio lógica, conduzindo-se assim mais ao nível da
linguagem que das coisas. Mas conforme
Hegel, o erro
da concepção tradicional do conceito aristotélico
vem de
que "toma-se
o sujeito como um ponto fixo,
e nele, como em seu suporte, se penduram os predicados, através de
um movimento que pertence a quem tem um saber
a seu respeito, mas que não deve ser visto como pertencente àquele
ponto mesmo; ora, só por
meio desse movimento o conteúdo seria representado como sujeito. Da
maneira como esse movimento está constituído, não pode pertencer
ao sujeito; mas, na pressuposição daquele ponto fixo, não pode ser
constituído de outro modo: só pode ser exterior". Se
o absoluto é - como veio a ser - sujeito, este precisa ser
concebido irredutivelmente a qualquer subsunção àquele modo, que
agora se considera impossível porque "põe o absoluto como um
ponto em repouso; e no entanto, a efetividade do conceito é
automovimento." (op.
cit. p. 32,
33)
Vimos
como essa correção hegeliana do fixismo permanece porém tributária
dos pares aristotélicos,
pelos quais se apresenta a concepção de forma ativando-se ou, em
termos hegelianos, essência semovente,
motivo de sua designação do absoluto como "espírito"
(parágrafo 33). Isso
ao invés do "tiro de pistola", ou da "noite em que
todos os gatos são pardos", como introdução abrupta do
absoluto enquanto saber
de tudo que simplesmente é -
expressões hegelianas do prefácio que usualmente se atribuem como
críticas de Hegel a Schelling. (p. 35, 29)
Mas
assim Hegel crê também estar bem dentro do princípio da ciência
como fundamento de qualquer saber possível, conforme
ele designa (parágrafo
24),
algo aparentemente em contraste com a
expressão "conglomerado de conhecimentos que leva o nome de
ciência sem merecê-lo"
(parágrafo 1)
- aqui
falando-se dos conhecimentos anatômicos de partes do corpo
independente do seu
funcionamento ativo. Este
representado como pseudo conhecimento - uma
vez que é até mesmo consensual que ele só se efetiva se conhece
também algo de
ulterior a si como o funcionamento
ativo - é criticado
expressamente em nome do conceito.
O
parágrafo 24 esclarece contudo, o liame de ciência e conceito,
tornando-se locus textual importante por ser o prefácio votado a
esclarecer justamente isso, a missão da filosofia e, em seu bojo, a
meta da Fenomenologia do Espírito. Até
aqui Hegel rejeitou para essa missão tanto o objetivo da edificação
como
a
Schwarmerey nos termos do
entusiasmo elevado de
misticismos portadores de
revelações bombásticas. A
princípio trata-se do que hoje é o mais importante - e talvez único
- referencial em uso, a asserção da ciência como sistema. O
componente filosófico aí se torna o que a meu ver é o pivô do
pensamento evolutivo enquanto não apenas a importação para o
vocabulário da filosofia, desse novo termo representável o
evolucionismo. Mas sim como a
transformação da consciência que, só podendo ser o movimento
conceitual de si por si mesma, isto é, filosofia, nada
deixa de fora por explicar. Conforme explicitamente Hegel, nessa
transformação estando em jogo a imbricação de ciência e
consciência, daquela e seu conteúdo qualquer como possibilidade
desta e sua elevação possível até ele, trata-se
porém de um conceito de sistema que não se subsume à articulação
das partes de um todo, mas implica a falha
dos princípios como
falsidade necessária do seu começo
suprassumível. "Assim a
refutação seria propriamente seu desenvolvimento, e, desse modo, o
preenchimento de suas lacunas - caso aí não se desconheça,
focalizando exclusivamente seu agir negativo, sem levar em conta também seu progresso e resultado segundo seu agir positivo". (p.
33)
A
meta de Hegel, como o que ele deseja é logo explicitado nas
primeiras linhas do prefácio, em seu parágrafo 5: "colaborar
para que a filosofia se aproxime da forma da ciência".
Ela deveria assim suprassumir sua origem etimológica para deixar de
ser apenas amor à sabedoria e tornar-se o conhecimento ele mesmo.
Ora, consistindo na natureza
do saber a "necessidade interior" de ser ciência, resta a
identidade desse interior com o exterior
enquanto saber realizado e quanto a esta, mais uma vez, não se trata
senão de desenvolvimento. A
inteira coincidência de ambos consistindo
"na figura sob a qual uma época representa o ser-aí de seus
momentos". (p. 23) A
realização da meta científica da filosofia é também questão de
época, o presente histórico da modernidade. Quanto à
Fenomenologia do Espírito,
apresenta ela "o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber".
(p. 35) Começa
então por uma tomada de
posição contra o que ela não é, que resulta negação de
possibilidades caracterizáveis da ciência. Hegel se coloca assim ao
mesmo tempo como o cumprimento de sua época e o desvio dela, sabendo
bem que a tendência do tempo é o arrebatamento do saber como
intuição imediata, aqui o
misticismo não sendo apenas a representação de verdades ocultas
mas um modo de enviesar uma crítica ao próprio pós-kantismo,
enquanto detendo-se na auto-intuição como o próprio absoluto.
Hegel não opera porém
apenas uma ortodoxia kantiana, bem inversamente, o
que ele pretende é o contrário da imediatez a priori
de qualquer
dado, a conexão de ciência e consciência como progresso de uma
história que começa pela mais
rasa insciência
que não é o erro do engano mas o ser mesmo de sua incompletude.
Esfalfar-se e percorrer longo caminho é
naturalmente o que se segue como corolário do assim exposto destino
manifesto da ciência avatar da consciência, porém
se é por ele mesmo que a Fenomenologia do Espírito deve também
transitar, não se esgota ele no cômputo da labuta, "introdução
da consciência não-científica à ciência" ou mesmo,
para além, "fundamentação da ciência".
É
nesse ponto em que a Fenomenologia do Espírito encontra o seu
propósito verdadeiramente filosófico, que vem a dar-se o horror,
como "o
que horroriza",
a saber, a "mediação'
que é o "tornar-se
Outro"
deste que,
não começando pelo não-verdadeiro como o contrário da ciência,
mas sim encetando-a, é
contudo irredutível ao ser dela tanto quanto a si mesmo, por ser,
enquanto começo, ao mesmo tempo parte da, e irredutível a, essa
totalidade dos momentos que vão perfazer a ciência acabada. (p.
31)
A
mediação
é o tornar-se Outro
como o evoluir dos momentos de um começo que se toma por absoluto e
assim se desconhece como tal.
Não só cada um deles desembocar no outro, mas tornar-se mesmo Outro
enquanto momento nenhum e sim a totalidade em si. Conforme
Hegel: "Mas o que horroriza é essa mediação: como se fazer
uso dela fosse abandonar o conhecimento absoluto - a não ser para
dizer que a mediação não é nada de absoluto e não tem lugar no
absoluto".
Ora,
esse horror é para rir, se lembrarmos que o absoluto é o sistema, o
Outro ele mesmo, e assim só poderia vir a ser pela consecutividade a
si dos seus momentos
mediadores de si. E no
entanto, aqueles que fazem semblante de horrorizados só estão num
tal estado por sua preocupação com o sistema, o formalismo
pressuposto a priori da Razão.
Faz lembrar assim a anedota
alquímica de um sábio que visitando uma senhora amável, transmutou
todos os metais de sua casa em ouro, e estava para deixá-la quando
foi por ela interceptado, devido à preocupação da boa alma em que
ele levasse consigo uma peça transmutada, para o caso de necessitar
de dinheiro.
Nada
mais inapropriado aqui do que,
como Deleuze, acusar o hegelianismo de falsear a diferença na figura
da oposição simples, por ignorar a pergunta pelo "quem".
Bem inversamente, a
mediação propriamente dita é em que, no corpo da Fenomenologia do
Espírito, vem a coalescer a categoria do "quem" como
pensamento possível da atribuição de papeis, tipos ou
personalidades. Isso na
medida que a partir do
momento em que vem
a existir o Selbst (eu/si),
a autoconsciência, esta concebe
a autoconsciência
de outrem, devendo
se dotar de um papel atuante perante este
outro. Já vimos que esse
momento é posterior aos
do visar mutável como representação
sensível e o da
percepção determinante de
um visado
definido. Ressaltamos aqui
que o conceito de "força" emerge segundo Hegel na
decorrência formativa da percepção.
Na
transposição do "isto"
indefinido ao isto demonstrativo,
este segundo momento faculta um terceiro, da consciência
do meio em que as coisas
e a consciência interagem.
Hegel designa-o entendimento fenomênico. Antecedendo pois, o Selbst
ele mesmo, o entendimento é a orientação
da consciência à sua interação de objetos, descobrindo assim a
qualificação do meio, pelo que emergem as noções de lei e força
com que a ciência poderá lidar. Na ciência
a "força" se
traduzirá como um sentido
possível de lei, como a
eletricidade,
o magnetismo, a
gravidade. Hegel
salienta por exemplo, entre
outras observações relacionadas a esses componentes da ciência do
seu tempo, que em si,
na consciência,
a eletricidade não é dividida em positivo e negativo, ela
emerge como o ideado único da "força".
Porém como inerente ao
fenômeno é constatada a cisão dos polos positivo e negativo, o que
implica a relação de lei e necessidade.
Engendrando
a antítese de todos os três
momentos do objeto, a nova tríade da certeza de si, o ego se
tornando certo como realidade independente das coisas, esta se inicia
assim com a posição da
autoconsciência. Mas logo se
transita às figuras da
consciência dotadas de um "quem",
o ego mesmo
e o outro ego que aquele
alcançou como existente igual a si,
assim como este outro que se fez para si relativamente
ao qual aquele ego é ele
mesmo o
outro desse
si.
Ao
contrário do que Deleuze
afirmou sobre Hegel
, este não se limita a
observar que é preciso tempo para que algo se desenvolva, porém
apenas de um em si num para si, isto é, como o mesmo
em geral. Assim
não havendo a possibilidade de pensar a verdadeira diferença como
gênese: "Em Hegel a
divesidade dos sentidos, a escolha da essência, a necessidade do
tempo, são aparências, apenas aparências".
(op.
cit. p, 131)
Pelo
contrário, é a diferença
que não explica a sua gênese enquanto qualificação do "quem"
e dotação de papeis. Vemos
assim que isso é grave,
uma vez que na gênese do "quem" o que está por se decidir
é justamente o estatuto da diferença,
e não podendo
obviamente ser o contrário.
Essa
decisão é o
que enceta a pragmática,
sendo
propriamente a tessitura da história, na qual a pragmática não
pode não ser uma política. Assim
não há uma decisão única, mas a história conceitual das
possibilidades de decisão,
que se confrontaram como
embate das escolhas não de essências, mas de sujeitos engajados na
atribuição como delimitação do seu poder enquanto,
precisamente, o "quem" cada
um deles é, para si assim como pelo outro. A
delimitação do poder na
origem como da autoconsciência não limita a dotação do sentido ao
plano ideal do significado, sendo atinente ao invés à decisão
sobre o agir, a partir
da constatação de si como também do outro, em termos de
autoconsciências e não objetos dados ao comportamento livre de cada
um. Aquilo que emerge primeiro, desde a constatação, é pois a
necessidade pressentida do agir.
O
ser para si da autoconsciência não é fantasia interior de um
papel de que nos dotamos sem interferir com a realidade dos fatos,
mas aquilo que somos nessa
realidade mesma. A sucessão
das figuras da consciência dotadas
para-si de um "quem",
consciência engendrada no
terceiro momento da sucessão mais básica dos conteúdos da
consciência em si, é
inerente pois aos agentes da história.
E esta se inicia pelo embate
das posições recíprocas, na medida em
que nele está subjacente a
possibilidade mais acalentada pela conveniência aparente
a cada uma, a
de ser senhor do outro reduzido a seu escravo. A
possibilidade alternativa do agir sendo sucumbirem ambos numa luta
sem capitulação de qualquer das partes.
Os
dois agentes primeiros da história estão pois destinados,
justamente, a responder à pergunta "quem" de um dos modos
conceituados
possíveis, do senhor e do
escravo. A partir daqui, a
história que transcorre é a do pensamento mesmo, como história dos
sucessivos sistemas filosóficos
conforme apareceram na temporalidade cronológica.
Manifestamente
ela é contada do ponto de vista do escravo, porque só ele é
impelido ao movimento do pensamento que se interroga sobre si, se
queixa do desnível do seu ter podido ser e do seu ter vindo a ser,
e exige de si uma explicação
que acomode o ser das coisas, dado
que sucumbiu na luta que o senhor venceu,
subjugando-o. Porém de fato,
sendo também a história política que conhecemos como sucessão de
regimes dominantes na história ocidental, o
ponto de vista do escravo é o que implica a existência do senhor e
a continuidade do embate. A
história é irredutível a
um só mesmo, tanto porque a
consciencia que se interroga está mudando,
desdobrindo respostas que conduzem a novas perguntas,
mas porque sua interrogação não é arbitrária, e sim
contextualizada na dialética da consciência do outro.
Isso,
uma vez que o termo médio
entre ambos é a natureza como sua possibilidade comum de existência,
e o que decorreu da luta, assim como das posições de "quem",
foi a primeira divisão do trabalho que compreensivelmente deve ser
seguida por novas divisões, já que o trabalho engendra o progresso
do saber humano sobre a natureza,
e assim a sua própria mutação em técnicas que vão emancipando o
sujeito do saber. Na sucessão
das figuras da consciência que correspondem agora á
história da filosofia, correspondem pois aos fatos apenas o modo
como eles são possibilitados para si enquanto inteligibilidades
objetivas possíveis. Aos propósitos do presente estudo, se torna
oportuno, em vez de uma incursão pormenorizada sobre a história dos
sistemas segundo Hegel, focalizá-la
de imediato na sua inversão
como a produziu Nietzsche. Assim
poderemos contrastar exemplarmente os dois conceitos de evolução,
hegeliano e nietzschiano, e
por esse meio voltar a Hegel para esclarecimento dos pontos que
ficaram em suspenso a propósito da sua futurologia.
De
fato toda a ratio essendi da condição humana nietzscheísta é
derivada da caracterização do escravo hegeliano,
tomado a contrário de sua trajetória emancipadora, pela translação
conceitual do
"quem". Deleuze fala aí de tipos, como a resposta
conveniente ao "quem" da vontade,
que Hegel teria abstraído de todo, porém os tipos são apenas a
superfície aparente daquilo
que em si mesmo é o jogo das forças.
A derivação é construída pois, pelo deslocamento conceitual das
forças orgânicas, físicas, ao contraste do senhor e do escravo
hegelianos, de modo que sua
distinção se torna a mesma do ativo e do reativo como
nietzschiana
qualificação inerente
das forças. Mais um modo
de vermos que a noção mesma da força não é elaborada, mas
sintomática. Ao mesmo tempo é o constitutivo básico e o
já construído,
portando todos os caracteres de uma ciência feita.
Hegel
trata a dialética das duas autoconsciências que se defrontam no
paradoxo de cada uma como "a" constituição do mundo
objetivo, em termos
emergentes da oposição consciente das condições de "dependência"
e "independência". As
figuras da consciência,
senhor e escravo, são pois a
encarnação das posições
emergentes do sentido. Evidencia-se assim o salto de nível na vida
da consciência, pois quando se relacionava apenas com as coisas, não
havia para ela o correlato do seu papel. Ao que parece, na
autoconsciência podemos atribuir uma mudança tal que o meio da
interação objetiva, sendo
só agora a copertinência do
Selbst, o correlato do meio
se tornou
um ethos. Mas
conforme Hegel salienta, todo salto de nível, se relativo à gênese
da consciência, é na verdade um retorno da
consciência mesma, como à
realidade efetiva da
consciência como ela é, ou seja, a consciência
dotada de todas as suas capacidades quando
os momentos
da formação foram eles
mesmos completos.
A cada descoberta ou salto de
nível, descobrimos apenas que somos o que somos.
O
momento inicial da autoconsciência opera-se pelo "reconhecimento"
do outro como também autoconsciência.
Elas se reconhecem como semelhantes, mas para logo se compreenderem
extremos opostos de uma desigualdade fundamental:
"cada extremo é para o Outro o meio termo, mediante o qual é
consigo mesmo mediatizado e concluído, cada
um é para si e para o Outro".
(p. 127)
Na
luta que se segue, porém,
pela independência frente à outra, nessa noção de ser
"independente" coalesce o inverso como "dominação",
assim as duas consciências
vão ser de fato tipificadas como duas
possibilidades formativas do
que somos, ainda
como do que podemos
ser. Os
componentes ulteriores desse momento, após o reconhecimento e o
embate, não serão iguais para cada uma delas. Para a que vence na
luta, o componente seguinte é
a estabilização da consciência, sua cristalização por assim
expressarmos aqui, na satisfação do
seu si nocionalmente
estabelecido. Ou seja, não apenas autoconsciência, mas condição
senhorial na vida, ser/ente, etc. A
guerra é agora algo que foi, de somenos, não
há a exaltação como sentimento que suplante a plenitude da
tranquila certeza do que se "é", na
vitória. E
dessa autoconfiança do
(seu) "ser"
(ente), a consciência do senhor nunca sairá. A
tríade da autoconsciência que culmina na dominação é a última
para a consciência que se forma como a do senhor.
Para
a que foi subjugada, o componente seguinte
ao reconhecimento e ao confronto,
é um instante supremo, o terror pânico que a consciência
experimenta no momento da capitulação perante outrem, quando este
assoma tanto como outrem irredutível necessariamente e não apenas
possivelmente, como na posição de vencedor sobre si,
o "senhor" com direitos de vida e de morte sobre o
- então agora - escravo.
Conforme Hegel, 133 "se
a consciência se formar sem esse medo absoluto primordial, então
será apenas um sentido próprio vazio; pois sua forma ou
negatividade não é a negatividade em si, e seu formar, portanto, não
lhe pode dar a consciência de si como essência." O medo
primordial não é a Angst mallarmaica, ou, depois, existencialista:
"Se não suportou o medo absoluto, mas somente alguma angústia,
a essência negativa ficou sendo para ela algo exterior: sua
substância não foi integralmente contaminada por ela." (p.133)
Ora, o senhorio absoluto, realizado no medo originário, é para
todo ser vivo a morte, cujo conceito implica absolutamente
não poupar nenhum.
Hegel cita aí também as Escrituras: o temor do senhor é o
princípio da sabedoria. Mas essas duas caracterizações da
consciência ao mesmo tempo envolvidas no
medo originário da consciência feita escrava, formam um contraste,
pois pela primeira temos a igualdade absoluta, mas pela segunda,
inversamente, a desigualdade absoluta do senhor relativamente ao que
o teme, o escravo. Na
desigualdade é que reside a essência, segundo Hegel. Tanto das duas
consciências enquanto ainda nesse momento, inconscientes de sua
unidade profunda, como da consciência escrava que é assim porque
sua essência enquanto tal não reside em si, mas sim na existência
do senhor. A definição
hegeliana da essência,
aqui, é expressamente a potência
- como Hegel define o
sentimento
do senhorio: "o
sentimento da potência absoluta"
que define sua essência conforme o "silogismo da dominação".
Uma vez que o senhor demonstrou na luta que o ser do escravo só tem
para ele um valor negativo, o
senhor se tornando "potência sobre esse ser", o silogismo
é do seguinte modo constituído:"O
senhor é a potência que está por cima desse ser, ora, esse ser é
a potência que está sobre o Outro, logo, o senhor tem esse Outro
por baixo de si".
(p. 130, 132) O escravo é
pois o meio termo do silogismo pelo qual o senhor se essencializa
como potência definida como domínio sobre a natureza
e razão de ser desta mesma, pelo
que podemos deduzir como
transição da terminologia da potência ao significado do poder.
Se o senhorio nietzschiano não se define como
razão de ser senão pela essencialização da potência,
vemos
que assim não podemos
considerá-lo senão estritamente hegeliano, invertendo porém o
sentido da história que a
partir daí, em Hegel, é o da liberdade como o destino de
emancipação que restou ao escravo.
Assim
definindo o nietzscheísmo como segunda inversão de Hegel, após a
que enunciou ter feito Marx, seria de se indagar em que consistiu
esta. A dominação como
motor da história, e a opressão de classe como o modo de sua
operação conduzindo a trajetória ascendente da emancipação, são
enunciados marxistas que já se compreendem na Fenomenologia do
Espírito. A alegação
naturalista é de que Hegel permanece no âmbito da Ideia - é o que
está sendo desenvolvido através da história, o correlato da
Liberdade - enquanto o marxismo evolui
até o materialismo. São as relações mesmas, na sua prática
enquanto economia da produção,
o que move a história em
termos de luta de classes. Porém não ressalta bem a ruptura, uma
vez que o resultado da emancipação econômica em Marx é bem
irredutível por exemplo ao de
Spencer, para quem a
liberdade dos indivíduos decorrerá das leis de ferro do progresso
do capital industrial, ou
seja, da organização da sociedade pelos interesses materiais da
economia, sua mecânica, por assim expressar.
Marx pensa em termos de realização da liberdade, evidentemente.
Ao
que parece, a ruptura é epistemológica, como do sentido da
evolução, entre um cenário lamarckista e um darwinista. É
a causa operante que muda na explicação de Marx, porque aqui a
evolução está sendo definida de modo que a espécie, assim o
homem, é produto do meio
(natural),
enquanto Lamarck definiu
inversamente, a evolução decorrente da ação dos organismos
individualmente considerados. Mas
Nietzsche como vimos, é crítico de Darwin, assinalando-se conforme
o cenário ainda ulterior, do pós-positivismo. A
evolução segundo Nietzsche é ao mesmo tempo praxis e sem termo
médio entre natureza e cultura,
ao mesmo tempo anti-determinista porque a potência não é explicada
pelo meio, e determinista enquanto capaz de anunciar algo definido
como super-homem, assim como Hegel e Marx definiram um
sujeito da emancipação
histórica. A
confusão de história e evolução nunca foi total em qualquer
desses pensadores, porém ela nunca foi também de todo desfeita, por
ter sido visto como necessário um conceito ordenador da categoria
mais geral de mudança.
Em
Marx e Nietzsche, as sucessivas inversões elidem o principal em
Hegel, o que porém,
historicamente, na senda das
ideias, tornou possível a transição da metafísica da potência à
história do poder. O que
possibilita como temos constatado, é a história do aristotelismo,
conforme a possibilidade de interpretação material da potência.
Em
Aristóteles a cisão radical de humanística e (meta)-física
não suprime a consideração
da escravidão como natural, assim também, logicamente, o senhorio.
O racismo aristotélico não é porém algo elaborado na ética ou na
política, é pressuposto um dado de fato
observável pela iniciativa inteligente do senhor (grego)
em contraste à languidez
supersticiosa do escravo (oriental), se
bem que não faça tampouco locus meta-físico,
propriamente conceitual como
o são os pares "potência e ato", "forma e matéria",
etc., também ao contrário
de uma etologia
essencialista, por
ser apenas inerente ao inessencial e contingente, humanístico.
Ou seja, precisamente o que
está fora da teleologia legítima.
O
recurso aristotélico da imitação da perfeição natural
como o que orienta a ética
humana pelo melhor - mas assim fundamento da aristocracia - é o
único meio de uma débil explicação, consistindo numa espécie de
teleologia ilegítima.
Lembrando que em bom grego, natural é o mesmo que divino.
Seria
preciso apreender o que exatamente Hegel opera de modo a deslocar a
potência ao poder, mas como "potência", locus conceitual.
Assim
também quando invertido na
Vontade de potência de Nietzsche, elemento inerente à natureza e à
cultura. Já
vimos que em Hegel
se trata do situamento pós-criticista e transcendental, porém não
sendo fácil reconhecer o caráter a priori da
Ideia que se desenvolve - portanto
numa inserção puramente prática,
o que agora tem o sentido pós-aristotélico de
inter-subjetivo.
A meu ver, o Romantismo pós-kantiano exibe um elemento apto a
esclarecer o enigma. Ele
decorre a princípio como a
mutação romanticista, operando
pela subjetividade transcendental,
sobre a consistência
conceitual que se poderia localizar em torno da natura naturans, de
Bruno em diante. Em
Hegel
porém o que poderia ter restado de comum entre a mutação e seu
substrato, se esvai, para completar-se
a mudança histórica.
Esse
elemento é o que seria bem designado a duplicatio,
mutação da complicatio
de Nicolau Cusano,
este um resultado
esperável da natura naturans
antes do racionalismo típico da era cartesiana
- ou seja, natura naturans como influxo da potência aristotélica
naturalizada a Leste.
Na
complicatio, ao contrário das ideias claras e distintas de
Descartes e Spinoza, dualmente opostas como são
os modos do atributo
"pensamento"
sos
modos do atributo "extensão"
( matéria ), está
o intelecto de Deus para quem não há opostos.
A "coincidentia opositorum" na mente de Deus é o modo
"intelectualiter" da inteligência, enquanto o modo
"rationaliter' da inteligência é o da ciência que conhecemos,
consistindo em discernir os opostos.
O
Romantismo opera a crítica do racionalismo cartesiano, retomando
primeiro por via da Schwarmerey mística e depois na filosofia de
Schelling, a natura naturans
ante-spinozista, conveniente à equipossilidade
que traduz na linguagem de Schelling a coincidentia opositorum de
Nicolau Cusano. Porém a
complicatio é aqui percorrida por uma figura de antítese que
poderíamos reconhecer como a transformação daquela que foi
dominante na irrupção seiscentista do cartesianismo, a barroca
antítese do bem e do mal que cortava a espiral dos enganos do mundo,
os reflexos materiais do
espírito. A duplicatio romanticista, é inerente apenas ao modo de
ser duplo do homem, não
tanto entre o empírico e o transcendental kantianos, como entre o
indivíduo e a cultura que o trans/forma, pós-kantianos.
A
coordenação Schelling-Bruno é bem destacada na história da
filosofia, que não tem
registro costumeiro para a importância do tema da
natureza dupla
do homem na filosofia do
Romanticismo. Mas
como Bréhier observa, Hegel rompe com
a coordenação e já assim com
todas as "filosofias da natureza de tipo helênico,
como a de G. Bruno, que,
vendo no mundo um Todo, ou antes o Todo, a obra divina por excelência
e a única, absorve na filosofia da Natureza a filosofia do Espírito,
enquanto Hegel as distingue
com a mesma força de Comte distinguindo as ciências sociais da
biologia, vendo na História, o Direito
e a Moral, a obra própria do Espírito". ("História
da filosofia',
cópia da internet, p. 442)
Mas em Hegel a duplicatio é
elevada a um nível mais importante ainda do que na coordenação que
das místicas
à Schelling se comunicam à
literatura fantástica,
onde o tema do duplo é bem célebre.
O
elemento da duplicatio vem a ser
em Hegel o movimento da
antítese que torna o espírito o que ele é, subjetividade com uma
vida irredutível a todo
modus operandi
natural. Essa
irredutibilidade é bem demonstrável na expressão de Royce para a
Fenomenologia do Espírito hegeliana: a autobiografia do espírito do
mundo. Resta que é do homem
que se faz mundo, mas a
experiência do homem é a da "extrusão",
a Entausserung, continuada de si mesmo, na qual porém ele não
apenas se torna outro para o que era e vinha sendo, mas se reencontra
como aquele que ele mesmo é na
qualificação desse poder ser que é mundo. Em Hegel, pois, ao
contrário de Nietzsche, o poder ser jamais se confunde com o
dever-ser, ao contrário do
que se poderia considerar uma
vez que há um termo a que o desenvolvimento deve
aportar.
Mas esse termo é justamente
irredutível a todo dever-ser extrínseco à
realidade posta pela história, como o movimento político
- isto é, na heterogeneidade dos sujeitos -
da Liberdade, cuja necessidade vem do modo de ser
da consciência, não como para Kant, um imperativo do universal
sobre a vontade.
A
duplicatio hegeliana é bem expressa quando se trata de um segundo
movimento do terror, ulterior
ao originário temor do escravo que designei o terror pânico. A
figura da consciência correspondente agora é, aparentemente
ao inverso à
escravidão originária, da Liberdade Universal.
A
segunda forma ocorre quando
já existe
o Estado na forma de governo instituído, porém ela é despótica,
se bem que não necessariamente figurada por um soberano
único. Hegel a posiciona
após o momento histórico do Iluminismo
e correspondente figura da consciência,
provavelmente tendo em mente os acontecimentos da Revolução.
Em
todo caso, o governo aí é designado por Hegel apenas uma "facção"
que se apodera das instituições, logo, a própria designação
subentendendo o oposto na
mente de Hegel, ou seja, um
governo representativo
-
"representação"
aqui no sentido político do
voto, justamente não no da confusão
identitária da
coisa em si
- logo, necessariamente liberal.
Na
liberdade absoluta, o sujeito rompe a subsunção de sua
autoconsciência às "potências" em que o todo social,
limitado à estática da
dominação,
estava segmentada. Ele
compreende agora sua autoconsciência como algo necessariamente
independente de tudo aquilo a que antes integrava na qualidade de
"massas" que repartiam a sociedade em instituições
espirituais, isto é, culturalmente dotadas de sentido.
Hegel
parece apresentar assim
a possibilidade consciente da transição do direito estamental,
cujo correlato é o grupo (aristocracia)
para a igualdade da cidadania nacionalizada,
cujo correlato são os sujeitos tomados individualmente. Porém
o terror se segue porque o compreender de sua total independência
pela autoconsciência, é também o de sua irredutibilidade ao
governo não representativo como facção.
O governo faccioso ilegitimável detem contudo o aparato
institucional do Estado, que por estar assim subsumido, é realizado
na consciência apenas como poder
da morte, ainda, o Senhor supremo de todo ser vivo. A morte assim
meramente "representada"
- isto é, correlato apenas
do entendimento - é a morte
banal como
do cotidiano judiciário, "sem mais significação do que cortar uma cabeça de
couve ou beber um gole de água".
(p.
97, v. 2)
Para
o indivíduo a morte banal,
correlato apenas do entendimento, é
o reverso de sua pessoalidade individualizada
como, na qualidade atuante, sua liberdade universal. Para a figura da
consciência, que conserva
pois o que deveria ser o trânsito à sua verdadeira autocompreensão
livre na intersubjetividade, apenas no elemento do entendimento,
a possibilidade histórica
é
o governo de facção
limitado "como
ponto-que-se
fixa, ou a individualidade da vontade universal", com a pena
capital banalizada pelo entendimento como apenas o correlato
óbvio da vontade puramente
subjetiva fazer-se cumprida:
"o governo, um querer e executar que procede de um ponto, ao
mesmo tempo quer e executa uma determinada ordenação e ação".
A
Liberdade universal é portanto, como figura da consciência
puramente individual, apenas o contrário da morte banal como
supressão que acontece do indivíduo. O
governo de facção corresponde ao momento histórico dessa
consciência, porque por ela pode ser visado como um elemento único,
executando uma vontade única, o que ela é para ela mesma.
E tanto mais pode assim ser visado que o limite a que o governo tende
na execução da vontade única é a supressão da individualidade
única do condenado. Esse
é pois "o terror da morte" como intuição de
si como "essência
negativa", possibilidade
de si como essência positiva ou liberdade universal. (p. 98, v, 2) A
universalidade aí é pois o
determinante. Ela decorre da conscientização das leis públicas
como correlatos de consciência necessária. Lembrando
que já estão aqui os sujeitos atribuídos a massas como grupos
culturalmente definidos por regras de atribuição.
Por
isso não confundimos o terror do súdito de um governo
despótico, assim o terror como meio de governar,
com o terror pânico originário do escravo, que
não foi de fato meio de
qualquer "sabedoria"
do senhor, mas decorrente da passionalidade da luta - o que o senhor
queria poderia ser
também a supressão do
oponente antes dele se render e a possibilidade da escravidão se
apresentar como mais
conveniente ao poderio.
Nessa irredutibilidade dos
dois terrores, subjaz também a evolução da duplicatio.
Em
todas as figuras da consciência precedentes,
desde a formação da autoconsciência a duplicidade está presente.
Ao conceber o outro como também autoconsciente, o sujeito
compreende-se outro para este
outro, mas assim ele "se" compreende um outro
em si mesmo. Mas aqui, nessa
segunda forma do terror, Hegel
relaciona a duplicidade não ao "si", o ser si mesmo do Eu
como o seu ser objeto para outro, e assim
também para ele mesmo
enquanto realizando o que ocorre
no ser autoconsciente do
outro como objeto de
sua própria autoconsciência, etc. E
sim, somente ao "Eu" mesmo
("não é um Si diverso do Eu).
Nessa
segunda forma da certeza de si, o
Eu se contempla na sua
auto-certeza como Eu que está certo da universalidade da forma da
certeza. É segundo Hegel, "o
contemplar do Eu no Eu, o absoluto ver-se o eu mesmo em dobro"
(adaptado do texto, p. 93, v. 2)
O
ethos em Hegel é pois algo de caracterização importante,
se ele é o contexto da duplicatio que assim, porém, já nada
conserva da natura naturans onde a complicatio pura seria ainda
possível como o nível mais elevado precedente.
O Ser pelo qual começa a Lógica
hegeliana, não é o
universal oposto ao não-ser, ao
contrário do que pretendeu Schelling, mas
o ser da Entausserung, logo
exteriorizável "em si",
duplicatio, eu que é
"outro",
eu virtual
(acontecimento História).
Ainda
o velho Avicena dos estados
da essência, como da esquerda aristotélica,
porém não possivelmente um neoplatonismo
ou uma (meta)-física ("Representação"),
se o elemento da Entausserung é o ethos, e, este, operação da
duplicatio.
Vemos
que seria falso interpretar um
fascismo hegeliano a partir do que seria subsunção necessária do
sujeito
a uma intersubjetividade concebida como
totalidade de grupo,
suposto isso como a finalidade do desenvolvimento. Pois
o grupo ele mesmo pode ser o sujeito da universalidade vazia,
que se limita ao correlato
representado do entendimento,
como no governo de facção -
despotismo ou qualquer tipo de aristocracia.
O grupo
não põe o elemento do ethos apenas
por existir, apenas pela
reunião de pessoas, porque,
como na facção, pode se
comportar como vontade arbitrária
que só é para o sujeito exterior o
mesmo que este é para
o grupo ou para qualquer
outro sujeito
singular, todos indivíduos
referenciais de fins individuais arbitrários, não correlacionados.
Inversamente,
o elemento do ethos,
aquele em que nos movemos quando nossa ação está relacionada a
outros sujeitos, contendo em
si essa determinação da heterogeneidade concreta das pessoas, o
seu desenvolvimento deve ser a realização da consciência dessa
heterogeneidade real. O
desenvolvimento deve pois ultrapassar o limite dos laços de
costumes, o "ético"
- nessa acepção
do que é oposto ao político e não na acepção que estamos usando,
de elemento da intersubjetividade -
e alcançar a moralidade efetiva,
não apenas a moralidade imperfeita,
e assim a
reciprocidade dos deveres e
dos direitos que define o Estado
autenticamente representativo da cidadania, mas, em termos de
consciência, o saber desssa reciprocidade que vem a ser o êxito da
filosofia.
A
espessura intersubjetiva, do ethos como comportamento orientado pela
consciência da relação na alteridade,
delimita pois a realidade mesma como não o que é atingível em si,
na própria ciência e política autenticamente representativa,
mas o que é mediado "para si", limite indeslocável do
sujeito ele mesmo à alteridade da lei. Assim
a ciência e a política não são
o sujeito, não o dominam. Elas
vão emergir só no final do processo do desenvolvimento da
consciência dessa
concreção da heterogeneidade dos seres em relação, depois
de mais momentos por vir da formação da consciência, e
assim elas mesmas não vão resultar como o apagamento dessa
concretude deles enquanto singulares.
A
possibilidade oposta, delas
efetivamente parecerem que são e pretenderem dominar por isso que
(supostamente) são, Hegel
trata como o que decorreria se emergissem
agora mesmo. Ou seja,
nesse momento em que estão defrontados por
um lado a facção, embora
dotada de poder "político" no sentido distorcido da coisa
e assim "governo", por outro lado a figura da consciência
que corresponde ao atingimento da autoconsciência kantiana, de ser o
sujeito do entendimento do
mundo fenomênico. Assim
Hegel sutilmente parece demonstrar que o kantismo não transforma o
objeto na nova objetividade que será o correlato da
intersubjetividade realizada no final, ou seja, o espírito
objetivo que se expressará na
religião, arte e "saber absoluto", essa mesma filosofia do
espírito objetivo.
A
prova de que a
ciência real e o Estado representativo da cidadania teriam sido
alcançados já agora, na figura da consciência kantiana, seria,
segundo Hegel, que o governo já separaria legitimamente os poderes
em legislativo, executivo e judiciário (p.
95). Por outro lado, num estado de coisas assim, a liberdade
absoluta que o sujeito descobriu conforme a figura atual de sua
consciência, como correlato cognoscente do fenômeno do mundo, se
converteria numa ação política efetiva. Hegel expressa a propósito
dessa ação, que
ela poderia ser qualquer uma, dentre as opções possivelmente
efetivas, das quais ele faz o rol: "como
governo revolucionário [relativamente à
fação], ou como
anarquia..., ou como centro dessa facção ou da oposta". (p.
100)
A
figura da consciência, sendo como é nesse momento, a efetivação
de qualquer dessas opções como realização objetiva apenas
resultaria numa distorção da personalidade, que voltaria a se
confundir com o entendimento
de
coisas. O que se seguiria se
limita à confusão de
personalidade com identidade
coisal, e vemos mais uma vez que Hegel considera Kant nesse
limite: "A personalidade, posta no elemento do ser, obteria a
significação de uma personalidade determinada, deixando de ser uma
autoconsciência universal, na verdade. Ora, essa autoconsciência
não deixa que a defraudem na sua efetividade, pela
representação da
obediência sob leis dadas por ela mesma, que lhe assignariam uma
parte no todo; nem por sua representação no legislar e no agir
universal; nem pela efetividade que consiste em dar ela mesma a lei,
e em desempenhar não uma obra singular mas o universal mesmo. Com
efeito, onde o Si é somente representado
e por procuração, não é efetivo; onde é por
procuração, o Si não
é" (p. 96, grifo dele)
O
ser somente
representado, em vez de efetivamente representado, é o que se
seguiria pois do kantismo enquanto doutrina
da vontade movida por
imperativos, que tem na forma do imperativo o
limite da inteligibilidade prática. Esse limite implica pois que
sempre o ajuste do
conteúdo com a forma do universal, do qual resulta o enunciado
imperativo num certo momento e lugar, é
reconhecido como justo por
todos os seres racionais. Assim
aqui há uma confusão de público e privado, política e ética.
Um
governo justo na acepção kantiana, é aquele que apenas faz
executar ordens que seriam as mesmas de todos
os seres igualmente racionais, se qualquer dentre estes estivesse na
posição do governo. É o que parece Hegel expressar com o sentido
de "procuração", instrumento jurídico pelo qual um
sujeito
pode agir em lugar de outrem por consentimento expresso deste,
estando tácito que entre o primeiro e o segundo não há qualquer
heterogeneidade de vontade para os fins que o instrumento cobre.
É
nesse trecho que podemos pois, calcar nossa atribuição de um
pensamento liberal a Hegel. Pois, numa democracia real, assim como
em relações efetivamente não abusivas com os outros, não
devemos pressupor
que tudo vai ser como um só ou alguns pretedem unilateralmente que seja, conforme nossos padrões
de certo e errado que seriam
efeito articulado de imperativos pressupostos comuns observados,
mas sim que os direitos de cada um estão garantidos,
de modo que constrangimentos
legais em nível público, que sempre parecerão assim para uns e outros conforme um consenso legal favoreça uns ou outros, sejam compensados pela liberdade de
costumes em nível privado. Não
é legitimidade pensar que as leis terão que expressar imperativos
comuns, e sim que elas expressam decisões tomadas em comum - isto é,
o que requer o pressuposto da heterogeneidade de opinião dos
agentes, senão não seriam decisões tomadas, seriam ordens
axiomaticamente estabelecidas conforme a algum código de conduta e
não uma legislação.
Algum
constrangimento nesse nível
público vai atingir a todo
mundo, por igual em escala quantitativa mas não qualitativa - assim
todos vão achar que
em algum ponto a maioria legisladora, representativa ela mesma da
heterogeneidade dos votantes, favoreceu a opinião oposta.
Os partidos opostos serão
todos igualmente constrangidos alguma vez, mas na sua diferença
mesma, ao contrário de sempre o desacordo incidir
contra um só ponto na sociedade.
Mas
isso não é nenhum horrível mal do mundo, ao contrário do que
desejaria a pregação pietista de Kant,
esquecendo-se que significa apenas que será a nossa opinião que a
legislação favorecerá também, alguma vez. Que
todos serão constrangidos significa também que todos serão
contentados. Ou seja, a
representação governamental autenticamente democrática
(legislativo, executivo e judiciário) não é a de uma maioria, e
sim da conjuntura específica que expressa a situação objetiva
(como estado de coisas), cujo
correlato social é a heterogeneidade. E
o único substrato comum em termos de legitimidade
é que em nível privado, os direitos humanos e a liberdade privada
jamais sejam aviltados. Só o
que fere
a legitimidade assim concebida não deve ser contentado de modo
algum, porém isso é o contrário do ruim
neste mundo.
As
coisas prosseguem na Fenomenologia do Espírito inversamente
ao curso da possibilidade
abstrata que Hegel acima delimitou, o qual não é que não possa
ocorrer mas sim que se ocorrer desandarão os propósitos no
descaminho. Hegel aqui é bem
instrutivo para várias situações atuais na geopolítica.
A
figura presente da
consciência, pois, assim que
o Iluminismo desaguou no kantismo,
na Revolução, Napoleão
e a Santa Aliança, é a que
atingiu a liberdade absoluta,
a certeza de si agora como o sujeito conceituador dos fenômenos,
mas a atingiu
como o terror do seu confronto total com todo poder e
todo outro que existe nesse
mundo, uma vez que o poder
também ainda não se resolveu num Estado representativo, é só
terrorismo de Estado, e o
outro não é o que
ele mesmo é para ele. A
figura de consciência da qual estamos tratando
se tipifica nesse dilema:
"Para que o universal
chegue a um ato, precisa que se concentra no uno da
individualidade,
e ponha no topo uma autoconsciência singular, pois a vontade
universal só é uma vontade efetiva em um Selbst que é uno. Mas
dessa maneira, todos os outros singulares estarão excluídos da
totalidade desse ato, e nele
só tem uma participação limitada , de modo que o ato não seria
ato de efetiva
autoconsciência universal.
Assim a liberdade universal não pode produzir nenhuma obra nem ato
positivo; resta-lhe somente o agir negativo; é apenas a fúria do
desvanecer."
As
consequências aqui são, pois. Primeiro, as pessoas em condições
normais se comportarão de modo inverso ao previsto por Kant. Elas
não quererão o que
quer que se proponha como imperativo universal, tanto mais que pareça
universal nesse sentido de um imperativo. Elas recusarão,
tendendo porém não para o contrário, mas para a inatividade,
frustrando a eficiência na
ação concertada, e
isso de
modo são, pois assim estão salvaguardando a
verdade de sua absoluta não coincidência com o papel definidor de
coisas. O que elas farão
é transitar a um tipo de cosmovisão moral, um
sistema integrador de sujeito e natureza a partir de regras de
conduta supostas em harmonia
com o ser natural. A moralidade resultante não é a que na filosofia
da história vimos Hegel igualar ao atingimento da
consciência filosófica, como, justamente, da heterogeneidade que
nem por isso está impossibilitada ao convívio racional. Não
é pois, a consciência da pluralidade
de éticas,
mas inversamente, é uma ética que se resolve numa estética de si,
por assim expressarmos aqui. Ela
não necessita ser imposta a outros mas como uma mentalidade
sectária, decorre como ao mesmo tempo um sistema de regras e uma
aplicação somente a si, pelo coração, pela escolha pessoal, etc.
É
oportuno lembrar que o elemento que conduziu do Iluminismo como o
ultrapassamento especulativo
de Deus, o fim da dominação teológica do saber, enunciado por
Hegel antes de Nietzsche, até a figura da consciência que acima
examinamos, é o utilitarismo. A atribuição do bom ao útil, a
confusão com o útil da necessidade do ser assim do objeto. A
necessidade depurada do útil, mas só como ela mesma, aquilo que
resulta da interação posicionada dos fatores, é o que a figura a
consciência que examinamos acima realiza como o conceito que lhe
permite transitar à cosmovisão moral. Ela o realiza precisamente na
forma do dilema, pois o pressuposto deste é necessário,
na acepção lógica do que não pode não ser. É necessário o que
se segue como
confronto insolúvel, a
partir de particularidades
imiscíveis,
e, cada uma, para si
universal.
Mas
o que teria sido necessário, na acepção do eficiente, na
solução do conflito social,
parece ser o que Hegel
preconiza para o seu tempo. Já
estava destruída a
distribuição anterior das potências, a
organização social do Antigo Regime conforme a pertença das massas
a seus respectivas procedências instituídas. Era preciso agora
fazer uma organização adequada ao tempo da autoconsciência livre,
em que as potências atuais
iriam se acomodar em massas conforme procedências sociais atuais.
Não
havendo porém a atuação
coerente da parte dos
sujeitos da autoconsciência livre ainda
dilemática, Hegel parece
antecipar uma resposta bem adequada aqueles sociólogos que poucas
décadas mais tarde, irão
tomar partido da aristocracia por atribuir ao povo ignorância
das sutilezas necessárias à administração
de Estado. Hegel
parece equacionar
aqui a lição do romantismo sobre a mediação estética da
história, que é sobretudo
mediação das religiões em seu papel formativo dos povos.
O papel decisivo da religião em acontecimentos históricos até o
Iluminismo, já estava com o romantismo analisado ulteriormente
aos fatos eles mesmos, a Religião sendo expressa pela hagiografia
como arte, um papel que agora os literatos românticos faziam seu,
mas assim não
necessariamente da religião tradicional - isto é, conforme a
definição, aquela formada pelos hagiógrafos do passado. Parece
ser esse o sentido pelo qual Hegel estabelece o trânsito da
cosmovisão moral à religião que nele é apenas o lugar da
transmutação estética dos valores, como o primeiro degrau da
formação do "espírito objetivo". A formação inclui,
pois, a sequência de religião, arte e saber absoluto,
do espírito objetivo como
consciência plena do mundo
intersubjetivo, isto é, histórico. O elo que possibilida a formação
vem do meio termo encontrado
entre os dois extremos que são os postulados antagônicos
integrantes da cosmovisão moral. "O primeiro postulado era a
harmonia da moralidade e da natureza objetiva,
o fim-último do mundo; o segundo era a harmonia da moralidade e da
vontade sensível, o fim-último da consciência-de-si como tal."
Aqui localiza-se facilmente a sequência kantiana da
razão prática.
Hegel prossegue: "O primeiro era, pois,
a harmonia na forma do ser-em-si, o segundo na forma do ser-para-si.
Ms o que une, como meio termo, esses dois fins-últimos extremos que
são pensados, é o movimento do agir efetivo mesmo". (parágrafo
604, p. 105, v. 2). É na
efetividade que estes "dois
lados" que integram a autoconsciência
se unem, "cada um como o outro do outro". Ao
que parece, Hegel transcende aqui a forma de conformidade do juízo
reflexivo, da terceira síntese kantiana. Ele integra o elemento
sensível que Kant expulsa do silogismo prático tanto como do
reflexivo.
Assim
também quanto à arte, em
sua "Estética", Hegel
concorda com os românticos, pós-kantianamente, que ela é função
do seu conceito, ao invés de uma cisão radical de conceito e
imaginação. Mas
de um modo não kantiano, seu desacordo com o romanticismo estético
decorre de que a imaginação
deve ser elevada a uma compreensão universal possível. Não
entenderíamos bem o que Hegel concebe, se não por esse agir
efetivo, que, ele, seria compreensível mesmo que não dispuséssemos
do saber dos imperativos da cosmovisão particular. Uma vez que todo
agir se encerra na efetividade do mundo exterior.
Assim
aqui também, seria rizível a preocupação com os limites da arte,
uma vez que é a efetividade mesma o correlato único e comum à arte
como à preocupação por ela. Ao contrário de Hegel a estar
limitando aquém do possibilitado pela revolução romanticista. O
que ele pretende parece ser corrigir a interpretação pela qual o
que é possível, muito além do que se imaginava antes, o é por que
a arte passou para a interioridade subjetiva por si só. O que não
se coaduna com a mera possibilidade de algo como arte
ou seja o que for vir a ser
na efetividade.
Ou
seja, a resposta antecipatória de Hegel à sociologia aristocrática
ulterior, é que ela seria um beco sem saída
histórico. Ou uma facção, assim o contrário do que pretende como
única legitimada enquanto racional, pelo critério dos novos tempos
inaugurados pelo Iluminismo.
Ou uma quimera sem função,
pois a aristocracia era potência para massas apenas distribuídas
conforme a organização que os novos tempos suprassumiram.
O
viável é pois, que na sociedade se estejam reorganizando as
instituições conforme a mentalidade que assim emergiu, de
modo que gradualmente a cultura vá deixando de ser o outro,
aterrorizador porque puro outro, da autoconsciência livre, e se
tornando efetividade em que ela tem espaço para agir. Ela
se torna a expressão das cosmovisões, religião, arte e ciência.
Na efetividade a cultura não
será pois, expressão da ação de facção, "baixa" ou
"alta", mas o que
puder decorrer da liberdade efetiva desde a salvaguarda dos direitos,
ou seja, de estar havendo realmente legitimidade.
Não há outro continente da
formação das habilidades necessárias, à administração ou
qualquer que seja,
que não a cultura, berço da ciência.
Porém
Hegel também assim poderia responder à regressão do
político ao ético que tem sido geral depois das duas guerras. A
cultura permite o desenvolvimento, mas este é o político e coerente
com ele, a ciência que não se faz instrumento de dominação.
Porque o desenvolvimento são seria, justamente, a consciência da
legalidade como salvaguarda dos direitos privados, da liberdade
e inviolabilidade privadas.
O
parágrafo 604 enuncia pois, a emergência do elo que
liga o "em
si"
e o "para
si":
"Os postulados que assim se originaram", como verificamos,
na cosmovisão moral em termos das duas harmonias da finalidade, com
a natureza e com a vontade empírica, "como
antes só continham harmonias em si essentes separadas das harmonias
para si essentes, agora", isto é, na ação efetiva, "contem
harmonias em si e para si essentes".
A
outorga do mérito, como da felicidade, e a plenitude do gozo, é
alcançado como eles mesmos moralidade, uma vez que o
agir subjetivo está de acordo com a efetividade de sua cosmovisão
coerente. É perfeita por isso, e até porque, sendo imperfeita por
outro lado, não
abarcando
o seu agir o dever-ser
generalizado, alcança a consciência da impossibilidade dessa
abrangência. A adequação do preceito à ação é sempre uma
adaptação que se desvia da pureza da primeira devido à
preeminência da efetividade, o mundo como é, imposta à segunda.
Entre a moralidade e a
efetividade, o que a cosmovisão moral unia, exibe-se agora a
irredutibilidade traduzida na asserção realista de que não há
perfeição possível da moralidade.
O que é um degrau para a conclusão da heterogeneidade
intersubjetiva
- ao mesmo tempo não eliminando a subjetividade, a convivência
possível na forma de relações
sociais, existenciais e políticas efetivas.
Mas
se retomássemos o momento do
confronto do senhor e do escravo, a partir do medo primordial,
de modo a reconstituir todas
as figuras da consciência escrava até o Iluminismo, e então, desse
segundo ponto que examinamos, prosseguíssemos as demais até a
completude da Fenomenologia do Espírito, estaríamos
onerando demasiadamente os propósitos deste estudo. Limito-me
aqui a um esquema apenas para
evitar a lacuna, e então poderemos alcançar a presente
meta, unindo o objetivo da
Fenomenologia ao propósito do
escrito hegeliano
sobre a História.
a)
tríade do objeto simples
b)
luta do senhor e do escravo (tríade do sujeito simples)
c)
figuras da
consciência (escravo),
cuja sucessão subentende o Estado despótico e/ou aristocrático
(senhorio); estoicismo,
ceticismo, consciência infeliz (da realidade opositiva descoberta
pelo ceticismo), idealismo
(medievo),
ciência empírica; os três tipos
de consciência resultante
nesse estágio empírico: o
necessitado, o contestador, o
virtuoso abnegado;
constância do mundo como realidade inamovível e independente do
desejo de qualquer dos três
tipos (a virtude unilateral
não vence o mundo); consciência
da legalidade;
d)
Eticidade, Direito, Cultura;
Aufklärung/
utilitarismo; ultrapassamento do divino na Razão;
e) retorno ou manifestação da constância da necessidade religiosa, independente da revolução racional; Liberdade
(modernidade): Estado na conscientização da irredutibilidade de
governo e cidadão; consciência da personalidade; cosmovisão
moral, espírito objetivo ( religião, arte, filosofia); saber
absoluto (em si e para si; em evolução).
A
exposição hegeliana da filosofia da história começa, pois,
naquela altura que na Fenomenologia do Espírito corresponde ao que
aloquei na letra "e".
Ou
seja, só com o Estado já constituído, mas
assim a menção de Hegel
sobre "o núcleo sombrio e rigoroso" que
corresponde ao momento em que a consciência só está aberta ao fato
de ser o que ela mesma é, personalidade,
não ainda estando aberto o
regime ele mesmo da legalidade como Estado
representativo. (op. cit. p.
111)
Não
quer dizer que o Estado já não seja real, mas sim que ainda não é
o Estado de legalidade dos
sujeitos, ao
contrário sendo apenas despotismo de facção institucionalizado,
assim como a consciência
livre correlata à
compreensão dele, que só se viabilizarão "através do
demorado processo cultural, cujo objetivo é muito remoto" para
fins imediatamente visíveis
na cultura dos povos.
Nesse
trecho, que estabelece o liame da filosofia da consciência com a
filosofia da história, sem reducionismo de lado a lado, fica
porém assente que o crucial,
o que possibilita a história,
é ter-se atingido a figura da consciência livre - que na
Fenomenologia vimos ter facultado o Iluminismo,
o kantismo
e a Revolução.
Nesse
limiar em que se franqueia o portal da filosofia da história, "só
a consciência está aberta, só para ela Deus e qualquer outra coisa
podem se revelar." E desse haver da consciência livre,
emenda Hegel o corolário:
"A liberdade nada mais é senão o reconhecimento e a adoção
de objetivos materiais, universais como o Direito, a Lei e a produção
de uma realidade que esteja em conformidade com eles: o Estado".
Ora,
tudo o que já vimos da filosofia da história hegeliana, aporta ao
requerido essencial dela como
a resposta sobre como, se o universal hegeliano como a Fenomenologia
do Espírito estabeleceu, não é a generalidade de imperativos
kantiana, não é fixista ou independente da
heterogeneidade elevada ao nível de direito, define
ela o universal na ciência da História
- como uma sua possível filosofia.
A resposta, como o demonstra a segmentação do livro, é a
dialética dos princípios nacionais, o que devemos examinar
agora.
///
Hegel se utiliza da
expressão "história do mundo" para conceituar algo
irredutível, a princípio, ao que ele designa "historiografia",
mas assim compreendendo tudo o que consideramos hoje história
efetiva, que se mantem num plano de fatos e pessoas e/ou populações.
O heroi ou personalidade histórica à exemplo de César e Napoleão,
como única subjetividade pertinente à história do mundo, não
obstante esta ser fenomenologicamente, como vimos até aqui, a
realização da consciência dos direitos subjetivos, não se coloca
nesse estatuto por sua individualidade. O heroi se coloca apenas pela
tessitura da "história do mundo", e nesse sentido a ação
dele é designada "inconsciente" (p. 119) - ao menos na
tradução adaptada de que dispomos, lembrando que o fato de ser
adaptação é destacado pela própria tradutora na edição citada.
Assim, mais uma
vez, os herois dessa história de feitos heroicos, aqueles que
mudaram a época, estão "fora dos limites da moral",
ao ver de Hegel não tendo cabimento julgar eticamente os seus
feitos: "A ladainha das virtudes da modéstia, da humildade, do
amor e da caridade não deve ser erguida contra eles. A história do
mundo poderia a princípio ignorar inteiramente o círculo da moral e
a sua tão falada diferença em relação à política".
Não apenas as
opiniões éticas não são aplicáveis à história do mundo, mas
deve-se "também deixar os indivíduos totalmente fora da vista
e sem menção. O que ela deve registrar são as atuações dos
espíritos dos povos". Hegel não elimina a historiografia,
apenas considera seus limites: "As formas individuais que esse
espírito assume na esfera da realidade externa poderiam ser deixadas
para a historiografia".
Não obstante o que
hoje consideramos essencial, o fato de que não há história que não
seja historiografia porque o passado social não é acessível senão
na forma de textos, não esgotou realmente a questão hegeliana do
"desenvolvimento". O locus pelo qual Hegel define a
especificidade da "história do mundo".
Já vimos que se
esta é qualificada apenas nesse sentido, é porque exibe um rumo
definido, que permite excluir dela o pré-histórico. O requisito, a
existência do Estado, prova pois que a presença mesma da história
é desenvolvimento desde um estado de coisas anterior. Compreendemos
a concepção de Hegel, se lembrarmos que o Estado para ele não é
apenas administração de recursos, mas racionalidade das leis,
envolvendo a consciência, na forma de instituições prescritas,
das relações efetivas.
O vir a ser do
Estado/história como algo ulterior às formas organizadas de povos
que até então existiam, prova que existe uma razão
histórica. E por que o vir a ser do Estado não demonstra desde o
início a racionalidade numa acepção aceitável a nós, que só é
atingida, mesmo que só em estado de conscientização ideativa, bem
tarde, na, e como a, modernidade, a razão histórica é o princípio
do desenvolvimento imanente à própria história como um rumo
orientado dessa racionalidade.
Quanto a esta, pois, é o que está em devir, ao contrário de
qualquer imperativo de articulação totalizante
de uma forma dada no tempo.
Na concreção da história, pois, o Estado é universal,
definindo-se como conceito de liberdade.
Por
outro lado, já pode ter sido notada a decalagem entre os dois
conceitos nucleares que tratamos acima, o heroi e o espírito do
povo, não obstante o trecho hegeliano os tratar como uma realidade
só. É verdade que Hegel não
protesta contra a classificação da sua
filosofia da história como "teodicéia,
uma justificativa de Deus" em
termos da postulação de um
"objetivo final do mundo", que pode ser pensado
como a realização da sabedoria eterna, a verdadeira vitória do
bom contra o ruim.
(p. 60, 1).
Já
vimos que assim Hegel importou para a história o
procedimento de alegoresis,
que havia sido o meio da
potencialização da filosofia aristotélica a Leste.
Mas isso
não implica que a história
hegeliana pudesse como gênero
textual ser reduzida à epopeia, a
Poética antiga em que o heroi mítico é personificação do
espírito do seu povo, sendo o próprio tema a consolidação mítica
da etnia por meio dos feitos do seu deus criador. Os
herois são expressamente designados "personalidades da
história" (p. 119), e o
espírito dos povos, tornando-se dialética dos princípios nacionais
em termos de "transição e ligação dos espíritos nacionais",
sucessividade das formas de Estado que cada um deles protagonizou
como introdução sua na história, não
é a personificação de um povo como de um heroi,
sendo contudo agora designada
o "conceito de história do mundo" (p. 123).
Assim
aqui vemos a dificuldade, pois o universal,
o rumo ou princípio do desenvolvimento,
que coíbe o imperativo de
articulação como autonomia de
cada uma das formas,
ao mesmo tempo desdobra justamente essa autonomia.
Ela é o que cada povo
realiza a seu tempo,
e o sentido transpessoal da individualidade do seu heroi.
Há
com efeito uma tensão entre a teodicéia, em que uma sabedoria
espiritual se realiza através da história, de
modo que seu objetivo é o que se define como o "objetivo
do mundo" (p. 60, 1), a vitória contra o negativo; e a
designação deste objetivo como curso "autodeterminado" do
mundo ele mesmo (p. 115).
Nessa segunda
acepção, Hegel estabelece o seu conceito de desenvolvimento como
"processo gradual, uma série de diferenciações cada vez mais
reais, resultantes da ideia de liberdade". Esse conceito é
comum à lógica e à história, mas nesta "se mostra que ele [o
princípio de desenvolvimento gradual] é autodeterminado, que assume
formas sucessivas a que vai sucessivamente transcendendo" e
desse modo "obtem uma forma afirmativa, cada vez mais
enriquecida, mais concreta e mais determinada". O trajeto é
pois do imperfeito ao perfeito, do menos ao mais. Porém, Hegel
especifica: "cada fase, sendo diferente da outra, tem o seu
princípio característico e preciso. Na história, o princípio é a
diferenciação do Espírito, é um epírito nacional particular."
O espírito do povo não é tipificado na personalidade do heroi
que muda as coisas de modo que por ele aquela nacionalidade ascede ao
estatuto de introdutora de algo novo na história, mas sim nos
"traços comuns de sua religião, sua constituição política,
sua moral, seu sistema legal, seus costumes e até de sua ciência,
sua arte e sua habilidade técnica".
Não basta a famosa
causalidade estrutural, a meu ver, para lidar com a dificuldade
presente. Por esse tipo de explicação, que serve desde a exegese de
Spinoza até as de Freud, Marx e Nietzsche, há uma proliferação de
níveis independentes, que porém são todos justamente níveis "de"
uma realidade totalizante como o imperativo estrutural que os reúne
como sua "nervura" na expressão de Chauí. Já houve quem
considerasse que a leitura estruturalista de Hegel por Kojéve é que
desencadeou a série de revisões dos estruturalismos avant la
lettre, de Lacan sobre Freus, Althusser sobre Marx, etc. Parece-me
porém que a autonomia dos princípios nacionais não tem sua
complexidade conceitual redutível assim, apenas ela é abstraída,
para efeitos de condenação - ou salvação - do hegelianismo, numa
base injustificável de redução pelo intérprete munido do sistema,
de toda história a si mesmo. Nela só se salvariam aqueles
para quem se pudesse assinalar a posição passadista do precursor -
ou, para uma sincronia algo hipócrita, de arauto que já o disse mas
não tudo. Tratar a questão em torno da complexidade me exime de
qualquer preferência pelo "funcionalismo".
O cerne da
dificuldade é pois este. Não há qualquer razão para que a noção
de "fase" se reduza à de "povo" como
"nacionalidade". O requisito do heroi hegeliano não pode,
é certo, ser reduzido a um mero caudilhismo, e Hegel é mesmo o
referencial do split de público e privado na história das ideias
políticas. Porém a personificação das fases do desenvolvimento em
espíritos nacionais, com base unicamente no critério da novidade, é
claramente petição de princípio, não explicando o que pretende
estar definindo. Uma vez que, tendo definido a nacionalidade como
fez, a totalidade de cultura de um povo, para que a novidade
histórica que aí surgisse fosse definida em função do espírito
desse povo, ou imperativo de sua autônoma articulação interna,
seria preciso que a novidade já fosse inerente ao espírito do povo
antes dela surgir, como caráter distintivo da nacionalidade
relativamente às outras em que, se assim fosse, a novidade não
poderia ter surgido.
E que Hegel
raciocina segundo este círculo lógico, parece evidente pelo que ele
diz da novidade: "Somente as mudanças no reino do Espírito
criam o novo. Esta característica do Espírito nos permitiu afirmar
que no homem há uma aspecto totalmente diferente da característica
da natureza: um desejo voltado para o aperfeiçoamento".
(p. 105)
Mesmo que Hegel
tenha pensado a biologia evolucionista, ele a distingue bem do seu
princípio de desenvolvimento histórico, por ser este só
teleologicamente orientado. Mas Hegel se conscientiza logo de que
assim cria uma dificuldade, já que o protesto não viria apenas
daquelas religiões e Estados como o feudalismo católico, que não
quer mudança alguma na história, como também dos ciosos do fato de
que nesta "o melhor, o mais aperfeiçoado a que se pressupõe
chegar é algo inteiramente indeterminado". Não podendo de
direito haver decisão sobre "se as mudanças, revoluções e
destruições" não sejam apenas devido a "acidentes,
descuidos e em espeial à licenciosidade e às paixões maléficas
dos homens".
Hegel nesse ponto
não refuta propriamente a hipótese - ou ao menos é assim na
espécie de fichamento que resultou como tradução - mas apenas
reitera que "o princípio do desenvolvimento implica ainda",
além do haver das mudanças históricas, "que isso esteja
baseado em um princípio interior, uma potencialidade pressuposta,
que se esforça por existir", e que, como "determinação
formal é essencialmente o Espírito - cujo cenário, cuja
propriedade e cuja esfera de realização são a história do mundo",
definida "absolutamente determinada e firme" contra toda
"ação externa dos acidentes". (p. 106)
O que Hegel faz
na sua reiteração, em vez de refutar o caráter circunstancial da
movência histórica, é antes um curioso retorno à natureza, agora
para salientar que também os organismos naturais devem
desenvolver-se da infância à maturidade, e que a diferença de
natureza e espirito reside só em que o desenvolvimento deste é
dialético, ambos sendo , em todo caso, "transformar-se
naquilo que é potencialmente".
Isso significa
que, com o Espírito, "a transição de sua potencialidade para
a realidade é mediada pela consciência e a vontade". Mas
também algo ulterior, que resume a dificuldade verificada. Pois se a
"finalidade" na história é aí definida, "o Espírito
em sua essência, o conceito de liberdade", quanto a este
"objetivo fundamental e, por conseguinte, o princípio
orientador do desenvolvimento" histórico, pelo qual este
recebe "um sentido e um significado", é "um resultado
de conteúdo inequívoco" (107). A saber, em Roma não se luta
pelo espírito, ou pela liberdade, ou pela finalidade, mas "na
história romana, Roma é o objetivo e, assim" só, sentido e
significado podem tornar-se "o princípio orientador da
investigação de acontecimentos passados. Ao mesmo tempo, os
acontecimentos se originam desse objetivo e tem um significado e um
conteúdo apenas com referência a ele".
O corolário é
ainda algo contraditório. Após o parágrafo que já vimos, da
menção honrosa aos períodos da história do mundo que naufragaram
sem o menor grau de desnvolvimento não importa quão grandiosos
tenham sido, Hegel conclui: "portanto, a história do mundo
representa as fases no desenvolvimento do princípio cujo conteúdo
é a consciência da liberdade." (grifo dele) Aqui, pois, o
encadeamento da logica, fenomenologia e história: "A análise
de suas fases pertence geralmente à Lógica. A de sua especial
natureza concreta pertence à Fenomenologia do Espírito". Se
aqui ele não menciona na sequência a história, como subentende-se
que devesse ser, mais à frente (p. 115), quando trata
especificamente o significado de nacionalidade ("o princípio de
um povo"), ao contrário, fala do desenvolvimento como vimos, em
termos de um processo gradual cuja natureza dialética pertence ao
estudo da Lógica, e "aqui", na história, a demonstração
de sua autodeterminação, não se falando pois, na Fenomenologia do
Espírito.
Ao mesmo
tempo: da origem do objetivo e
do significado e conteúdo do mesmo objetivo; de
Roma como o objetivo,
e do conteúdo como a consciência da liberdade. E
quando nos detemos nas considerações de Hegel, constatamos que na
verdade o que ele diz da Macedônia, de Roma, etc., é apenas a
história grega projetada
como a razão virtual dos feitos que à
generalização dela mais se
assemelham - vimos acima que ele o expressa textualmente
quando falava de Alexandre. Repete inclusive a implícita assertiva
ao tratar "o princípio de um povo".
Aí, desenvolve a
ideia do Estado que se forma, assim instruindo sobre a qualidade que
devemos encontrar em qualquer povo que esteja em vias de o criar em
seu seio. Aparentemente a expressão é singularmente circular. O
povo só cria o Estado quando já está num patamar cultural elevado,
é capaz de generalização conceitual e exibe "todas as fases
do desenvolvimento intelectual" tendo atingido "um grande
amadurecimento quando ela chega à reflexão abstrata e universal - o
que faz quando se forma em Estado". Essa "base" da
cultura formal é considerada suficiente por facultar "a compr
eensão ponderada e a universalidade abstrata, não apenas em leis,
mas em tudo". (p. 120) Porém ele deduz imediatamente que é
"quando os homens se unem em Estado" que "surge a
necessidade da cultura formal".
O desenvolvimento do
trecho esclarece. Hegel pensa do seguinte modo, ao invés de uma
contradição grosseira a propósito. A base da cultura formal
precede a formação do Estado, porém assim que esta é o caso, um
outro nível se levanta como necessário à vida do Estado. Por
exemplo, a poesia pode existir antes do Estado em um povo
determinado, porque ela "tem menor necessidade de exigências e
recurs os externos e tem como seu material um elemento natural, que é
a voz humana...". Hegel antecipa Jespersen, ao considerar que as
línguas foram muito ricas antes da civilização, que geralmente as
simplificam por exigência de maior praticidade do uso. Mas a
tendência é para o desenvolvimento da complexidade da inteligência,
assim filosofia, ciência, belas artes tecnicamente elaboradas, são
típicas da civilização, afins à vigência do Estado.
Ora, assim pode-se
esperar que o nível daquilo que já existia antes mude e também se
eleve logo que se torna o caso dessa vigência. É na discussão
desse ponto que vemos Hegel repetir a sua visão grega da história
dos povos.
Ele não leva a
sério a "crítica estética pretensiosa" que pretende
encontrar só na "forma bela ou na grandeza de imaginação"
a regra do gosto (p. 121). Se todos os povos tem "a poesia, as
belas-artes, a ciência e mesmo a filosofia", é o conteúdo que
difere entre eles, e "este conteúdo diz respeito à maior das
diferenças, a da racionalidade". Compara em seguida, os épicos
indiano e homérico. Ou melhor, simula comparar mas apenas almejando
fazer ver que não tem comparação.
Se os primeiros
estão "no mesmo nível dos homéricos devido a muitas
qualidades formais como a grandiosidade criativa e inventiva, a
vivacidade de imagens e emoções, a beleza da diçção, resta a
inda uma infinita diferença de conteúdo e, portanto, o essencial".
O que resta assim é nada menos que "o interesse da Razão",
em Homero voltado ao "conceito da liberdade e sua expressão e
desenvolvimento nos indivíduos. Não é apenas uma forma clássica,
mas um tema clássico." E não há outro: "O conteúdo e a
forma estão ligados tão intimamente num trabalho de arte, que o
primeiro só pode ser clássico até o ponto onde o último o seja".
O mesmo ocorre com a filosofia, que Hegel nesse ponto registra com
algum detalhe a propósito do Oriente, que não diferencia a
princípio do Ocidente ante-moderno, referenciando expressamente a
coincidência entre a filosofia chinesa. os gregos eleatas e o
sistema de Spinoza (p. 118, 121). Porém, mesmo que muito se pudesse
elogiar da China, como da Índia, elas não tem de modo algum
"consciência essencial do conceito de liberdade" (p. 122),
e a coincidência com a filosofia ocidental é só aparente - ou
limita-se ao classicismo ante-moderno, como antes aventei, isso não
fica claro.
O trecho
específico sobre "a dialética dos princípios nacionais"
apenas reitera o que já vimos, a saber, que eles se sucedem. A
razão, novamente, é apenas estabelecida pelo conceito da liberdade,
que dogmaticamente é estabelecido como o que transita na sucessão
de um povo a outro como referencial de um presente dado na história
do espírito. Manifestamente esta se encontra de todo instalada nesse
presente absoluto que é o do historiador e/ou do estudante da
história. O fruto maduro do trabalho do povo é o desenvolvimento de
sua cultura até o ponto em que ela se torna reflexiva, o Pensamento
desabrocha na aptidão dele em expresssar-se, assim como na
dramaturgia e a filosofia gregas está bem caracterizada a vida
grega.
O que exatamente
se sucede na sucessão de um povo a outro na história do espírito,
não chega a ser definido. Primeiro porque, quanto ao regime político
ideal, o texto de Hegel é voluntariamente ambíguo, repetindo o
propósito do Espírito das Leis, de Montesquieu, que havia sido a
adequação do regime ao espírito de um povo determinado, não
havendo generalidade a defender. Ao contrário de Platão e todos os
ideais educativos dos príncipes, não se trata na modernidade,
segundo Hegel, de constituições que reflitam a índole de
indivíduos. O "conteúdo"já é o conceito de sociedade
como conjunto de "instituições orgânicas" (p. 96). Hegel
expressa que em todo caso se compreendia já que República como "a
única constituição justa e verdadeira", e altas posições
integrantes de monarquias estavam inclinadas a essa opinião, mas
também que havia-se feito ver que a constituição monárquica como
mais útil. Repete em seguida a progressão de patriarcado,
aristocracia e democracia. Mas a essência do governo de Estado é
união do universal e do particular, sendo a origem a dominação e
a obediência instintiva. Assim aqui, em que se trata de especificar
isso, após a progressão emenda Hegel que "o fim é a sujeição
desta particularidade sob um poder" que deve uni-las, de modo
que sua natureza "deve ser monárquica". Em todo caso, "o
Estado é liberdade racional e consciente, conhecendo-se
objetivamente".
Há um segundo meio pelo
qual Hegel logra evitar o que seria necessário dizer, o que
exatamente os povos deveriam entender como a "liberdade". O
mistério se vislumbra, pois ela é o que passa de um povo a outro
após apenas cada um deles ter conceituado para si mesmo o que por
ela entendia - não sendo razoável que aquele que sucede o tenha
feito por ter tomado lições de cultura com o primeiro, já que se
trata, na realização da liberdade de um povo, dele ter
podido expressar conceitualmente o fruto do seu trabalho como
sua cultura. Assim ele se pergunta, após ter mais uma vez
comparado o desenvolvimento do espírito com os organismos, mas desta
vez o gênero natural sendo exemplificado com uma planta, e nem
salientando-se o caráter dialético apenas do espiritual. Um povo
chega ao apogeu e já se acomoda com a realidade, renunciando
projetar objetivos remotos que, realizáveis ou não, o
impulsionariam a mudanças. Ao invés, agarra-se à rotina como ao
seu bem precioso. Porém pode ser que ele quisesse mais -
obviamente. Mas a essa hipótese que nada impede, Hegel apenas
responde com uma pergunta - "mas onde estará esta coisa nova?
Ela seria uma ideia mais universal, mais elevada de si mesmo, uma
ideia que transcendesse o seu princípio, mas precisamente isto iria
manifestar a presença de um espírito mais amplo, um novo espírito",
e, axiomaticamente, "novo" não é a palavra aplicável,
senão ao outro povo que toma o lugar daquele. O "mais amplo",
pois, por algum misterioso motivo, é e não é o "novo",
pois se apenas fosse, não vemos porque um povo não poderia se
desenvolver mais do que já fez, e pelo contrário, esperaríamos que
fizesse. O que é o novo? Hegel jamais responde a essa pergunta. O
povo que deixou de ser o protagonista no palco da história, morre
naturalmente suicidando-se, porém isto é como ocorre com o
indivíduo, assim que aconteça um nascituro aporta ao mundo e nada
muda para a eternidade do espírito que continua, e para a espécie.
Só não coincide perfeitamente com o indivíduo pelo fato de, ao
contrário da possibilidade de morrer de velhice, antes suicidar-se -
pois "existe como uma classe", carregando "em si a
sua própria negação". Expressamente segundo Hegel, um povo se
extingue por suicídio, nunca por ser derrotado por inimigos de fora,
que caso existirem, apenas completariam o processo de extinção -
ele exemplifica com a Alemanha do antigo regime imperial.
Ora, o segundo meio
de evitar a resposta à pergunta crucial sobre o novo, é invocar
Zeus e parodiar o mito hesiódico das idades sucessivas. Logo depois
da idade de ouro que corresponde ao primeiro reinado de Cronos,
aparece Zeus , junto com o seu círculo, Atená que saiu de sua
cabeça, Apolo e as musas. Zeus devora Cronos, o pai que
devorava os filhos entre os quais Zeus mesmo. Este, poi s, "é o
deus político, que produziu um trabalho moral: o Estado". E
neste trabalho, o fruto, o Pensamento. As coisas se desenvolvem de
modo porém que assim que a Razão amadurece - Hegel reproduz aqui
algo que lembra a Fenomenologia do Espírito, chegando até a virtude
abnegada, e, depois, à consciência de si transcendental com as
distorções características até a Razão madura do saber absoluto
- ultrapassa ela a Zeus mesmo, que devora. O raciocínio e o
pensamento se tornam independentes, valendo por eles mesmos.
O símbolo
hegeliano nesse relato é expresso como a negatividade. Não é só
um povo que é negado pelo outro que o ultrapassa, é o pensamento
mesmo que nega, ao universalizar, a realidade concreta que ele
conceitua. Em todo caso o Espírito é o resultado de sua atividade,
mas o resultado é negação dela na afirmação do pensamento puro
acerca do que quer que ela tenha sido.
A meu ver, o
mistério da filosofia hegeliana da história, que podemos resumir no
enunciado circular pelo qual o novo é certo povo porque este povo é
novo, falsa apoditicidade da mera cronologia sobre a qualificação,
pode se aclarar não tanto por considerarmos o quão parcos eram os
conhecimentos disponíveis relativamente ao que temos agora. Ou que
assim eram mais ainda para quem se contentava com "uma espiada"
nisso ou naquilo - conforme a tradutora utiliza repetidamene a
expressão, embora seja complicado imaginar Hegel mesmo assim
expressando-se. Creio que o que realmente Hegel tinha em mente era o
quadro recente da independência das Américas, e que ele raciocina
com a intenção de por um adendo ao já arrolado como a antropologia
americana embutida na Teoria Política. Ele a estaria atualizando ao
por o contexto ao corrente dos fatos, imprevisíveis de Locke a
Rousseau.
O sintoma, nestes
últimos: por mais que as condições por vezes bastante rudes de
povos indígenas fizesse espanto, nada nelas era irredutível ao
estado sobejamente conhecido de alguns dos povos bárbaros que
destruíram o antigo império na Europa, e justamente o fator de
assimilação cultural seria o mesmo, o cristianismo. Não há porém
sombra de um critério de assimilação possível na Teoria Política
clássica. Ela não tem de fato legitimidade alguma para algo como a
História. Hegel está perante o fato da independência, a
civilização americana emergindo do trabalho dos americanos eles
mesmos. Será que podemos subentender o cristianismo como um critério
assim em Hegel? Será que podemos afirmar que a revolução
romântica da História, que emerge como o critério da formação
das nacionalidades europeias pela miscigenação, e sobretudo
miscigenação da língua/cultura, serviu de base para tornar
inteligível o acontecimento da independência, ou foi o contrário?
Esse acontecimento avizinhando-se, serviu de amostragem para o
fundamento da miscigenação como revolução epistemológica?
Em todo caso, é
só a independência americana, visivelmente Estados sendo gerados, a
partir de um conjunto de povos longamente subsistentes e por um tempo
considerável dominados pela colonização escravista, que
justificaria o cristianismo como algo ulterior e novo relativamente a
Roma, do ponto de vista estatal. Hegel
estava por certo seguro de ser entendido por seus contemporâneos.
Para todos eles, não haveria dúvida alguma na asserção de um
espírito nacional " novo ", exemplarmente
as Américas, emergindo da colonização por processos incoativos a
todo já conhecido no Velho Mundo.
Marx mantem esse
quadro, e vimos que Hegel mesmo já havia se expresso em termos do
Pensamento auto-reflexivo como fruto do trabalho como conteúdo nele
refletido. A dialética dos espíritos nacionais é transformada,
pela precedência da praxis material, na dialética dos modos de
produção. O princípio do novo continua o mesmo - não há
regressão possível na história, o que cria problemas consideráveis
para tratar como um "modo de produção asiático" todo a
riquíssima polifonia de regimes e Estados da Antiguidade conhecida,
assim subsumível a algo "anterior" qualitativamente à
pobreza deplorável correlata à mania ignorante do catolicismo
feudal. A América, mais precisamente os Estados Unidos, é o tema
preferido de Marx e sua nação de eleição manifesta - assim
sendo, compreendemos porque não tinha muita simpatia com a Rússia,
que considerava uma das mais atrasadas nações (mezzo) europeias.
Marx considera os Estados Unidos tanto assim por exemplificarem às
mil maravilhas todos os princípios do progresso individualizante
protagonizado pelo capitalismo na história, que ele mesmo estava
conceituando.
Nietzsche já não
perpetua o mesmo quadro. O mito paródico do Zeus hegeliano é
literalmente repetido por Nietzsche e a base do seu grecismo - tal
que ele possa embutir Dionísio, numa trajetória em zigzag, a
contrapelo do continuum formado virtualmente por Zeus e a Metafísica,
vulgo cristianismo.
Mas se esse
detalhe dionisíaco factualmente muda tudo, na época de Nietzsche
efeitos como da guerra do Paraguai, francamente imperialista, já
não passavam despercebidos. O neocolonialismo afro-asiático estava
começando. A "Conferência de Berlim", ponto máximo da
partilha da África, da qual participaram quatorze países europeus,
Estados Unidos e Russia, ocorreu em 1885, quando Nietzsche estava em
pleno período produtivo. A França já estava desde 1830 no
Marrocos, e o dito de Say de que as Américas, excetuando o Norte,
configuravam colônia inglesa já era realidade. Em torno desse mesmo
ano podem ser localizadas as principais oficializações de carteis
predatórios de mercado que atuam até hoje, e que serviram de modelo
para as que se generalizaram depois. O postulado marxista da
individualidade como efeito do modo de produção, a pessoa do
capitão de indústria como indivíduo exemplar, de modo que até a
sociedade por ações pudera ser tomada como mero recurso arcaizante,
tornava-se mito. Compreende-se que o assassinato do tzar Alexandre,
em 1881, já se fez por autoria de grupo com influências
anarquistas.
Os trustes e carteis
que se formaram desde essa época a base formal das economias
totalitárias, nazi-fascistas, e informal em países de polícia
liberal, cujas providências contrárias porém, após o período
áureo do pós-guerras devido ao processo de destruição daqueles
oriundos dos perdedores totalitários, vem sendo espantosamente
refreadas nas ditaduras seguidas de "neoliberalismo econômico"
e "globalização". Estudos tem sido feitos para averiguar
a continuidade dos carteis aparentemente destruídos, devido ao fato
deles serem ramificados com parceiros de países liberais. O Japão,
integrante do bloco nazi-fascista na guerra, país que é atualmente
uma das gigantescas potências industriais da globalização devido
a ajuda para reconstrução por parte dos Usa, teve a sua
industrialização original totalmente estruturadas por estrutura
oligárquica de carteis.
Não era já
possível na época de Nietzsche crer na figura do progresso nas
Américas tal que a colonização, genocídio dos povos americanos,
podia ser "suprassumida" para galantemente se exemplarizar
a escravidão dos que sobraram, mais os negros aportando forçados da
África, na figura da consciência emancipadora universal.
De fato isso é
sempre menos possível, dado que a regressão como efeito da
dominação do imperialismo no "terceiro mundo" implica a
axiomática da ausência programada de Estado, não importando o quão
consolidado já estivesse: destruição ativa dos trabalhos nacionais
de civilização para domínio neocolonial conspícuo, às claras
mesmo na América via "globalização", que significa
neoescravismo diretamente implementado como pilhagem cínica, atuação
anticonstitucional conspícua, a nível de governo amoldado a
multinacionais que tornaram a ocupar territorialmente o que até aí
eram nações oriundas da independência. Já nesse quadro, assim
também em nações oriundas das guerras de descolonização
afro-asiática, em meios do século passado, de que os USA
participaram apoiando as metrópoles europeias ou ditaduras de
minorias venais, até nazistas do partido, com a finalidade de
impedir a opção local pelo socialismo, na verdade, opções que
eram inicialmente apenas nacionalistas, democráticas e
representativas.
O interregno de
vandalismo sádico diretamente instituído contra os corpos
representativos da inteligentzia nacional, uma das barbáries mais
sanguinárias da história, que foi a ditadura das décadas recentes,
desaguou num cenário de ainda piores abusos, na dessovietização do
mundo desde os anos noventa até agora.
A dominação
virtual de toda produção escrita pelo "personal computer"
imposto por todos os aparatos institucionais e mercadológicos de
acesso cultural, está atualmente "mediado" por ausência
total de legislação tal que, além da intrusão virtual
possibilitada pelo aparato industrial, que impede o conceito mesmo de
legalidade; empresas de bandidagem telecomunicacional, como a
desgraçada Claro, como outras, de que todos dependem para acesso a
redes que fazem a interface dos mundos do trabalho e social, contam
com favor do governo para atribuir qualquer débito, a qualquer
pessoa, a qualquer momento, fazendo tortura psicológica pelo
desrespeito a qualquer referencial acordado com o cliente, que tal
empreendimento de vandalismo modifica sistemática e arbitrariamente,
sem precisar provar para efeitos de cobrança judicial.
A regressão
psicossocial imposta para obter regressão do ciclo demográfico,
diminuição conspícua da esperança de vida, com padrões ridículos
de suserania infantil sendo impostos com todo o absurdo que se pode
imaginar de uma tal projeção de dominação patológica, com a
ressalva de que serve apenas à desmobilização da resistência
possível assim como da reconquista do desenvolvimento possível,
implica hoje o desmantelamento de qualquer identidade
capitalismo/progresso psicossocial, mesmo dialético.
Roubo de salários
públicos, roubo de verbas para manutenção dos serviçois públicos
básicos, megafavelamento, mentalidade de prostituição infantil
generalizada - tratam por "criança", isto é, sujeito de
privilégio, a toda jovem paralelamente ao desrespeito flagrante dos
direitos da população adulta ou idosa - redução da população a
bordel de capital estrangeiro, imposição de domínio de grupos
ligados ao capital estrangeiro, contaminação de todo o mercado
nacional por grupos demagógicos fascistas que treinam comerciários
e atendentes para abuso direto da população, contaminação de
todos os partidos de direita e esquerda pela corrupção
nazi-fascista-capitalista, utilização de mídias (revistas,
jornais) de massa para propaganda hitlerista, ditadura
info-midiática que passa a fazer total censura a veiculação de
qualquer produção cultural letrada, inclusive na própria escola,
etc., são conspícuos, além da já mencionada invasão total da
privacidade com aparelhos fascistas ilegais instalados
clandestinamente na vida privada sem qualquer constrangimento da
autoridade constituída. Imensas regiões antes em desenvolvimento,
com belas constituições democráticas organizadas por
representantes legitimamente eleitos no fim da ditadura, estão na
"globalização" sem sombra de racionalidade ou burocracia
legal, atuando como já enfatizei, por meios ostentosos
anticonstitucionais de corrupção, fraudes, opressão e
desinformação.
Não se pode
atribuir a bandidagem conspícua do capitalismo, além da ideologia
suja circulando na mídia em nível de massas com finalidade de
perversão de todos os horizontes dos direitos humanos legalmente
constituídos, deploravelmente apenas a ação dos carteis, modo de
atuação ilegal há muito conhecida. Já está comprovada a atuação
direta dos governos de potências industriais "centrais",
isto é, colonizadoras, e os USA, na imposição por via suja das
ditaduras recentes.
Assim a destruição
de nações civilizadas pelo capitalismo predador de carteis
"neoliberais" como condição de subdesenvolvimento,
capitaneado por governos sujos apenas testas de ferro das oligarquias
cartelizadas que os comissionam, especialmente oligarquias do
business midiático, contra os interesses expressos dos próprios
cidadãos dos seus países ou mesmo de profissionais de
informação idôneos, já não tem respaldo algum de
êmulo desenvolvimentista até que o "atraso" - reputado
aos próprios predados por sua condição de origem não "grega"
- fosse superado para efeitos de produção local de saber. O
planisfério assinala apenas a dualidade de norte desenvolvido e sul
subdesenvolvido, a reserva de saber tecnológico do norte - na
verdade, a imposição de tecnologia perniciosa sobre os mercados
ocupados territorialmente ao Sul - já não sendo possivelmente
condição reprodutível alhures.
Fim da modernidade -
como da gesta dessa reprodução possível, a impostura do
imperialismo cum dominação cultural por teorias neuróticas
do "progresso" industrial. Já sabemos que a revolução
industrial depende da guerra à revolução industrial independente
com relação ao imperialismo. Já sabemos que não há qualquer meio
de negociação além da violência física contra o abuso,
eliminação das cabeças que os atuam ou representam.
Mas Nietzsche não
chega até aqui, nada antecipa do verdadeiro estado de coisas, senão
uma mentalidade bastante afim ao fato do neocolonialismo que
inviabiliza a dialética urdidura sob a trama. Assim compreende-se
sem muita dificuladade a reentré do escravo, quando pela modernidade
a escravidão já havia sido abolida na, e como a, História.
Não se deve atribuir
realmente a Nietzsche integração ao partido nazista. A carta à
Elizabeth, sua irmã, de 1887, registra bem o repúdio de Nietzsche
ao anti-semitismo, assim como ao partido - que ele considera nada
favorável à própria personalidade da irmã, não obstante ela
estar seguindo a inclinação do marido, chefe anti-semita. Nietzsche
aí testemunha a própria impotência, que o fez adoecer várias
vezes, de fazer frente às suspeitas despertadas contra ele, como se
renegando em público algo que favorecesse secretamente - não tão
secretamente, se os seus escritos atribuem os judeus como a antítese
da bela Roma, capital da aristocracia, etc., e assim aqueles como a
origem do ressentimento.
Desculpa a irmã,
por não ser ela responsável pela orientação do partido - que ele
pessoalmente detesta, não obstante se utilizar frequentemente do seu
nome. Mas não será a razão desse ódio, não apenas o
anti-semitismo? Quanto a este de fato, em Nietzsche não se segue que
a caracterização da origem possa se sobrepor à do estado de coisas
atual, como aliás em qualquer teoria do desenvolvimento o essencial
é a decalagem do instinto inconsciente e conteúdo da consciência.
Em todo caso, o que pode ter incomodado tanto mais é a constatação
de algo efetivo contrário a todas as previsões nietzschianas da
diferença de natureza entre sua doutrina e mentalidade populista.
Porém nada é tão visível quanto que esta é agregada pelo
aristocratismo - cada um acredita que seu lugar é designado por
Deus, a ordem social e o partido que já expulsaram toda alteridade
de opinião possível, e a propaganda cuida para que o lugar não
importa qual seja alucinado como da força, da superioridade, da
conquista, como o provam as ideologias do business de mídia sobre o
vencedor, quando se trata por exemplo do modo pelo qual se cobrem os
eventos do esporte. Pode ser até que a Nietzsche não repugnasse o
partido nazista sem o anti-semitismo, apenas como ideologia do poder
aristocrático dominando. Nazismo sem anti-semitismo, eis a fórmula
do "poder" info-midiático imperialista desde a guerra
fria, quando o nitzscheísmo também se tornou preponderante como ala
estruturalista.
Nietzsche não era
de fato nobre nem analisou o meio social da aristocracia, como faz
Marcel Proust com resultados bastante contrastante às previsões
nietszchianas, constituindo estas antes um estereótipo, e é risível
o modo como Nietzsche censura Rousseau por exibir oratória inflamada
contra o que invectiva, como signo de plebeísmo, sendo isso mesmo um
recurso tão frequente utilizado por Nietzsche.
Ora, é somente "em
consequência" ao fato de Forster, o cunhado, não ser como a
irmã diz, apenas "o colonizador", mas "aos olhos do
mundo" na verdade "o chefe dos anti-semitas", que
Nietzche interdita o projeto de batizar "friedchsland" ou
"Friedrischshoft", em homenagem a si, a colônia germânica
fundada por Forster no Paraguai. Na carta não há qualquer traço
contrário ao colonialismo. A preocupação única de Nietzsche - ao
menos conforme o texto que disponho - é que não o confundam com o
anti-semitismo que ele designa, independente da questão de Forster,
em si mesmo um "partido".
Ora, na reentré
pelo nietzscheísmo, o escravo vem no negativo, a escravidão cujo
definiendum hegeliano abrange o projeto mesmo da libertação, não
se trata com o nietzscheísmo de qualquer protesto contra o que
obviamente é o semblante puro do capitalismo, o aparelho regressivo
da neurose aristocrática. O escravo, eis a tipologia do
ressentimento, porquanto só se atribui algo de bom, em decorrência
de ser o oposto do senhor, conforme Deleuze sobre Nietzsche. (op.
cit. p. 99) O pivô da inversão consistindo na atribuição de um
valor como reação a outro, em vez de, conforme faz o senhor,
atribuir um valor a si por si mesmo - e por aí, ao outro como
contrário de si apenas em decorrência do que se é. A meu ver é
difícil descerrar algum caráter não totalmente trivial nisso, na
medida que se alguém é escravizado, a situação por si mesma induz
à formulação concebida, não havendo trabalho do espírito nela.
Ainda que Deleuze considere-o a fórmula mais importante em termos
de ensinamento nietzschiano.
Nem se trata de
qualquer novidade relativamente à estrutura ocidental dessa neurose
da superioridade aristocrática, como a superposição de mérito e
prerrogativa de posição, duas coisas imisciveis mas de cuja
diferença nunca se fala - o ocidentalismo consistindo
em"transmutá-la" a estatuto de motor da evolução à
liberdade verdadeira, fazê-la nesse estatuto a essência do
Ocidente.
O grecismo
dionisíaco já vimos com Mondolfo, o quanto, em termos de novidade,
é uma aplicação do conceito de cultura revolucionado pelo
Romantismo, que a interpretou como um conjunto coerente, integrado do
ponto de vista da língua e da história. O romantismo criou de fato
a Idade Média como a conhecemos hoje, seu interesse na miscigenação
formativa das nacionalidades desmentindo a versão vulgar de si como
apenas a propaganda da Santa Aliança.
Nietzsche participa
da criação, pós-positivista, da Renascença. Vemos como o grecismo
é agora suposto não suplantado pelo cristianismo, para a mesma
versão de berço da razão científica. O fenescimento do divino na
Razão, que Hegel testemunhara, Nietzsche o repete porém com outro
alcance. Não se trata apenas de que a vontade de verdade que o
Cristitanismo populariza, e que Sócrates na Grécia não-dioníaca
de algum modo antecipa, resultou no contrário da fé possível, a
ciência positiva. Mas também do niilismo como o fenômeno histórico
que nenhum contraponto político vem ultrapassar. Assim Nietzsche
retoma alguns temas do pré-romantismo, enquanto cenário paralelo ao
Iluminismo, que em Hegel e os românticos já haviam sido
descartados, como o equacionamento da verdade ao útil às paixões
do homem, a preminência dos espíritos da Terra, a insatisfação
passional instintiva e ardorosa de Rousseau, que ainda não é a
"Sehnsusht" infinita do romantismo.
Muitos objetos da
acidez crítica de Nietzsche foram antecipados pelo positivismo de
Marx, como a crítica ao Estado como instrumento de dominação e a
pregação anti-religiosa, especialmente a crítica da "ideologia"
como veículo de interesses disfarçados de ideiais. Nesse elenco
vemos que mesmo se em alguns aspectos é correta a interpretação do
positivismo como simples retomada continuadora do Iluminismo, houve
mudanças consideráveis, o que é bem compreensível, só com o
século XIX havendo a estabilização do Evolucionismo.
A opinião pela
qual o Simbolismo é ele mesmo retomada continuadora do Romantismo,
carece de base interpretativa para várias transformações
importantes, especialmente na ciência, que foram responsáveis pelo
declínio do Positivismo. Em geral - se um desenvolvimento minucioso
a propósito se torna inoportuno ao nosso tema - podemos notar que a
suspeita da Razão que aflora nessa época, é de fato paralela à
crítica da razão instrumental que o romantismo antecipou. Contudo,
a suspeita simbolista está amparada pela própria ciência, ao invés
de corresponder à impactante descoberta romântica da cultura.
O que ocorre na
época de Nietzsche é bem irredutível a ter-se alcançado tamanha
confiança e unidade do conceito científico, de Kant em diante, que
o excesso transborda aos temas da cultura, emergindo as ciências
humanas com o Romantismo. Com o Simbolismo, e assim também
contrariamente ao Positivismo que confirmou aquela confiança mas
radicalizando-a para um só método fisicalista adequado a todos os
objetos, o que está havendo é a constatação do hiato
intransponível entre objetos científicos de áreas diferentes e
relativamente à Razão do senso comum. O entendimento kantiano já
não fornece categorias totalmente abrangentes.
Como Cournot
demarcou, entre várias críticas ao a priori do kantismo, a
categoria de substância é incompatível com a inteligibilidade da
luz. O probabilismo está emergindo, e o
método de relativização das categorias por níveis de apreensão
fenomênica a partir de
Cournot estabelece
epistemologicamente os limites entre
a matemática e a mecânica, a cosmologia e a física, o físico e o
biológico e o biológico e o social.
Esfacela-se a totalidade das cartografias positivistas que
consideravam cada ciência um nível da grande articulação do
Saber, assim como o objetivo comteano de regular do alto de alguma
ciência de abrangência superior como supunha ele a sociologia, os
limites dos níveis, uma vez
que a mescla de ciências como a físico-química e o
predomínio do cálculo de limites em matemáticas deixam de ser
esporádicos e se tornam centrais. Nas
matemáticas, está sendo substituído o modelo intuitivo pelo
axiomático. Há o surto das geometrias não-euclidianas, como de
Lobatchevski e Rieman, mas também a aritmetização da análise dos
domínios de definição das funções, até aqui limitadas pela
algebrização de Lagrange. Isso desnatura o conceito kantiano
como usual, do espaço como
forma do sentido externo. Ele se torna algo variável, gerado pela
axiomática que descreve seu domínio.
Grassmann
e Boole estão, concomitantemente, ampliando as fronteiras da
álgebra, aplicando-a a termos não-numéricos. A matemática, desde
os anos 1850, exibe os traços de uma descontinuidade fundamental,
como na teoria dos conjuntos de.
Cantor.
O
que as ciências descobrem estão em descompasso do senso-comum e sua
confiança na objetividade do mundo, e nem apenas pelo que enunciam,
como na constatação da entropia, mas na sua inteligibilidade mesma,
repugnando à
lógica.
Conforme o princípio
da conservação da força, de que Boutroux
cuidou
especificar os elementos irredutíveis à lógica do intelecto: o
princípio da conservação não nos fornece qualquer conhecimento
de essência metafísica superior à experiência. Ele supõe a
constatação de uma igualdade absoluta entre dois estados
sucessivos, o que é pela pura lógica, impossível. Supõe também
uma permanência na mudança, ou seja, uma mudança que não explica.
Mas observações desse gênero podem ser obtidas em todos os "graus
do ser", ou seja,
conforme a terminologia de Boutroux, em
todas as regiões autonomizadas do saber na modernidade
Mas o resultado do
Simbolismo, assim que ulteriormente desagua na corrente principal do
Modernismo, é desconcertante. A fragmentação da razão, que ocorre
porém como algo de todo ao contrário de qualquer abalo na
demonstração da eficácia da ciência, resultou numa nova
metafísica da Evolução, numa acomodação tal que inclui Nietzsche
e Heidegger, mesmo como críticos de toda metafísica.
A complexidade aqui
pode ser vista por isso que entre Heidegger e o neopositivismo
cientificista do Círculo de Viena, seria inexcedível o desacordo,
porém ambos são após Nietzsche os maiores críticos da metafísica.
Heidegger inclui o cientificismo nesta. O que é comum numa época
que assimilou a lição de Marx sobre a ciência burguesa de Smith e
Ricardo. Porém a ciência real continua oposta à "ideologia",
e se quanto a esta se encontra absorvida agora em algo maior como a
cultura, a oposição de ciência e cultura é um tema inerente à
guerra contra a civilização centificizada capitalista ocidental, a
ciência instrumentalizada sendo poder contrário à vida dos povos
como à pluralidade de culturas.
As discrepâncias
que verificamos podem contudo se tornar compreensíveis, ainda que
esteja bem longe da minha intenção considerar o período isento de
ambiguidade, sendo, pelo contrário, aquele em que a ambiguidade em
si se tornou um motor, porém não dialético, do pensamento. A
ambiguidade é o que a tessitura de textos marcados pela influência
dessa época ou oriundos dela mesma testemunha invariavelmente, e
Nietzsche a propósito é exemplar.
Ocorre que a
própria ambiguidade se estrutura de certa forma. O que chamamos
metafísicas evolucionistas, abundante floração da época de
Bergson, da qual ele é apenas mais um exemplar, são um reflexo do
retorno da cultura após o objetivismo positivista. Assim se mostram
algo bem irredutível ao que está sendo criticado por Heidegger e
outros em termos de objetividade supra-cultural quanto ao ente.
A "ideologia"
que a cultura desde o Simbolismo absorveu, é apenas parte do que a
cultura é, quando se entende ideologia como distorção dos valores
devido a um interesse particular disfarçado neles, mas em si mesma a
cultura é ideologia na acepção de irredutível a qualque causa
objetiva fora dela.
Em geral entendo
as irredutibilidades entre Romantismo, Positivismo e
Simbolismo/Modernismo de um modo estruturado a partir do contraste
entre o Lamarck dos românticos, o Darwin dos positivistas e as
metafísicas evolutivas que começam em Nietzsche para se
beneficiarem, logo depois, da descoberta da genética. Ou seja,
expressões da revolta contra o determinismo darwinista do meio sobre
os organismos. Conforme a minha apreensão, as rupturas entre esses
cenários são algo bem mais profundo do que apenas o que aflora como
a linguagem dos estilos em arte. Evito negar que estes sejam
importantes, mesmo compreendendo que possam parecer mais em
literatura do que em artes-plásticas, excetuando a vanguarda
modernista, mas meu propósito é expressá-los como efeitos da
mudança estrutural em vez de causas por si mesmos.
A estrutura de que
se trata aqui é o estatuto do objeto, a partir da mudança daquilo
que podemos considerar o Sujeito, a saber, o Ocidente em sua marcha
geoegológica de auto-delimitação a partir da disposição que ele
determina para o objeto, o primitivo, o terceiro mundo como a margem
anexada pelo imperialismo. Uma vez que o Ocidente, como para si o
Sujeito da História ou modernidade, é paralogicamente o locus da
entrada do sujeito na história, conforme já colocamos várias vezes
acima, a disposição do primitivo é a do objeto como outro. Na
neurose imperialista que reproduz a aristocracia antiga em novas
bases, como este estudo tem demonstrado a partir da raiz aristotélica
do discurso, a paralogia do outro é a identidade de sua diferença,
que passa ao estatuto de cópia do modelo ocidental para efeitos de
civilização, assim como porém, de origem relativamente ao
desenvolvimento como a mesma civilização.
O Romantismo é
estruturado pela ideia polissêmica, é ele mesmo a polissemia do
Real. As culturas que se descobrem em sua irredutibilidade, são
porém expressões de um "eu", como variações do mesmo
universal. A ironia é o meio em que opera a polissemia.
O que o triunfo da
ciência assinalou em termos da independência do imanente, o
Romantismo reinterpretou de modo sui generis, atalhando assim
o curso que iria por si só do homem máquina de Holbach e o homem
nervos de Diderot, a um reducionismo materialista. O eu romântico,
emergência do Sujeito pensável na história, se dotou da "carne",
mas emprestando-a sempre à realização da Ideia.
O positivismo
darwinista operou a redução materialista antes esperável, porém a
"matéria" do realismo é o lugar dos processos
deterministas universais, em vez da bem setescentista concreção dos
corpos individuais. A ideia objetiva do positivismo desloca com
acrimônia inigualada a polissemia romanticista. A mudança
antropológica da definição do primitivo, que desloca também a
noção de "eu" primitivo, lançando a origem na horda
promíscua semi-animal como referencial que perdura até hoje, produz
efeitos geoegológicos que poderiam ser interpretados em termos de
fases freudianas. A polissemia do eu romântico nas culturas formando
uma oralidade que a objetividade determinista dos processos
supra-individuais do positivismo desloca por um sadismo anal
conspícuo.
O racismo nascente
nessa época positivista pré-mendeliana, é o cerne do discurso da
vocação dos fortes - a raça branca, a ciência/indústria - ao
domínio. A inteligência é fruto da adaptação hemisférica, as
regiões dos trópicos produzem adaptação apenas pela força bruta.
Assim a
objetividade pan-determinista do sádico-anal positivismo não é
mero objetividade que se sabe conceito, relativo a um contexto, etc.
Antes é a passionalidade altissonante da iniciativa absoluta de um
sujeito cuja individualidade é apenas o correlato da onisciência
disposicional do objeto concreto. Comte e Marx são adeptos da
ditadura como meio de impor a verdade da ciência.
A agressividade é a
marca invariável do texto positivista, geralmente enraizada porém,
conteudisticamente, contra o "eu", o contexto
relativizante, assim como contra o passado a eliminar.
Se o romantismo
pensa a colonização como o superado, a temática da miscigenação
- que seria atualmente bastante oportuna contra os estereótipos da
"globalização" - se desdobra naquela da organização
social, o que funda o Estado de direitos civis, porém a paralogia
nascente aqui é o discurso do saber como realização (europeia) da
autoconsciência. O positivismo aprofunda a contradição mas de um
modo aparentemente votado a eliminá-la por completo.
O primitivo volta
ao seu estado imiscível, fase inconciliável com o futuro e a saúde,
porém como objeto da história ele é sem tardança o dominável.
Assim vemos o redobro da contradição. Ele é o superado na
totalidade, porém, como aquela realidade do mundo além da Europa, é
o que deve ser dominado pelo capitalismo para refazer a história da
evolução psicossocial e atingir a autoconsciência egoica.
Até bem
recentemente a aporia do marxismo na margem se ressente dessa herança
positivista, mas também a ela se devem os avanços culturalistas da
teoria marxista, que assim pode continuar fecunda após o
positivismo.
O futuro da
produção à Spencer lembra a gesta do homem total de "A
ideologia alemã" assinada por Marx e Engels. É o futuro das
consciências de si, do indivíduo puro, desobrigado de todos os
desvios oriundos da vigência, ainda, das determinações arcaicas.
Assim a ditadura é um meio, não um fim. O ego é o produto do
desenvolvimento, não o que se desenvolveu desde a origem. A
consciência é epifenômeno da técnica, sem esta, aquela inexiste.
O simbolismo
pratica a linguagem da transmutação. E efetivamente trata-se de
transmutar a "matéria", ela mesma já transformação da
"carne", agora pela noção de "forças". Ora, o
"simbolismo" tem um nome bastante apropriado, uma vez que é
o momento da descoberta de um outro tipo de determinismo, "nova
objetividade", a semiótica.
A descoberta da
autonomia do signo, entre a lógica algébrica de Boole, o
pragmatismo de Peirce, e a linguística de Saussure, é ao mesmo
tempo a de sua materialidade. O signo como veículo material, desloca
pois tanto o determinismo da coisa positivista, quanto a idealidade
do subjetivismo culturalista romântico.
É como o poema de
Pessoa, na radicalização modernista dessa "linguistic turn",
em que um acontecimento histórico tão objetivo como a fundação de
Lisboa, tem sua causa porém atribuída ao significante puro, o
Ulisses que nem mesmo é o do mito homérico, mas já o da variante
anônima, cuja origem se perde no tempo, da lenda - segundo a qual em
suas viagens Ulisses teria aportado à península ibérica e lá
fundado "Ulissipona" (Lisboa). A ausência radical do
significado é a meu ver a estruturação nadificante do poema, mais
propriamente que o jogo das oposições semoventes que Jackobson
discerniu.
A ambiguidade dessa
época é conspícua, assim como a dúvida do obsedado - mas aqui,
aquele que se fixou na fase da dúvida fálica em que o que obseda é
o vazio (im)-possível. O círculo hermenêutico eleva a dúvida ao
estatuto do pensável. O contexto não é a possibilidade positiva do
signo - como o será com o estruturalismo "genital" do
pós-guerras, quando as nações "em desenvolvimento" se
tornam o novo conceito de origem progressiva. Assim que foi
descoberto, o contexto semiótico é apenas a estrutura ausente, o
significado vazio, apenas efeito da irredutibilidade do "Ser"
- de que? De nada. Para que? Para nada.
A mais severa
irredutibilidade entre totalidades sociais discerníveis é o que
desloca a linearidade evolutiva do sádico-anal positivismo, por um
simbolismo em cuja metafísica evolutiva também não cabe o
progresso senão por eliminação do "passado". Mas ao
contrário do positivismo, não o vê com bons olhos.
Muito da absoluta
ambiguidade simbolista e da vanguarda pode ser sintetizado pelo
percurso a contrario, do tempo histórico do progresso
psicossocial. A origem, o meio e a finalidade, agora não são tres
termos consecutivos, mas deve-se juntar a origem e a finalidade pela
inteira transmutação do meio. O positivismo de Comte enuncia o
mesmo progresso ternário, entre o mundo mágico-religioso, a
metafísica e a ciência, como idades da história, porém se a
metafísica tem que ceder à era da sociedade científico-industrial,
ela não representa um recuo possível a seu tempo.
O simbolismo
pensa o estado intermediário como um recuo assim, o molde da
degenerescência de um processo que para se viabilizar teria que
refazer-se desde a origem. Mas o simbolismo europeu e a Vanguarda em
que ele progride, valorizam a origem apenas como magos dessa
trajetória alternativa, que se torna o novo meio da subversão, em
vez de por ela em si mesma.
Ao mesmo tempo a
origem e seu progresso; subsunção do discurso ao caráter
inultrapassável do círculo da interpretação e o saber objetivo -
não apenas a figura poética ou o medo supersticioso - de que o
círculo é a verdade inultrapassável. Ao mesmo tempo o "eu"
autônomo, porque o signo mesmo é autônomo e assim a história e a
objetividade; e tudo isso, como o meio sócio-cultural, sendo o único
referencial em que o "eu" tem sentido "para si".
O "modo de vida"
ficou sendo o conceito ambíguo que reune todas essas determinações
de fato bem extrínsecas umas às outras. Ele próprio ao mesmo tempo
a palavra de ordem do mais íntimo e do mais público, para a
fragmentação do político por ativismos puramente éticos,
"política do corpo", da "identidade", do
"olhar", etc.
O estruturalismo
do pós-guerra pode ser o momento da independência da estrutura
relativamente aos terrores do vazio da dúvida fálica freudiana -
escusado lembrar, pelo seu teor muito conhecido desde especialmente
Lacan: a oralidade é a fase do relacionamento com a mãe, o
sádico-anal é o período da descoberta da ordem paterna, a dúvida
fálica é a pesquisa sexual da criança a propósito do gênero
masculino e feminino, que culmina naquilo que para ela é traumático,
a descoberta da feminilidade da mãe, oposta ao que ela pensava ser
a universalidade da masculinidade do pai (falo).
A genitalidade,
em que a criança já compreende qual é o seu próprio sexo conforme
semelhante ao da mãe e do pai, porém recalcando em seu inconsciente
o terror da diferença e tornando-se consciente do mundo de relações,
é bem a compreensão saudável do contexto, numa época em que as
desconcertantes descobertas científicas estavam acomodadas num mundo
que celebrava o triunfo das democracias liberais em 1945.
Porém já nos anos
setenta as guerras da descolonização afro-asiática e o
comprometimento imperialista das super-potências em conflito, como
URSS e USA, ameaçaram os termos do compromisso do novo conceito de
evolução psicossocial, estruturalista. Este havia operado até aí
um recalque sobre o humanismo culturalista antes vigente, de modo a
restaurar a concepção do progresso linear, ainda que já sem o
racismo conspícuo, numa base apenas de liberação da ciência, com
um retorno da crítica da ideologia para algo aproximável ao que
agora se queria recuperar, à Althusser, como o conceito autêntico
de Marx. Ou seja, o objeto semiótico desde o simbolismo, se tornou o
objeto estrutural num ambiente em que a dicotomia primitivo
civilizado praticamente perdera a razão de ser, e, contudo, o que o
estruturalismo fez foi apenas a preservação mais consistente
possível daquela dicotomia.
A impossibilidade
geoegológica do Ocidente ultrapassar sua neurose despótica da
História - que não é a História propriamente dita enquanto
ciência, o que resulta como o liberalismo a partir da descoberta
real do outro, mas sim a dessientifização dela por sua
narrativização, a pseudo-ciência ou discurso do "progresso"
- fica assim caracterizada. As necessidades do processo político na
margem, que obrigaram a contestação do sócio-progressismo
estruturalista, resultaram apenas numa regressão ao funcionalismo
sócio-progressista da totalidade que muito prejuízo tem causado
como limite obsoleto, das esquerdas estereotipadas da
"globalização".
O pós-modernismo
como ruptura do sócio-progressismo e transformação do parâmetro
de desenvolvimento, para agora relacionar-se apenas à qualidade de
vida e autonomia das subjetividades, tem sido um ex-centramento real
nas ciências humanas e produção estética, porém a globalização
opera-se como recentramento sádico-anal, pelo retorno da objetivação
determinista do sujeito - subsumido à técnica info-midiática
imperialisticamente imposta contra toda heterogeneidade cultural e
autonomia subjetiva.
A recuperação
do Estado como universal das sociedades, porém não do ponto de
vista do conteúdo e sim enquanto forma local do split público e
privado, e em devir, tem sido o que o ex-centramento pós-moderno vem
tematizando como contestação política eficiente contra o
avassalamento protagonizado pela globalização.
Como vemos, esse é
um resultado bastante oposto ao processo culturalista que se iniciou
nos tempos de Nietzsche, como parâmetro de contestação à
dominação desumana de escala mundial que se tornou possibilitada
pelo capitalismo. A ambiguidade do período que o simbolismo
inaugura, é bem reportada em Nietzsche. Aqui evitarei a observação
minuciosa, devido ao constrangimento do espaço na publicação em
blog. Ressalto apenas a forma aporética da ambiguidade nietzschiana,
que contrasta com expoentes do modernismo pleno por conservar traços
ainda muito marcados pelo positivismo.
Já insisti
bastante sobre o caráter meramente inversivo do nietzscheísmo
relativamente a Hegel. A caracterização de uma sequência
evolutiva do que seria a história do espírito, ao transpor o
elemento da consciência de si à vontade de potência, conserva pois
o enunciado aristotélico da potenciação, radicalizando a neurose
aristocrática para uma trajetória da boa ficção à má mentira,
como da ideologia à sombra da verdade. Na origem, a vontade forte
cria a ideologia como ficções confirmadoras do seu poder, logo
seguida pela "reação" moralizante cuja ficção própria
é a ideologia da verdade como justiça demonstrável - ou seja, a
consciência escrava que cria a concepção de que a escravização é
algo de essencialmente mau.
O texto da"Vontade
de Potência" não pretende disfarçar, realmente, a crueza com
que seu autor admite que se trata, na consciência escrava, dos
oprimidos de todo gênero, mas crê que o único problema deles é
que não podem confrontar a realidade - aqui Nietzsche obviamente
asseverando o que ele considera verdade - de que tal estado
resulta apenas de sua fraqueza própria, em vez de alguma injustiça
fundamental.
Nietzsche não
percebe assim que Hegel não necessariamente considera que a
injustiça dos homens, conforme a consciência do escravo vai
gradualmente formulando, é um fato natural como coisa em si, mas
sim, justamente, que sua inaturalidade conduz à ideia da injustiça
como tal. Ou seja, à ideia de um fenômeno imanente às relações
humanas, de uma criação do homem na cultura, não precedida na
natureza.
Inversamente,
Nietzsche, que começa pela segregação do fenômeno cultural
relativamente à natureza como à objetividade pura do dado, para aí
retorna, quando reduz a escravidão à determinação da força não
apenas física, mas como qualificação da vontade de potência.
A trajetória da ação como
boa ficção ideológica, seguida
pela reação como má
mentira da justiça, culmina
pois, nessa qualificação como
a boa justiça do super-homem. Ao mesmo tempo a anulação de todo
esse
conflito demasiado humano, porque anulação da humanidade mesma como
espécie na
sua evolução por esse
novo ser; e superação do
conflito pela afirmação de sua verdade como a liberação total do
domínio dos fortes.
Resta
que a partir daí, Nietzsche esquece o correlato de
sentido da dominação, o escravo. O que é compreensível pela
ambiguidade mesma da evolução superadora, protagonizada
por um dos lados do conflito mas definida pela supressão do conflito
- como se aquele lado fosse compreensível fora dele.
O tempo do super-homem conhecerá apenas o senhor
nessa qualificação do senhorio e nela elevada à máxima potência,
sem que nesse tempo
reste porém qualquer
escravo, e contra a objeção
de que Nietzsche não expressa o super-homem como vontade de domínio,
temos que na Vontade de Potência, a caracterização do forte é sua
vontade de "mandar",
e além do forte não havendo nada que caracteriza a vontade de
potência modelar do super-homem.
Não
se responde até aí à pergunta
sobre o que exatamente Nietzsche caracterizou como o fraco,
já que pelo próprio modo
de ser das coisas não poderia haver uma caracterização autônoma
da fraqueza, que só é pensável a partir do ser dominado pela
força. O texto deleuziano
sobre Nietzsche está centrado na caracterização da oposição de
forças ativas e reativas como o que é supra-ordenado pela vontade
de potência, e assim ele tem um locus específico do escravo como
definiendum do que é reativo como qualidade da vontade - a partir de
que ela se agencia com as forças
reativas. Porém se o texto nietzschiano realmente procede por essa
analogia, de fato ele não caracteriza
a consciência ou vontade do escravo, mas sim somente a filosofia do
direito, para a sua crítica
desta em textos como a
Genealogia da Moral - que se tornam de compreensão complicada, já
que não há razão pela qual a
reação que cria a moralidade deveria se impor sobre os fortes que
naturalmente com ela
nada teriam a ver, o processo sendo
entretanto explicativo da
supremacia da legalidade na história.
O
que Nietzsche caracteriza como "o" fraco, em termos de
consciência possível, não é o escravo, mas sim a mulher
(p. 457), e é sintomático
que o escrito de Deleuze sobre Nietzsche culmine justamente na
caracterização do super-homem concebido como mito
de Dionísio- Ariadne.
///
É
certo que o hegelianismo, essa
fenomenologia da consciência, depara-se
desde o estruturalismo com o obstáculo formidável de uma teoria do
inconsciente que, para além de Lacan
e muito mais perto de Vincennes, soube se aproveitar de Hegel para
fincar com
inexcedível profundidade as suas estacas de alicerce. O
momento de, por sua vez, uma posteridade aos anos setenta se
aproveitar disso para ter como que
algo com que se entreter, já
ficou também para trás, relativamente a esse hoje em que escrevo
(30/03/2017). Robert Williams
("Hegel e Nietzsche:
reconhecimento e relação senhor/escravo", in Dotti, J. E., et
alii, Estado e Política,
a filosofia política de Hegel,
Rio de Janeiro, Zahar, 2003), reportou
de modo competente a virada pró-Hegel pós-moderna, assinada por uma
lista de nada menos que dez
nomes - um número que se torna bem grande assim que ouvimos os nomes
referenciados, os maiores "stars de campus", para usar a
expressão de Cusset, assim
afirmados na transição dos anos oitenta aos noventa,
como Judith Butler, Robert Solomon, Richard Rorty, e Eliot Jurist.
Alguns despontando nessa
época, e alguns já na
maturidade mas somente agora tornando-se verdadeiramente referenciais
de época. A referência de
Williams cita cinco artigos
de jornais, além dos longos desenvolvimentos a que se dedicaram cada
um dos teóricos citados.
Walter Kaufmann
tem entre estes últimos
um papel considerável, por ser
quem introduziu
o fio
da controvérsia.
Pois,
se assim podemos designar, é porque sua tese veio a contrapelo da
já aparentemente sedimentada
oposição estruturalista de
Nietzsche a Hegel, para mostrar inversamente, como eles são tão
afins, e falam da mesma coisa: a superação - aufhebem, sublimieren
- e um processo de desenvolvimento.
O que Williams designou a
"tese da aproximação"
de Kaufmann,
polêmica relativamente ao que aqui podemos chamar "tese do
distanciamento"
tornou-se logo ampliada pela contribuição dos demais.
Hoje
sentimos ser necessária uma revisão desse processo de liquidação
do distanciamento. Por vários
motivos. Como
tenho salientado, pode ser
que não se trate de apenas um novo lance dentro dele,
insistir na dependência
do discurso nietzschiano ao de Hegel,
se o que desejo mostrar é que ambos são atualizações de um mesmo
pressuposto, o inconsciente geoegológico,
cujas implicações se ramificam como estruturação do saber como
discurso do Ocidente, e a
consequência desse aristotelismo conspícuo alcança o que seria
designável a imaginação evolutiva
- tal qual se falou já em
imaginação sociológica. Uma
ambiguidade incontornável entre o antigo e o moderno, algo espantosa
porque não significa que não haja um fosso intransponível que
delimita, sim, a modernidade, como a emergência do sujeito pensável
e a Evolução.
Assim
não seria evitável levantar a dependência do discurso de Heidegger
a Nietzsche, Hegel, Marx, e de todos a Aristóteles, etc. Mas
a questão restando inteira como a de explicar a "dependência".
Não
creio que se tenha refutado
realmente que a intenção manifesta de Nietzsche é ser o contrário
de Hegel, a destruição do pensamento da legitimação estatal,
nem que isso se pode remediar apenas reiterando a necessidade efetiva
do Estado na constatação do que decorre dessa
ausência. Se o
que queremos é o fim do
capitalismo como,
ao invés de livre empresa,
despotismo
intolerável sobre a vida, o
neoliberalismo econômico ditando as ordens
como o avesso do Estado
é uma evidência
factual que nos é cara hoje,
mas inacessível até há poucas décadas atrás.
Mas não é de nada disso que
se tece o distanciamento, nem mesmo para o próprio Nietzsche.
Seria
desonesto a meu ver, considerar refutado aquilo
que, com auxílio
dos textos estruturalistas mais brilhantes que construíram a tese
hoje clássica, podemos
reconstituir em termos do sentimento do próprio Nietzsche sobre o
que lhe permitia
insultar tão impunemente a memória de Hegel
- algo que Carpeaux considerava ter se tornado uma realidade
corrente desde o Realismo.
Não, justamente, esse
Realismo, mas já a base
firme da teoria do inconsciente, que Freud iria estabilizar alguns
anos depois, sem nunca ter a psicanálise podido se livrar de todo da
sombra do nietzscheísmo,
não como precursor,
mas como influência imanente em seu devir.
Essa
base faz, realmente, rir - o riso que explode desse contraste sendo
um tema construtor no artigo de Derrida ("Um hegelianismo sem
reserva"). Todo o
percurso fenomenológico da consciência hegeliana consistindo num
movimento interiorizante, a Erinerung,
como a memória que se forma dos momentos anteriores, o que dota de
sentido o percurso da
realização da
consciência de si, seria
risível que de repente se revelasse
que a única força propulsora da realização é justamente o mais
completo
esquecimento.
Nada
do que a consciência possa
lembrar é realmente aquilo de que ela se compôs.
E também a lógica
oposicional
do significante, a langue
saussuriana, não tem mínimo
comum com oposição
dialética, pois não há
nenhum suprassumir ou negar de um contrário relativamente ao seu
outro diferencial (como p/b
em nossa língua). Contudo,
torna-se questionável permanecer,
com o estruturalismo, contra
a oposição, justamente o representante da maior das oposições
históricas
jamais predicável.
Nenhum par complementar
Hegel-Nietzsche é pensável, para efeitos desta
história. Mas
qual é ela? Por certo a
muito heideggeriana ocidentalização, metafísica, etc., de que
teria sido porém justiça atribuir a Nietzsche a edificação
da porta da libertação. Já vimos que a porta é falsa, mas também
a de Heidegger e dos estruturalismos. Porque
o caminho mesmo inexiste, ao invés dele ser a realidade de um
discurso possível de Platão a Hegel, qualquer unidade desse tipo
resulta da fantasia que na
modernidade constroi a oposição do subdesenvolvido e desenvolvido
("ocidental") como do que não tem trajeto ou unidade, e do
que tem.
Em
Derrida, pois, o logocentrismo é sempre
desde Platão a fantasia de
uma significação consciente
anterior ao discurso em que,
somente, contudo, pode ela
manifestar-se. A fantasia cria um estatuto suplementar, de recurso,
ao discurso. Ele serve para
algo, é o servo da consciência significativa que ele expressa.
A
função da fantasia é de recalque do inconsciente, e até aí essa
repressão é o que se espera
que exista, porém a fantasia
testemunha algo além, como uma fobia, pelo fato dela recalcar mais
do que deve, tudo o que na linguagem possa parecer extrapolar a
condição preestabelecida de recurso ao discurso. O
objeto da fobia é o
dispêndio absoluto, e é o que ela mesma expressa enquanto um
(pseuso)-saber construído todo em torno de uma justificativa
risível, a necessidade da
"reserva", da
economia. Não só Hegel, mas
também Freud, naquilo que não se deixou ser apenas o continuador de
Nietzsche.
A
fórmula do logocentrismo é então: a
linguagem só pode ser recurso, porque do contrário não faríamos
reserva, e precisamos fazê-la para evitar
o gasto absoluto, e precisamos evitá-lo se queremos viver - sem
notar, como Derrida faz ver, que assim o que se evita é a vida ela
mesma, o que se redobra é o ascetismo, o recalque injustificado
que em si é a doença neurótica,
e o que resulta é a imagem da consciência subserviente a algo
extrínseco ao que a
constitui como nada além
(do inconsciente) do seu
mesmo finitíssimo
sujeito.
Eis
todo Hegel, na concepção de Derrida,
concentrado como deve ser, às ordens de Nietzsche, na dialética do
senhor e do escravo. O Senhor
é o gasto absoluto, o enfrentamento do perigo radical
na batalha de morte, e o
sintomático na visão de Derrida é então que o Senhor seja
conceituado
por Hegel na condição da
impossibilidade do discurso. Pois
só o escravo, o que capitula na batalha, que é o Senhor quem vence
afinal, que levará à frente a linguagem como desenvolvimento da
consciência.
O
crucial aqui, para a temática das relações Nietzsche-Hegel, porém,
é a atribuída distorção
hegeliana do conceito do Senhor, não porque ele não seja
o sujeito do desenvolvimento da consciência. Para
Nietzsche efetivamente ele não é, porque
ao ver de Nietzsche, que
assim se coloca como o do Senhor ele mesmo,
o desenvolvimento desse
modo encetado
pode aportar somente numa
ideia de escravo, e
nunca em qualquer conceito adequado da liberdade que o escravo como
tal nunca concebeu nem podia conceber.
A
distorção está em estabelecer
a essência do senhorio na consciência do escravo, como atribuição
por este
do
senhorio ao
Senhor,
o vencedor da batalha. Vemos
pois que o conceito de sublimação ou suprassunção de Nietzsche
não é realmente o mesmo que o de Hegel, pois este último considera
assim a todo movimento da consciência real, onde não há, não há
consciência. Mas para Nietzsche, eis
o que se definira apenas um castratismo moral. A superação do
humano pelo super-homem é algo que não tem parâmetro de
comensurabilidade com a sublimação castradora, ela a nada sublima,
é uma evolução cujo definiendum é o devir das espécies
biológicas.
Novamente,
não é que o desacordo de Nietzsche com Hegel resulte de pensar
aquele em termos conceituais que não são os deste, como
que exista outra "consciência",
mas sim resulta da
recusa desses conceitos como suficientes para o fenômeno que
pretendem definir. Nem mesmo é o caso de dizer que eles não são
adequados. Quanto ao tópico em visa,
não se trata da consciência quando a questão é o ser ou o
não-ser. Trata-se
da vontade de potência, da qualidade inconsciente que decide sobre a
utilização das próprias
forças.
Esse é um princípio psicanalítico. São os mesmos impulsos, as
mesmas forças instintivas, na saúde e na doença, porém o que
decide entre ambas é a utilização que delas
fará um inconsciente em função do modo como problematiza o seu
desejo no devir efetivo da destinação deste a outrem.
Aos
propósitos da questão das
relações Hegel-Nietzsche, a ala do estruturalismo nietzschiano
jamais nega que os conceitos de Hegel sejam adequados para o estado
de coisas que Nietzsche
designava o humano, e que ele traduz como a situação moderna
do político na imanência do
Estado, legalidade pública,
como limite do que se propõe
desejável.
Aqui
a única crítica real, seria uma que faria ver que o estruturalismo
nietzschiano não se distingue assim basicamente da
new left radicalmente
funcionalista e "significativa" que ele combate, não tendo
raiz tanto em Hegel como em Husserl e Heidegger.
Ou seja, todos são reduções
propostas do político ao ético. O que convem muito aos propósitos
do neoliberalismo econômico. Porém a questão é por
que isso é assim - por
que pensadores cujas
intenções são tão opostas, convergem num mesmo pressuposto
ativista.
Hegel
é tanto mais adequado ao presente, registra Derrida, tanto mais ele
está já suficientemente descarregado do peso histórico do seu
período glorioso. A piada
aqui se parece
com uma
bela mulher que fez regime: "Menosprezado,
tratado levianamente, o
hegelianismo não faria senão ampliar sua dominação histórica,
desdobrando enfim sem obstáculo seus imensos recursos de
envolvimento. A evidência hegeliana parece mais leve do que nunca no
momento em que ela pesa, por sim, com seu peso todo". (op.
cit.p. 367)
O
que vem a propósito da reflexão derridiana sobre Bataille, alguém
de cuja importância histórica algo recente não se precisa
sublinhar, e que assim se expressou como hegeliano: "ninguém
sabe de si se não houver captado esse movimento [da dialética do
amo e do escravo] que determina as possibilidades sucessivas do
homem". É singular que
Bataille esteja aí, porém, falando justamene de Nietzsche.
O
trecho derridiano é bastante complexo. Pela citação de "A
Experiência Interior",
vemos Bataille criticando a nietzschiana Genealogia da Moral porque
ela "só conheceu de Hegel a vulgarização de praxe",
resultando como "prova
singular da ignorância"
o seu ficar "agarrada à dialética do amo e do escravo".
(p. 368) Mas
Derrida está salientando por meio da citação, o que teria sido o
desejo de Bataille, ele também, nas palavras de Derrida "até a
identificação" permanecer "próximo de Nietzsche".
(p. 367)
O
que Derrida defende, de fato, nesse artigo que pretende
reduzir logocentricamente o hegelianismo, é pois, que o
expressamente hegeliano Bataille é na verdade um nietzschiano muito
consequente, não ficando porém claro até que ponto o próprio
Bataille sabia disso. Nem
devendo ficar. Bataille não devia ter procedido como se devesse
explicações discursivas: "Pois, já que não se retoma em seu
rigoroso efeito a turbulência a que ele os submete [os conceitos
hegelianos], a nova configuração na qual ele o desloca e os
reinscreve, embora toquemos de leve no asunto, concluir-se-ia,
segundo o caso, que Bataille é hegeliano ou que é anti-hegeliano,
ou que ele pinta Hegel mal e porcamente".
Ao contrário do que parece, ou seja, de que "segundo o caso",
no aqui e no ali da obra, é um coisa ou
outra, conclui Derrida que "em cada um dos casos" se
estaria enganado.
Derrida
afirma aí que tal engano
se verificaria porque se estaria frustrando uma lei formal - a
que o próprio Bataille
enunciou ao seu "modo
não filosófico", a que
rege o seu texto e o estrutura
(p. 371). Lei formal da
sintaxe. Ora,
subverter
a sintaxe hegeliana é de
todo irredutível a subverter
a exegese de sua profunda coerência conceitual,
e sendo Bataille esse exímio
intérprete, impossibilita que se negue que "todos os conceitos
de Bataille são hegelianos". Mas se assim Bataille se
desicumbiu bem não só de Hegel mas, por meio dele, de toda a
história da metafísica, a
turbulência é o principal - "Para começar, não traduz
[Bataille por] a soberania, à primeira vista, o senhorio
(Herrschaft) da Fenomenologia?".
E eis o nó cego derridiano.
O
que fica à margem da imagem do discurso forjada pela neurose
logocêntrica, assim como de
toda "filosofia", é
o dom, poético, sintático,
da linguagem não reduzida à expressão do significado extrínseco,
e eis Bataille, fora da filosofia, poeta, procedendo
o nietzscheísmo pela quebra da sintaxe tradutora.
Soberania
jamais será senhorio. Soberania é o definiendum nietzschiano do
Senhor, ao contrário da essência fora de si do escravo.
Mas por essa rede de oposições orquestradas pela bifurcação
estruturante da filosofia como logocentrismo e não-filosofia como
concretude liberadora
da linguagem, Derrida chega a
uma oposição irredutível entre soberania e trabalho.
O mesmo a que aportamos nós aqui em nosso exame de Nietzsche, porém
não para considerar que desse modo se escavou o inconsciente, a não
ser como um conceito deveras problemático de se compreender
fora do estatuto de um sintoma.
A
transmutação
da soberania sobre
o senhorio consiste pois,
a meu ver, na
recusa de que aquilo que se põe pelo desejo resulte
num desenvolvimento. E o que
se põe pelo desejo na lógica do senhorio é a lei formal de uma
sintaxe sui generis, a
da própria dialética hegeliana. Não se trata,
como compreendo, de que "uma propposição (tese) não pode se
por sem se opor à outra (antítese)" de modo que a síntese
ulterior seja apenas o reforço da tese por uma mediação com seu
contrário, como colocaram
Vergez e Huisman ("História dos filósofos ilustrada pelos
textos", Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1988, p. 277). Mas sim
que a uma tese se opõe algo outro como antítese, a tese porém ela
mesma sendo contraposição a uma
pretérita
síntese - e assim iniciando o processo do qual decorrerá uma
nova síntese.
Ora,
Nietzsche também sustenta,
na Vontade de Potência, que
a expressão de um pensamento
é suscitada como réplica a
algum outro que o motiva, porém para ele disso não decorre nenhum
desenvolvimento, senão como
figura invertida da consciência do escravo
que nem
por isso transcende o
interdito, é apenas fantasia de ulterioridade. O que resulta é
vontade
de potência, em
sua expressão mesma.
Ora,
o problema é que assim generaliza-se o quid da soberania na vontade
- ela é "de potência" - quando nos dizem justamente que
aí é que não se deve generalizar, posto que a soberania do senhor
é sua criação,
inantecipável
e exclusiva. Contudo, o que se cria é "soberania" e não
apenas senhorio, por isso que a criação transcende o seu momento, a
sua circunstância, não é o empírico fugidio,
é Werke, estrutura do eterno retorno, como
a partitura de uma música, a
nova compreensão da entelequia aristotélica.
A
soberania transcende pois, o senhor, e a vontade que a cria, pois
ao mesmo tempo a nada
eles criam,
o que resulta é o
criado por aquelas forças, aqueles valores, que informam a natureza
da composição como esta aí, etc. Uma
Lei mas não um Estado?
Improvável. Werke,
mas não trabalho? Igualmente.
Nesse
ponto de tensão máxima quanto ao enfrentamento da aporia
nietzschiana da história,
toda ela um hegelianismo da consciência mas por isso mesmo votada a
nada, vontade de nada, tudo
aquilo de que se compõe a alentada obra nietzschiana contra e a
favor do niilismo, seria
preciso corrigir alguns pontos da
sedimentada artesania do feltro
estrutural
- não a urdidura e a trama, mas sim a aglomeração.
Primeiro,
a bifurcação derridiana de
filosofia e não-filosofia, como caminhos que facultam exclusiva e
respectivamente o pensamento do trabalho e a possibilidade do riso,
é contraditada até pelo próprio estruturalismo deleuziano - para
quem Nietzsche é tipicamente um filósofo, isto é, não só é ele
criador de conceios como quem elevou
à máxima potência o desiderato do nosso conhecimento como só
possível desde que tenhamos criado os nossos conceitos. E para quem
a filosofia é - algo discutivelmente a meu ver - o lugar das mais
loucas gargalhadas. Ela
ensina pois a rir do que os outros não apreendem
que seja tão engraçado.
Mas
sobretudo a interpretação de Hegel, e aqui a
ala nietzschiana do
estruturalismo não poderia ser ajudada
por ninguém. A
princípio, o enunciado sobre a relação de consciência
entre o senhor e o escravo (p. 373) exibe uma dificuldade notável de
decisão entre a consciência hegeliana como o que é em
si a dialética dessa relação, ou o que somente virá a ser
constituída por meio dela. Derrida
fala ao mesmo tempo nos dois sentidos: "A verdade [da
consciência]do senhor está
no escravo: e, transformado em senhor, o
escravo permanece um escravo
'recalcado'. Tal é a condição do sentido, da história, do
discurso, da filosofia, etc." Mas também "O senhor não
tem relação consigo, a conscência de si só se constitui
pela mediação da consciência servil no movimento de
reconhecimento...".
Porém
ele procede o argumento do seu texto claramente orientado pela
primeira opção. Justamente a que é menos favorecida por uma
interpretação menos tendenciosa do hegelianismo.
Como vimos, Hegel mesmo se pronuncia em termos de inconsciente
e de impulso, o que move as
relações desiguais de senhor e escravo, a desigualdade em si, é
efeito do desejo e não do significado já possivelmente existente. A
consciência de si resulta como efeito, do que o desejo desenvolve,
e se Hegel se expressa em termos de Razão, é apenas em função
daquilo que o estruturalismo põe em termos de Lei formal.
A
opção derridiana pela consciência como o a priori em Hegel, ao
invés de efeito do desejo
que não está porém na estratosfera - ou em cucolândia das nuvens,
para parafrasear Nietzsche que no entanto aí situava todo idealismo,
no qual parece que sempre arrolou Hegel - mas
sim num mundo em que o objeto do gozo não se
reduz ao imediato, é o que se fabrica.
Para
Derrida, pois, o que Bataille opera é a absolutez da negatividade
que em Hegel seria apenas recurso, como a Aufhebung,
o discurso ele mesmo. Rasgamento
absoluto e do negativo sem medida nem reserva, para exibir, em vez
da Erinnerung possível, o
negativo como o que não é o oposto do positivo, o negativo ue "não
tem avesso reservado", porque já não pode "colaborar com
o encadeamento do sentido". O
problemático aqui é esse "ponto d enão-retorno da destruição,
a instância de um dispêndio sem reserva que não mais nos deixa,
portanto o recurso de pensá-lo como uma negatividade". Como
assinalei em meu estudo sobre os
movimentos modernistas, a dúvida fálica aí é notável, como a
recusa perante a linguistic turn, como sua descoberta mesma, do que
ela faculta como o pensamento por relações, e assim o devir da
palavra. Recusava-se a "senhora palavra" com todas as
forças do fascínio do signo puro, e a quebra da sintaxe não é bem
a sintaxe ela própria. Não se tratava da obra de instrução do
significante, mas da oposição
teimosa entre a burocracia e a pessoalidade,
a organização e a paixão como limite sem diferença
do homem. Ou a diferença "pura". Assim
aqui Derrida não escapa, ainda que ele se esforce. Mas seu momento
estruturalista não é totalmente solidário com a dúvida fálica, é
uma genitalidade que começa porém como a feminilidade assumida
apenas na aparência da superfície, frontalidade lisa, o
mito deleuze-nietzschiano da superfície
pura como o meio produzido
desde o inconsciente, do pensamento possível, como o próprio texto
- tensão superficial, pele da água, elasticidade infinita. Ou
seja, a castração aí, necessária devido ao processo todo do
inconsciente aristocrático, geoegológico,
não é realizada, é um engodo, foi feita por um logro. Como devia?
O
texto do Derrida informa o
limite. Ele define a
soberania como o contrário do discurso, e
por essa palavra de ordem prossegue a perseguição modernista contra
a palavra relacionada ("articulada"). Uma
vez que Hegel parte do a priori da consciência, e assim, ainda mais
a priori, da significação,
esta é anacronicamente interpretada como desde a linguistic turn, a
plena vigência comunicativa,
a segunda articulação semântica desde uma primeira que é
sintática. A semântica nessa altura, pois, não é separável da
noção de comunicação, e será sempre mais inseparável até um
aprofundamento tão radical como o que ensejou a transformação das
filosofias fenomenológicas de origem husserl-heideggerianas, na
altura dos anos setenta. O
que está na raiz da emergência da estética da recepção, por
exemplo, e a filosofia humanista, locus em que se mesclam o
estruturalismo e o funcionalismo, como se pode observar na
colaboração Foucault-Laing-Cooper.
Ora,
Derrida permite notar o quanto tudo isso é tributário do movimento
modernista, recusante
da palavra: "Só existe
um discurso, ele é significativo e Hegel, aqui, é incontornável".
(p. 381).
Mas assim, "o poético e o extático é aquilo que, em todo
discurso, pode abrir-se à perda absoluta do seu sentido , ao
sem-fundo do sagrado, de não-sentido"
(p. 381), em compensação
"como manifestação do sentido, o discurso é, portanto, a
perda mesma da soberania".(p.
382)
Em
todo caso, não importando como possamos realmente situar a
significação em Hegel, já que, se a consciência é o que se faz
em vez de a priori, assim também a significação
assim em se fazendo, que mais
precede
a comunicação entre papeis pragmaticamente possibilitados do que é
esta mesma, o nó está
atado. Muito ao contrário de
Derrida atribuir
tudo isso ao
avesso do
hegelianismo, trata-se de insistir que é Hegel em pessoa, mas
dizendo o que não
disse, apenas reinterpretado: "Já
que nenhuma lógica [não dialética] comanda doravante o sentido
da interpretação, já que
a lógica é uma interpretação, pode-se reinterpretar portanto -
contar Hegel sua própria interpretação" do jogo, do sentido,
da história, como meio de uma interpretação do
trabalho, a que Hegel
teria se limitado a
consideração do negativo. Mas assim apenas "ele fechou os
olhos para a possibilidde de sua própria aposta", ou seja, a
possibilidade de toda a formação da consciência de si poder ser
apenas "uma fase do jogo" e que "o jogo compreende o
trabalho do sentido ou o sentido do trabalho, compreende-os não em
termos de saber,
mas em termos de inscrição:
o sentido está em função
do jogo, está inscrito num lugar na configuração
de
um jogo que não tem sentido"
(p. 380).
Assim
vemos o problema dessa crítica. As figuras da consciência hegeliana
deviam ser o que
na verdade aqui consideramos que ela é, a formação da consciência
em vez de um a priori kantiano das faculdades, mas a desintepretação
se radicaliza numa dedução contrária à própria hipótese. O que
ela devia ser, não resulta como o processo de sua formação num
mundo empírico, mas na inscrição
formalista de um dever-ser
do desejo, que é a soberania. Realmente é inviável considerar que
se opõe totalmente ao dever-ser apenas porque se fez oposição a
uma determinada prescrição,
e apenas porque ela recusa ser o discurso do dever-ser como
de um senhorio sobre si.
Sobre
o conceito batalliano de soberania como adequado ou não ao - assim
expresso - Senhor nietzschiano, seria
inoportuno discutir aqui, mas torna-se importante o registro do que
Nietzsche mesmo afirma a propósito do seu conceito. "Contra
Rousseau", ele tem, apenas, não o favor "dos adversários
de Rousseau", aqueles
que dizem, ao contrário da piedade originária, que "o homem é
um animal de rapina". E se não tampouco a opinião de que é
racional, o que reclama é justamente
que Rousseau tem razão. "Não é na perversidade que está a
maldição do homem, mas no amolecimento e no moralismo. Na esfera
que
Rousseau combabia com maior violência encontra-se justamente a
espécie relativamente mais forte e melhor nascida (aquela que possui
as grandes paixões
ainda não destruídas: a vontade de
potência, a vontade de
fruição, a vontade e o poder de mandar (aforisma 28). Para
Nietzsche, contudo, se Rousseau assim desprezaq a si mesmo, ele é a
própria "vaidade incandescida" - o senhorio nietzschiano
portanto recusa que o seu querer mandar seja idiossincrático, ele é
legitimado... por que? Pela vontade de potência, e se alguém não
reconhece o poderio, a culpa é de quem não reconhece, eis o fraco,
o que não tem poderio. Mas
se o fraco se levanta para fazer valer o seu
poderio, Nietzsche julga que se trata da vaidade incandescida. O que
tais lideranças equivocadas obterão não passará de obrigar os
fortes a se tornarem carrascos. O
ideal é pois que se submetam mansamente, até que consigam ser
alimentados. Os fortes estarão acomodados com sempre maior
capacidade de apascentar as classes inferiores - conforme o
capitalismo preconiza, deploravelmente demonstrando na prática
sempre mais o contrário.
Ora,
um julgamento das relações de Nietzsche com os acontecimentos
precedentes na história das ideias, mostra em sua simpatia por
Voltaire, "missionário da cultura, aristocrata, representante
das castas vitoriosas e dominantes e de seus valores" (af. 29),
um vínculo bem Iluminista.
Com
a devida ironia não
romântica, mas La rouchefoucauldiana.
Voltaire só se tornou famoso como o representante da tolerância e
da incredulidade, quando "até
então não havia passado de um bel esprit',
por ocasião de sua briga com Rousseau. Na verdade, " a inveja e
o ódio do sucesso de Roussseau impeliram-no para a frente, para as
'alturas'", mas se Rousseau, este "plebeu",
consagrou-se assim como homme de lettres,
eis aí "algo de inaudito".
Aí,
sim, o que vemos é uma das falsificações nietzschianas. Além da
que atribui a metafísica à mentalidade popular, quando
historicamente, como já sublinhamos, ela nasceu como reação da
aristocracia grega contra a democracia ateniense.
Quanto a esta, a fantasia de que a cultura letrada é monopólio das
classes rapinantes
- que só se tornam culpáveis quando deixam de assim se considerar a
si mesmas, conforme o ensinamento nietzschiano que viemos de
constatar.
Ora,
o iluminismo em Hegel pode
ser aquilo que define o niilismo nietzschiano. Conforme Hegel, o
embate iluminista com a fé,
embora tenha destruído a inocência confiante desta
e realmente efetivado um estado de coisas ulterior ao domínio
religioso, e
embora o iluminismo nunca
acerte com o que se trata, se a fé não é a confusão de algo
exterior com o que para esse algo é impossível ser, muito
menos a submissão a uma ordem extrínseca, mas
a interiorização do sentido como o mais próprio
de si, apenas resulta num
vazio que a categoria do útil visou
preencher. O Romantismo mesmo
e a descoberta das ciências humanas desmentem que tenha sido
bastante. Se é na Religião
que qualquer história
ou antropologia da cultura precisa
localizar não tanto as
origens, mas o meio do desenvolvimento da cultura - a arte e o saber.
A propósito das relações
de Hegel e a religião, não há ainda hoje formulação precisa.
Bréhier é exemplo dos que consideram que Hegel preconizava
o retorno da religião como forma dominante do saber e assim na
formulação do Estado. Seria
esse o sentido do saber absoluto.
Bréhier acentua que na filosofia da história, Hegel ligou
expressamente o cristianismo à evolução, mas o protestante, isto
é, a invenção do Estado germânico.
Os teólogos da época de Hegel não pensaram como Bréhier, tendo
sido Hegel bastante pressionado pela
concepção do saber absoluto como algo ulterior
à religião. Com efeito é complicada a decisão entre Deus e a
ciência como referencial do futuro, se a tese
hegeliana é a identidade de Deus e mundo histórico. Assim
justificação da
ciência é que ela mesma
é a realização de Deus na
história, como espírito objetivo ou conceito do saber humano.
Marcel Régnier ("Lógica
e teológica hegeliana", in: Hegel e o pensamento
moderno, Porto, Res ed. 1979)
enfatizou na teologia cristã
de Hegel o papel da trindade - eis porque, ao ver de Hegel, o
cristianismo se tornou o eixo
da
história do mundo. O que é
evidentemente um simbolismo da tríade hegeliana. Mas
também o quanto Hegel foi criticado por aqueles que viram na
identidade Deus/ciência, uma supressão da fé.
Em
todo caso, o vazio que
Hegel enuncia como o efeito
da pregação anti-clerical do Aufklärung, é
o que Nietzsche interiorizou como niilismo, mas a utilidade para a
qual ele encontrou um veículo mais poderoso, a reificação mesma do
Poder como vontade de potência,
não se tornou provisionária do que prometia como aquele
preenchimento no sentido mesmo das vontades.
Derrida
repete o gesto de Nietzsche, pelo qual o único problema com o
niilismo - ainda que fosse a face do negativo hegeliano
como, para Derrida, uma filosofia do trabalho
- é a insuficiência dele.
Levado até o fim, o niilismo arrastaria consigo o que faz a vontade
querer que se preencha a
lacuna. Impossível. Nós - ou a misteriosa inscrição - é que
somos o espaçamento. Mas
assim por que cabe a culpa ao humano, de ser sempre insuficiente?
Essa
baixeza total, esse avesso da soberania, essa escravidão, que
impossibilita o negativo ser totalmente
nada, é evidentemente porém,
de algum modo muito deplorável, mais do que o trabalho. O que
possibilita que nos submetamos ao imperativo de trabalhar, ao mesmo
tempo, para quem não é senhor, a inscrição própria a si, é
portanto igualmente da ordem do ideal. Mais do que ter acreditado na
metafísica, o humano é inculpável de crer na verdade possível.
Ora,
Nietzsche e Deleuze, que nisso lhe faz coro em seu estudo, negam a
possibilidade da verdade, porque atribuir ou "viver é avaliar"
(op. cit. p. 154). Assim se
expõem ao refutável, pois que avaliação estaria incidindo sobr e
a proposição: "não existe verdade no mundo pensado, nem
verdade do mundo sensível, tudo é avaliação"?
E
vida é o único critério,
mas de que? Ela é inviável como critério do bom e do mal em
si mesma - seria preciso estar
além, mas não pode haver juízo algum além
dela. Mas
ao mesmo tempo, ela é o critério da força e da fraqueza em
si mesma, como diferencial da
avaliação
- se esta é boa ou má,
ativa ou reativa, de senhor
ou de escravo.
É
evidente que avaliar integra o viver, mas viver é também muitas
coisas, o sentido de avaliarmos continua por se compreender, e esta
afirmação de que viver é avaliar se endereça certamente como uma
verdade. É o que vimos Heidegger designar a metafísica da
Vontade de Potência. Pois se trata do endereçamento de uam verdade
totalizante do ser que porta ao mesmo tempo restritamente sobre um
ente, a vontade de potência
essencializante
da vida como instância que avalia.
A posição
platônica do agathon transposto em valor, conforme Heidegger, aqui
se torna a nosso ver neoacadêmica. As avaliações são ditas
mentiras, conforme o conhecido paradoxo do cretense, e o verdadeiro é
também produto da vontade de potência mas negadora de si mesma
enquanto somente avaliadora, sem explicar-se porque a avaliação de
algo como Bem ou Mal "para mim" ainda não é uma verdade
"para mim".
Em
todo caso, é porque nenhuma teoria da verdade se a presenta além do
enunciado de sua negação como possível, o resultado de se proceder
por essa negação como se fosse o início da nova era da afirmação
- de si como vontade de potência, avaliar, etc. - não é
realizarmos a essência do que somos: "Só
há criação propriamente dita à medida que, longe de separarmos a
vida do que ela pode, servimo-nos do excedente para inventar novas
formas de vida".
A
invenção fora de toda condição de possibilidade
também não tem um correlato
de sua origem, pois o que esta teria que inventar seria a novidade
relativamente a si mesma enquanto existente.
Este novo seria então
misteriosamente já aí na inteligência, o super-enunciado
super-homem. Não se explica, pois,
porque a história se detem
nesse ponto,de modo que o super-homem também não seria a negação
de si no
novo relativamente a si, e assim sucessivamente, nem porque essa não
é uma dialética.
Deleuze
repete a paralogia do novo
cujo correlato essencial é o que lhe precede, o anterior.
Ao estabelecer a afirmação,
especifica que ela não
denega o ser, mas é um novo conceito de Ser. Ela própria é o que é
ser. Não há pois, conceito de Ser, há o de afirmação. Quanto
a esta, primeiro se expressa que o ser não é objeto da afirmação,
mas logo depois, que a afirmação é o ser enquanto ela é seu
próprio objeto afirmado.
A
fórmula do Ser é a afirmação auto-afirmadora. Mas qual o sentido
de se afirmar o ter afirmado, sem que objeto algum dese primeiro
afirmar tenha sentido de ser? Nesse ponto, Deleuze completa o que
Heidegger considerou o percurso metafísico de Nietzsche,
bem comme Il faut. Duplicando
a afirmação bifurca o ser relativamente ao devir.
A
primeira afirmação é devir, a que afirma a ela mesma é o Ser.
Porém também a primeira é que é Ser, mas só o sendo quando
afirmada pela segunda vez. (p. 155) A redução ao gênero sexual, o
primeiro masculino e o segundo feminino, é dissimulada pelo
simbolismo do deus, que ocupa o lugar do masculino, sendo o deus
(Dionísio) o tipo enunciado do super-homem.
Mas
assim supõe Deleuze que Nietzsche resgata o feminino - espezinhado
como tudo que é odioso na fraqueza,
conforme o texto da Vontade
de Potência, de resto "ser
mulher" presecrevendo-e como o que Nietzsche considera essencial
no Romantismo e em Rousseau.
A
paralogia do gênero, redobrando a do novo, é sintomática. O texto
mais misógino de Nietzsche, a Vontade de Potência, enuncia
a mulher, em vez de um
simples reflexo do homem, o
contrário dele como passividade e exaltação romântica. "Mulher"
é pois tudo o que repugna o ideal nitidamente viril. O
que ela deseja não é igualar o homem, mas canalizar a força dele
para a sensualidade em que ela é o objeto, limitando a
força pela languidez mas ao mesmo tempo
sendo a força dele o que a fascina, sem que ela tenha outro móvel
existencial que essa fascinação.
Como poderíamos salvar o
super-homem de ser apenas a hipostasiação do homem - se
efetivamente não podemos salvar Zaratustra da alegoresis em que se
consubstancia?
Ou seja, eis a
fantasia que engendra todas - segundo a ordem do sintoma. A fantasia
do homem que não necessita da mulher para ser engendrado e pensado.
Fantasia do fruto sem labor, da máquina gratuita, do senhor sem
escravo, etc. A relação hipostasiada demiúrgica deveria libertar,
em todo caso, precisamente esse reflexo, o suplemento, na versão
deleuziana. Mas Ariadne, a esposa de Dionísio, é apenas a afirmação
dele enquanto afirmação primeira. Ela é a afirmação segunda dele
- o "espelho, a noiva, a reflexão" (p. 158). Ele,
enquanto a realidade primeira e labiríntica do devir que esgota toda
sendidade do Ser.
Ainda assim, para
Deleuze a mulher que ama o homem é apenas "a imagem feminina do
homem", enquanto o reflexo do casal divino Dionísio-Ariadne,
simboliza nesta a libertação verdadeira da mulher, sua transmutação
em mulher, cuja essência nova, o "poder feminino liberado",
é uma única afirmação desejosa, vir a ser mãe do super-homem.
(p. 156)
Portanto, o ser-aí
se reduz aos sendos, os entes como ao que devém. Ora, desse modo
esgotado, o Ser se torna enunciado na segunda afirmação, tanto
quanto os demais valores do devir: o múltiplo e o acaso (p. 157).
Porém estes valores segundos, meta-físicos, "arianos" -
de Ariadne - são novo poder, relativamente ao do gozo primeiro, a
afirmação do que ocorre efetivamente em devir. O gozo sobre o gozo:
o mais-de-gozar lacaniano, que não podemos deixar de reconhecer
aqui.
Uma vez que o porvir
como resultado do niilismo é a vontade de potência, como decisão
do presente nietzchiano ou "nosso" - da modernidade à
Heidegger - este seria o acabamento da metafísica, que não a
ultrapassa.
Nietzsche, filósofo, homem, não ultrapassa o niilismo. Mas em vez
de ser por uma confusão estruturante dos entes como ser, não seria
porque a atribuição permanece reificada conforme um aparato
transcendental? A semiótica repete o situamento heideggeriano da Als
Struktur - atribuída como transcendental.
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/////// NOTÍCIAS NÃO DIVULGADAS NA IMPRENSA/////////////////////////
=== O GOVERNO PEZÃO (RIO DE JANEIRO) ainda NÃO PAGOU O SALÁRIO DE FEVEREIRO DO "SEGUNDO GRAU" DA REDE PÚBLICA, EM MARÇO, AO CONTRÁRIO DO QUE A IMPRENSA DIVULGOU; SOMENTE ALGUNS PROFESSORES RECEBERAM, MUITOS PROFESSORES DA FAETEC NÃO RECEBERAM ATÉ AGORA ; NENHUM PROFESSOR DA REDE PÚBLICA RECEBEU O ADICIONAL DE NATAL; (01/04/2017)
ALÉM DE TODOS OS GIGANTESCOS ROUBOS DE SALÁRIO DO ANO PASSADO, ESTE ANO O GOVERNO RECOMEÇOU A PERSEGUIÇÃO À SOBREVIVÊNCIA DO PEQUENO SERVIDOR PÚBLICO E SUAS FAMÍLIAS
COMO NA DITADURA, O ÓDIO DO FILHO DA PUTA DA GLOBALIZAÇÃO, QUE NUNCA FOI ATACADO PELO PT, BEM PELO CONTRÁRIO, É CONTRA QUEM TEM LETRAMENTO MAS NÃO É EUROPEU
NEM PUTINHA DE MÍDIA
==== EM DEZEMBRO DE 2016, AS FOLHAS DE PAGAMENTO DOS PROFESSORES DA REDE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO VIERAM COM UM DESCONTO DE 5% PARA UM SINDICATO ILEGAL, NUNCA AUTORIZADO NEM CONHECIDO POR NENHUM PROFISSIONAL DA EDUCAÇÃO;
A PAGADORIA DO ESTADO INDEXOU O DESCONTO EM FOLHA
O SINDICATO SE ASSINOU NAS FOLHAS, "OS SOCIÓLOGOS"
PROFISSIONAIS INDIGNADOS PROCURARAM O SINDICATO, CONFORME O ENDEREÇO; FORAM INFORMADOS DE QUE O NOME ESTAVA ERRADO; QUANTO À COISA, NÃO FOI DESFEITA. (acréscimo em 2019, até agora o desconto fraudulento não foi restituído, mesmo os professores tendo sido orientados para se cadastrarem de modo a receberem a restituição)
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a desgraçada nojenta claro perpetua suas falcatruas na cidade continua cobrando conta fraudulenta
esta semana a imprensa disse que o tiroteio em vila isabel durou vinte minutos - nós ouvimos tiroteio e bombas a noite inteira
Quem
apoia os escravocratas da globalização?
Aviso
ao Mundo: A população brasileira está sendo escravizada
pelo governo temer cúmplice do aparato multinacional e continuador
dos esquemas implementados pelo “pt”.
Além
de estar roubando os salários dos funcionários públicos
(professores, médicos, policiais, etc.) desde há um ano, e de estar
roubando as verbas para funcionamento dos serviços públicos que
desempenham estes profissionais (roubando verbas do funcionamento das
escolas, hospitais, delegacias e viaturas, etc.) desde há vários
anos, e de não liberar aumento salarial dos funcionários públicos
há mais de cinco anos, o governo está impondo pacote assassino que
exige aumento da contribuição para aposentadoria, com consequente
diminuição do montante do salário atual, ao mesmo tempo que exige
aumento do tempo necessário à aposentadoria para quarenta e cinco
anos de serviço, e congelamento de aumentos de salário pelos
próximos três anos.
O
governo está fazendo os funcionários públicos de reféns,
chantageando a população por afirmar que só regularizará os
salários diminuídos, quando se aprovar o pacote assassino – já
houve liberação da venda da Cedae que estava incluso no pacote.
Enquanto
os salários estão suspensos, rede bancária se locupleta com os
juros cobrados por empréstimos e atrasos; assim como todo o sistema
de crédito está beneficiado pela cobrança de juros por atrasos,
inclusive as contas de serviços básicos como água, luz, telefone,
internet.
Concomitantemente
a população está sujeita a tirania de multinacionais como
microsoft, claro e oi, cujos aparelhos e serviços impedem todas as
decisões dos usuários, por mínimas e pessoais que sejam as
escolhas; os aparelhos de computador vem acoplados a intrusão óbvia
não detectável, e os atendentes de telecomunicações atribuem o
que querem aos clientes porque não são obrigados por lei a gravarem
as transações feitas por telefone, com o governo atribuindo
legalidade à imputação arbitrária qualquer das empresas aos
clientes.
Há
inúmeros sinais de que as casas são cativeiro info-midiático,
sendo espionadas vinte e quatro horas por dia, para efeitos de
esquemas de coação de decisões privadas, manipulação de imagem,
calúnia e difamação de pessoas idôneas, roubo de propriedade para
efeitos de compre de votos por políticos que assim fazem tirania nos
bairros contando com apaniguados, populismo, etc.
Todos
os setores estratégicos e rede de serviços básicos, como água,
eletricidade, telefonia, mineração, aeroportos, e outros, foram
vendidos por governos corruptos a multinacionais, assim como do pt, estando a população
sujeita à exploração e arbítrio de estrangeiros -lembrando que a Oi, ultra abusiva, segundo consta é associada à família de Lula. As empresas
nacionais são de capital misto, relacionadas a esquemas de trabalho
escravo (ver na Internet sites intitulado “lista suja” do
trabalho escravo, que porém o governo pt impede ser atualizada desde há
alguns anos) e corrupção governamental para efeitos de isenção de
impostos. O que foi apurado desses efeitos não resultou na
restituição do dinheiro;
Solicitamos
a todos que neguem apoio ao que está acontecendo no Brasil como
escravização da população e genocídio perpetrados por classe de
escravocratas; solicitamos a artistas, políticos, turistas e
população, que boicotem relações com a classe escravista composta não só de capitalistas mas também de políticos de direita ou de esquerda que privatizam o país, disseminam comportamento autoritário, abusam da privacidade e dos direitos da cidadania
especialmente solicitamos que
ergam a voz na defesa da nossa liberdade privada contra as
intervenções diretas microsoft /telecomunicações, as quais
significam impedimento da expressão pessoal, destruição da memória
assim como de textos escritos e produção letrada de qualquer tipo,
lavagem cerebral, tortura psicológica, severo regime de
discriminação de pessoas com total humilhação e regime de
eliminação física dos ativistas que protestam, ameaças desumanas
quando estão no cativeiro info-midiático .
solicito apoio a
penacapital
contra genocidas, assassinos e contra os escravistas.
============
Em
20/02/2017 (acréscimo em 2019: revi este
texto, de modo a
atenuar expressões de revolta, como palavrões
ofensivos que no entanto
seriam justificáveis devido à situação de total
descalabro, abuso, roubo direto, que estava sendo
impingida a nós assim como à classe dos funcio-
nários públicos)
texto, de modo a
atenuar expressões de revolta, como palavrões
ofensivos que no entanto
seriam justificáveis devido à situação de total
descalabro, abuso, roubo direto, que estava sendo
impingida a nós assim como à classe dos funcio-
nários públicos)
Após um ano do cativeiro
dos funcionários
públicos
feitos refens pela quadrilha dos bandidos composta por multinacionais e políticos que assim fizeram a chantagem da Cedae –
pagariam aos funcionários somente se o país vendesse a água que
bebe à multinacional – hoje a rede globo
anunciou a venda. Na mesma sequência de anúncio da nojenta novela
que trata o país como capitanias hereditárias.
Mas
se houver organização que impeça a posse do território
pelos invasores das multinacionais nos serviços básicos, e se tirarem as
concessões, e se prenderem os políticos que
estão recebendo o dinheiro da venda, não vai haver a crise
econômica decorrente da venda.
Crises
econômicas facilmente explicáveis, posto que o país fica sem a
fonte de renda, e mesmo o dinheiro ínfimo que recebe como pagamento
fica apenas
A GENOCIDA SAMARCO DEVE SER PROCESSADA, CONDENAR
OS RESPONSÁVEIS PELO GENOCÍDIO DE 2015 É DEVER DA HUMANIDADE
22/02
PRENDAM TEMER
NÃO CONTENTE COM A VENDA DA CEDAE O BANDIDO TEMER CHANTAGEIA POPULAÇÃO TIRANDO OS PAGAMENTOS SUBSEQUENTES DO MES, A FIM DE OBTER MEDIDAS ASSASSINAS ADICIONAIS CONTRA OS BRASILEIROS
===========
AVISO A GANG, QUE ESTÁ FAZENDO OPERAÇÃO CLANDESTINA DE SABOTAGEM NA MINHA CONTA, MEUS BLOGS E COMPUTADOR, E PLÁGIO = NÃO HÁ QUALQUER CONDIÇÃO DE SUSTENTAREM REPRESENTATIVIDADE DA MINHA PESSOA SEJA QUAL FOR O TEMPO OU LUGAR
MINHA CASA NÃO É ZONA PÚBLICA
FORA DO MEU APARTAMENTO, SOLICITAMOS POLÍCIA CONTRA OPERAÇÃO DE CATIVEIRO DE CIDADÃOS IDÔNEOS POR GANGS QUE ASSOLAM A VIDA PRIVADA
SUAS RIDÍCULAS AÇÕES DE ALTERAÇÃO DO QUE ESCREVO, SUA NOJENTA FINALIDADE MANÍACA DE DENEGRIR MINHA IMAGEM, TODA SUA ODIOSA VIDA DE PARASITAS DA MINHA PESSOA, TEM QUE SER DELATADA PARA TODA A POPULAÇÃO CONHECER A IDENTIDADE DE TAMANHOS IDIOTAS QUE VOCES SÃO, BANDIDOS QUE ESTÃO INFESTANDO A SOCIEDADE A PARTIR DE OPERAÇÕES COORDENADAS A COMÉRCIO E INDÚSTRIA DE APARELHOS DIGITAIS E SERVIÇOS DE INTERNET
EXIGIMOS GOVERNO A ALTURA DA MANUTENÇÃO DA SEGURANÇA E PRIVACIDADE DA POPULAÇÃO NA ERA DA INFORMÁTICA
===== NÃO ACEITAMOS DESCULPAS ===============
INFORMÁTICA NÃO É BANDIDAGEM
A CULPA É DO GOVERNO QUE NÃO OFERECE SEGURANÇA PARA INCRIMINAR A GANG DE BANDIDOS QUJE PROVAVELMENTE TEM RELAÇÃO COM REDES DE PROSTITUIÇÃO
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JAMAIS LICENÇA ALGUMA ME FOI PEDIDA OU POR MIM CONCEDIDA A QUEM QUER QUE SEJA PARA INTEVENÇÃO EM MINHA CONTA, COMPUTADOR OU ESCRITOS
OS NOJENTOS BANDIDOS ESTÃO POR SER IDENTIFICADOS A FIM DE QUE LHES SEJA IMPUTADO STATUS DE CRIMINOSOS E/OU DOENTES MENTAIS
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Em 21/12
Gostaria de saber quando a operação indecente de invasão da clique de parasitas criminosos desconhecidos vai ser expulsa dos meus aparelhos computador e celular; se os monomaníacos cuja única palavra é morte, devem ir para a cadeia ou para o hospício, é questão do tribunal resolver, agora eu quero saber qual é a instituição de segurança pública responsável pela impunidade de atuação desses sem-vergonhas, há anos sem que tenhamos onde registrar queixa;
Nenhuma licença me foi pedida ou por mim concedida a quem quer que seja que pudesse ser identificado como fautor do mencionado crime; não há qualquer pessoa que eu pudesse identificar em condições de acesso ao meu computador coerente com as ações relatadas.
A propósito do outro computador, este em que ora escrevo: também é objeto de intervenções, porém como é o que meu marido usa, não são tão frequentes nem impedem totalmente o funcionamento. Porém quando ocorrem, afetam apenas arquivos relacionados ao meu uso. Por exemplo, a página de entrada dos meus blogs foi uma vez desconfigurada - o técnico que a consertou asseverou não ser possível que o computador o fizesse sozinho, mas como já informei, meu marido e eu que somos os únicos usuários e proprietários do computador fez a alteração, o que é evidente uma vez que visou impedir o nosso próprio uso. A desconfiguração foi alteração do modo de compatibilidade para um tipo desusado, não obstante o computador estar configurado para o tipo corrente, isto é, atual (conforme o que o técnico restaurou).
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blog postado em 01/10
ATENÇÃO POLÍCIA : ESTA CONTA E MEU COMPUTADOR ESTÃO SENDO UTILIZADOS POR BANDIDOS À MINHA REVELIA; TERRORISMO DE BANDIDOS DE COMPUTADOR COM TOTAL CONTROLE SOBRE NOSSAS CASAS
de 27/ 09 a 03/10, MEU COMPUTADOR ESTÁ INVADIDO POR BANDIDOS
ABERRAÇÃO NO RIO DE JANEIRO
BANDIDOS INVADEM COMPUTADOR, ALTERAM TEXTOS, ARQUIVOS, FAZEM MENSAGENS COM ORDENS POR JANELAS
IMPEDEM USO DE BLOG
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BLOGSPOT = EXIGIMOS INTERFACE COM USUÁRIO POIS EMPRESA DETEM CONTEÚDOS PUBLICADOS EM NOME DO USUÁRIO
ESTOU UTILIZANDO COMO QUALQUER PESSOA QUE PAGUE A INTERNERT, O ESPAÇO DE BLOGSPOT PARA PUBLICAÇÃO DA MINHA PRODUÇÃO LITERÁRIA E DE PESQUISA EM CIÊNCIAS HUMANAS; TENHO RELATADO INÚMEROS INCÔMODOS NA UTILIZAÇÃO DO ESPAÇO; MAS DESDE 27/09 ATÉ HOJE, 03/10, NÃO SÓ MINHA CONTA MAS TAMBÉM MEU COMPUTADOR ENCONTRA-SE INVADIDO POR COMANDOS QUE ALTERAM O CONTEÚDO DOS TEXTOS ARQUIVADOS E DO BLOG, IMPEDEM O MEU USO DOS CONTROLES DO COMPUTADOR, E IMPEDIRAM A PRODUÇÃO DE UM NOVO BLOG - CONHEÇO USUÁRIOS COM MAIOR NÚMERO QUE OS MEUS E QUE NÃO ESTÃO SENDO INCOMODADOS.
REPETINDO, MEU COMPUTADOR PESSOAL ESTÁ SENDO SABOTADO ESCANDALOSAMENTE, COM ALTERAÇÃO CONSTANTE DOS CONTEÚDOS DOS ARQUIVOS
NÃO FOI POSSÍVEL MUDAR A MINHA SENHA
TODOS OS COMANDOS DA CONTA E DO COMPUTADOR ESTÃO UTILIZADOS POR BANDIDOS DESCONHECIDOS;
NÃO HÁ QUAISQUER PESSOAS CONHECIDAS QUE TENHAM ACESSO AUTORIZADO AOS MEUS ARQUIVOS E MINHA CONTA
MEUS DADOS NÃO SÃO COMPARTILHADOS
NENHUMA LICENÇA ME FOI PEDIDA NEM CONCEDIDA PARA ACESSO OU CONTROLE DE TERCEIROS A MINHA CONTA, MINHA CASA OU COMPUTADOR
INDÚSTRIA DE INFORMÁTICA FAZ CATIVEIRO, OPERAÇÃO ILEGAL, INVASÃO DE PRIVACIDADE, ABUSO TOTAL DA PROPRIEDADE INTELECTUAL E DA CONSCIÊNCIA
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O ESCÂNDALO DO CATIVEIRO INFO-MIDIÁTICO NO BRASIL E AS ELEIÇÕES DA PREFEITURA
ELIANE COLCHETE
Estou registrando desde 27/09 as intervenções diretas de violência contra o conteúdo e obstrução da comunicação, verificadas na minha conta de blogspot internet e em meu computador pessoal. Bandidos não identificados retiraram o blog "psicologia" publicado em 2012, redataram o mesmo que apareceu com o referencial de 20/05/2016, mas logo, em 28/09 foi constatado que o texto havia sido retirado da página, que restou apenas com poucos parágrafos iniciais. A cópia da página assim reduzida substituiu também o arquivo "psicologia" com o texto integral armazenado em word, do meu computador.
ATENÇÃO: ESTOU RELATANDO QUE O MEU ESTUDO SOBRE PSICOLOGIA, PUBLICADO DESDE 2O12 NA INTERNET, QUE VÁRIOS LEITORES JÁ PODEM TER CONHECIDO, FOI RETIRADO NÃO SÓ DA INTERNET COMO TAMBÉM DE TODOS OS ARQUIVOS GRAVADOS EM PEN DRIVE LEGÍVEIS EM MEUS TRÊS COMPUTADORES DOMÉSTICOS. O BLOG ESTAVA SALVO EM VÁRIOS PEN DRIVES, MAS FOI CONSTATADA INTERVENÇÃO DE RETIRADA DO TEXTO COM OBJETIVO ÓBVIO DE IMPEDIR A PUBLICAÇÃO DO MESMO, NA PÁGINA DE INTERNET. HOJE 01/10/2016;
VIOLÊNCIA TOTAL CONTRA MEUS DIREITOS, MINHA CONSCIÊNCIA ASSIM COMO A DOS LEITORES, DE TODA A HUMANIDADE QUE PODERIA SE BENEFICIAR COM O ESTUDO, CONTRA A SIMPLES VERDADE DA EXISTÊNCIA DESTE ESTUDO - OS CANALHAS BANDIDOS ATUANDO NESTA CIDADE SÃO INIMIGOS DA VERDADE;
MENTIROSOS DESONESTOS CÍNICOS
Mais intervenções diretas em conteúdos de texto foram verificadas, como a substituição da palavra "fascismo" pela palavra "nazismo" em vários blogs onde aquele termo aparece como referencial de denúncia em início de página por mim escrita. A correção resultou em nova substituição - de que corrigi mais uma vez, porém o que está sendo constatado é que NÃO HÁ GARANTIA DE CONSERVAÇÃO DOS CONTEÚDOS ESCRITOS EM PÁGINA DE BLOG NA INTERNET, NEM HÁ GARANTIA DE PRIVACIDADE OU CONSERVAÇÃO DE CONTEÚDOS EM WORD (PERSONAL COMPUTER).
INÚMERAS OPERAÇÕES DE SABOTAGEM DOS COMANDOS DO COMPUTADOR E CONTROLE DOS MESMOS POR OUTROS ESTÃO SENDO VERIFICADAS DESDE ENTÃO.
ESTE BLOG DENUNCIA ESTADO DE CALAMIDADE PÚBLICA, TERRORISMO CONTRA A CONSCIÊNCIA, POIS NÃO HÁ PROVIDÊNCIAS DE AUTORIDADES CONSTITUÍDAS CONTRA O ABUSO INFO-MIDIÁTICO, E O GOVERNO IMPÕE USO PARA TODO TIPO DE TRÂNSITO DE DOCUMENTAÇÃO PÚBLICA, CONCURSOS PÚBLICOS, ETC. , ALÉM DE DETENÇÃO DE MONOPÓLIO DA ESCRITA PRIVADA PELA INDÚSTRIA INFORMÁTICA;
ELEIÇÕES PARA PREFEITURA COMPROVAM A TESE DE QUE O TERRORISMO INFO-MIDIÁTICO É OPERAÇÃO DE CENSURA DITATORIAL, A QUAL ABRANGE ATOS DE OMISSÃO E VANDALISMO CONTRA A PUBLICAÇÃO DE INFORMAÇÕES QUE DESTOAM DA MANIPULAÇÃO IDENTITÁRIA QUE SISTEMAS PROPAGANDÍSTICOS DE GRUPOS PRETENDEM IMPOR À POPULAÇÃO PARA EFEITOS DE DOMÍNIO ILEGAL SOBRE OS INDIVÍDUOS.
POIS A IMPORTANTE NOTÍCIA DE QUE O CANDIDATO PEDRO PAULO, QUE REPRESENTA A ADMINISTRAÇÃO EDUARDO PAES E PEZÃO, ESTÁ SENDO PROCESSADO POR VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES, NÃO FOI DIVULGADA NA IMPRENSA, TORNANDO-SE CONHECIDA APENAS PELA DENÚNCIA DE OUTRO CANDIDATO DURANTE O DEBATE DE ONTEM.
DENUNCIE O CATIVEIRO
INFO-MIDIÁTICO NO RIO DE JANEIRO
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ESTAMOS SOLICITANDO LEI QUE FACULTE REGISTRO DE OBRAS ESCRITAS NO MEC SOB A MODALIDADE "BLOG INTERNET".
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O CATIVEIRO INFO-MIDIÁTICO ABRANGE AINDA IMPUNIDADE TOTAL A OPERAÇÕES DE DOMINAÇÃO DE INSTITUIÇÕES ESCOLARES POR AÇÃO DE PARTIDOS POLÍTICOS. MILITANTES DE PARTIDOS ASSIM DESIGNADOS DE ESQUERDA ESTÃO INVADINDO SALAS DE AULA OU DE EXERCÍCIO DE ATIVIDADES DOCENTES, INTIMIDANDO OS PROFISSIONAIS, EXIGINDO QUE PRESTEM INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS SOBRE SUA ATUAÇÃO ACADÊMICA.
O GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO ESTÁ MANIPULANDO CARGOS E SALÁRIOS, ATRASANDO PAGAMENTOS, DIRETORIAS ESTÃO NEGANDO DIREITOS DE CONCURSADOS E ATUALIZAÇÃO DO NÍVEL CONFORME GRAU ACADÊMICO; CONCESSÃO DESSES MESMOS DIREITOS SÃO FEITAS APENAS CONFORME CONVENIÊNCIA "POLÍTICA" DE DIRETORIAS OSTENSIVAMENTE LIGADAS A PARTIDOS.
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ATENÇÃO: ESTOU REGISTRANDO QUE MEUS COMPUTADORES DOMÉSTICOS ESTÃO SOB INTERVENÇÃO DE CANALHAS BANDIDOS QUE TEM CONTROL SOBRE OS COMANDOS, DESTROEM TEXTOS, ESTÃO FAZENDO TODO TIPO DE HORROR NOS ARQUIVOS, NA MINHA CONTA DA INTERNET;
VÃO SER DESCOBERTAS AS IDENTIDADES DOS MALDITOS MENTIROSOS NOJENTOS CANALHAS
SE O TEXTO APARECER SOB OUTRO NOME DE AUTOR, SERÁ DENUNCIADO O OUTRO NOME POIS O TEXTO TEM REGISTRO